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Em defesa da liberdade

O atentado ao jornal satírico "Charlie Hebdo", em Paris, impõe ao mundo o desafio de combater o terrorismo sem alimentar a xenofobia e a intolerância religiosa

Em defesa da liberdade

SOMOS TODOS CHARLIE


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SOMOS TODOS CHARLIE
Multidão se reúne na Place de la République na noite
da quinta-feira 8 em solidariedade às vítimas do ataque terrorista

Quando o berço do ideal de liberdade ocidental é atacado, o golpe é mais dolorido. Quando um dos pilares mais sagrados da democracia – o da livre expressão – é atingido pelo terrorismo, o dano é mais profundo. Quando o humor a lápis e caneta se torna vítima da intolerância religiosa manifestada pelo disparo de fuzis e bombas, o riso se perde e a graça e o chiste cobrem-se de luto. Para que a combinação de ações lamentáveis e trágicas como essas jamais e em tempo algum voltem a se repetir, o 7 de janeiro de 2015 deve ser para sempre lembrado. Nesse dia, última quarta-feira, aos gritos de “Allahu akbar” (Deus é grande), dois homens mascarados e armados com fuzis AK-47 invadiram a sede do jornal satírico “Charlie Hebdo”, em Paris, na França, e mataram 12 pessoas, sendo nove jornalistas, incluindo o editor-chefe, renomados cartunistas e dois policiais, além de ferirem outras 11. De acordo com a polícia francesa, os autores dos ataques foram os irmãos franceses Said e Chérif Kouachi, de 34 e 32 anos. Ao pior atentado terrorista na França dos últimos 54 anos – desde a Guerra da Argélia –, o mundo demonstrou consternação e a Europa reagiu com milhares de pessoas nas ruas exibindo cartazes e entoando vozes em defesa da liberdade de expressão. Diante da pressão para responder celeremente à comoção mundial, a polícia francesa se lançou numa caçada sem precedentes aos autores da barbárie. Mais de 80 mil agentes foram mobilizados.

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COMBATE
Forças especiais da polícia francesa lançam ataque contra o
sequestrador Amedy Coulibaly, que fez reféns no
mercado judaico em Porte de Vincennes, em Paris,
na sexta-feira 9. Na ação, morreram Coulibaly e outras quatro pessoas

Na tarde da sexta-feira 9, Said e Chérif Kouachi foram mortos em uma ação coordenada dos agentes franceses. Eles mantinham um refém em uma fábrica em Dammartin-en-Goele, nordeste de Paris, a cerca de 40 km da capital. O refém foi libertado pelas forças de segurança. Os irmãos já estavam no radar dos serviços antiterroristas franceses e, de acordo com autoridades americanas e europeias, tinham ligações com a Al-Qaeda. Em 2011, Said fez treinamento em um campo da Al-Qaeda, no Iêmen, de como manusear armas e atirar. “Nossa melhor arma é a união. Nada pode nos dividir e nada pode nos colocar uns contra os outros”, conclamou o presidente da França, François Hollande, um dia antes do assassinato dos acusados.

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Ameaça com data marcada
Ácido nas críticas às religiões e à política, o jornal satírico “Charlie Hebdo”, que tem circulação de cerca de 30 mil exemplares por edição, estava longe de figurar entre os grandes representantes da imprensa europeia, mas conquistou a admiração de boa parte da população francesa pela coragem de manter a publicação das charges satíricas, desde 2006, sobre o profeta Maomé, fundador do islamismo, mesmo após incontáveis ameaças. Em 2011, a redação do periódico já havia sido alvejada por coquetéis molotov e incendiada na madrugada. Quatro anos depois, porém, o desenlace ganhou contornos trágicos. No início da manhã da quarta-feira 7, poucas horas antes do ataque, o Twitter do semanário francês havia publicado uma charge em que satirizava Abu Bakr al-Baghdadi, líder do grupo terrorista Estado Islâmico. Na mesma semana, a edição impressa mais recente do “Charlie Hebdo” trazia um cartoon quase premonitório. “Nenhum ataque na França ainda?”, questionava o quadrinho. Ao que um guerreiro jihadista com um fuzil nas costas respondia: “Calma, ainda podemos mandar nossas felicitações até o fim de janeiro”. Na França, é tradição desejar feliz ano-novo até o fim do primeiro mês. O humor cáustico, sem fronteiras, que não perdoava religiosos, políticos e homens de negócios, é uma das marcas do jornal. Seu diretor editorial, Stéphane Charbonnier, o Charb, 47 anos, era um defensor do direito irrestrito de satirizar, criticar e ofender. Foi um dos primeiros a morrer no ataque, atingido por um tiro na cabeça. Ao seu lado, caiu o policial designado para protegê-lo. Por causa das constantes ameaças de morte, Charb era escoltado desde 2012.

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A sequência de assassinatos cometidos pelos dois terroristas encapuzados, armados com fuzis AK-47, durou cinco minutos. Na fuga, os suspeitos, os irmãos franceses Said e Chérif Kouachi, trocaram tiros com a polícia e executaram um oficial que, caído ao chão, levantava as mãos em sinal de rendição. “Vingamos o profeta Maomé”, gritaram antes de entrar no carro. Ao volante, segundo as primeiras investigações, havia um terceiro homem, identificado como Hamyd Mourad, 18 anos, que se entregou horas mais tarde. Chérif chegou a ficar preso em 2008 por ligação com a rede Buttes-Chaumont, que arregimentava potenciais terroristas para lutar pela Al-Qaeda no Iraque. O nome de Said também apareceu na investigação, mas ele nunca foi processado por falta de provas.

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O choque e o horror que se seguiram ao atentado extrapolaram a dimensão do modesto “Charlie Hebdo” e foram exacerbados pela morte de uma policial, de 26 anos, ao sul de Paris, na manhã seguinte. Antes da morte dos suspeitos, os investigadores franceses haviam estabelecido uma conexão entre os apontados como responsáveis pelo massacre em Paris e o assassinato da agente de polícia. O acusado de disparar os tiros na área de Montrouge conhecia Cherif e Said Kouachi. Segundo os investigadores, os três homens seriam todos membros da mesma célula jihadista parisiense que dez anos atrás enviou jovens voluntários franceses ao Iraque para combater as forças dos Estados Unidos. Na tarde de sexta-feira 9, em meio às buscas pelos suspeitos do atentado ao “Charlie Hebdo”, um tiroteio foi registrado no leste de Paris em uma mercearia kosher (judaico). Cinco pessoas foram feitas reféns pelo mesmo homem acusado de matar a policial. Na ação coordenada que matou os suspeitos pelo massacre ao jornal satírico, a polícia francesa também invadiu a mercearia judaica e eliminou o sequestrador, identificado como Amedy Coulibaly. Durante a operação, quatro reféns teriam morrido. Até o final da tarde da sexta-feira 9, não havia informação oficial sobre o total de mortos. Um sequestro foi registrado no centro de Montpellier, enquanto durava a caçada aos terroristas. Oficialmente, a informou que não há relação com a ação terrorista.

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A reação mundial ao terror aconteceu na velocidade, tons e contundência que se esperam ante um ataque de tamanha brutalidade. Começou na internet, onde vídeos da ação dos terroristas, capturados pelas câmeras de smartphones de moradores e funcionários de prédios vizinhos, se espalharam e causaram horror e indignação. Em poucas horas, o tópico #JeSuisCharlie (Eu sou Charlie) era o mais popular em redes sociais. Nos dias seguintes, outra hashtag, #JeSuisAhmed (Eu sou Ahmed), lembrava o policial muçulmano Ahmed Merabet, executado na rua por um dos terroristas. O frio assassinato também foi gravado. Em homenagem aos colegas mortos, cartunistas de diferentes nacionalidades publicaram charges sobre o episódio (confira quadro). Na noite daquela quarta-feira, quase todas as grandes cidades europeias foram tomadas por manifestações de solidariedade. O dia seguinte, quinta-feira 8, foi de luto nacional na França. Milhares de cidadãos foram às ruas com cartazes, flores, lápis e canetas nas mãos para prestar tributo às vítimas do atentado. No Brasil, houve homenagens na avenida Paulista, em São Paulo, e no Largo do Machado, no Rio de Janeiro.

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Em resposta ao ataque, seis dos maiores diários europeus se uniram e assinaram um editorial conjuntamente. O francês “Le Monde”, o espanhol “El País”, o inglês “The Guardian”, o italiano “La Stampa”, o alemão “Süddeutsche Zeitung” e o polonês “Gazeta Wyborcza” afirmaram: “Continuaremos informando, investigando, entrevistando, editando, publicando e desenhando sobre todos os temas que nos pareçam legítimos”. Para Bete Costa, secretária-geral da Federação Internacional dos Jornalistas, a liberdade de reflexão e de humor são essenciais à imprensa. “A falta desses elementos seria um suicídio”, disse à ISTOÉ. “O ataque em Paris não pode mudar a forma como os meios tratam as questões de religião ou fundamentalismo.”

Armadilha do radicalismo
Mas ao mesmo tempo em que o mundo e, em especial, a Europa se veem novamente diante do desafio de reafirmar sua liberdade, o continente precisa refrear uma perigosa e crescente onda radical e xenófoba que tende a ganhar ainda mais força após o ataque contra o “Charlie Hebdo”. A líder da extrema direita francesa Marine Le Pen, do partido Frente Nacional (FN), é quem mais tem a ganhar com isso. Logo após o ataque, ela pediu um referendo sobre a aplicação da pena de morte aos responsáveis. A prática foi abolida na França em 1981. Cada vez mais relevante na política nacional e ostentando vitórias históricas nas eleições municipais e parlamentares do ano passado, a FN foi excluída da marcha nacional que seria realizada no domingo 11. Esse fato despertou a ira de Marine Le Pen, provável candidata à Presidência da França em 2017, e também foi visto como provocação por outros movimentos ultraconservadores europeus. 

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Diante do seu próprio “11 de Setembro” – e num contexto de crise econômica, naturalmente propício ao fortalecimento da xenofobia –, o presidente François Hollande precisa de pulso forte para evitar a divisão do país e proteger uma população de quase sete milhões de muçulmanos que vivem em seu território. Esse mesmo desafio é imposto ao restante da Europa ocidental. Na Alemanha, que tem cerca de quatro milhões de muçulmanos, uma pesquisa da revista “Die Zeit” mostrou que quase 60% da população considera o Islã “uma ameaça”. No mesmo levantamento, 40% disseram se sentir “estrangeiros em seu próprio país” e outros 24% afirmaram que a imigração de muçulmanos deveria ser proibida. Na segunda-feira 5, dois dias antes do ataque na França, 18 mil pessoas (um recorde) participaram de protestos xenófobos promovidos pelo grupo Pegida (Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidente) na Alemanha, apesar dos pedidos da chanceler Angela Merkel para que a população ignorasse o movimento. “A xenofobia alimenta os grupos radicais”, afirma Samuel Feldberg, professor de política internacional da Universidade de São Paulo. “É necessário construir uma educação para a tolerância.” Na quinta-feira 8, restaurantes árabes, mesquitas e associações muçulmanas foram atacados em toda a França, em ações que não deixaram vítimas, mas espalharam medo entre a comunidade. “O Estado tem de oferecer toda a proteção necessária a grupos muçulmanos para evitar a violência”, diz à ISTOÉ Jean-Marie Fardeau, diretor da Human Rights Watch na França.

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Também cabe à comunidade muçulmana condenar sem ressalvas nem dúvidas a ação dos grupos terroristas. Mas apenas palavras não bastam. É preciso tirar qualquer resquício de legitimidade das ações violentas promovidas por minorias que distorcem uma religião que deveria ser baseada em princípios de paz e bondade. “Nossa voz estava enfraquecida”, disse à ISTOÉ Mohammed Al Habash, especialista em estudos islâmicos da Universidade de Abu Dhabi e um dos principais representantes do movimento de revitalização do Islamismo. “Tenho pedido para diferentes líderes levantarem a voz contra o terrorismo, pois muitas pessoas ainda têm uma visão errada e perigosa do que é o Islã.” Todos esses grupos de terror, em especial a Al-Qaeda e o autodenominado Estado Islâmico, buscam a legitimação religiosa como forma de arrebanhar fanáticos. Sem a desumana justificativa do massacre de “infiéis” em nome da crença, poucos atrativos restam. “A condenação não é suficiente”, diz o Dr. Khaled Hanafy, membro da Academia Árabe de Ciência e Tecnologia. “Os muçulmanos devem agir, realizar manifestações, porque o perigo que ameaça a Europa também ameaça os próprios muçulmanos.” O “Corão”, o livro sagrado do islamismo, relata diversos insultos e agressões físicas e verbais sofridos pelo profeta Maomé na cidade de Meca. “Nem por isso seus discípulos assassinaram os agressores”, diz o Dr. Yasir Qadhi, acadêmico do Instituto Al-Maghrib, nos Estados Unidos. Na sequência dos atentados em Paris, é preciso que não pairem dúvidas: o direito de se expressar e até de ofender pela sátira também é sagrado.

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Treinados pela Al-Qaeda

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Os suspeitos do massacre que deixou 12 mortos na revista parisiense “Charlie Hebdo”, Chérif Kouachi, 32 anos, e Said Kouachi, 34 anos, assassinados pela polícia na tarde da sexta-feira 9, nasceram em Paris em 28 de novembro de 1982 e em 7 de setembro de 1980, respectivamente, e ambos possuem nacionalidade francesa. Segundo a mídia francesa, Said e Chérif foram abandonados pelos pais de origem argelina do oeste da França e ficaram sob os cuidados dos serviços sociais. Contudo, a trajetória dos dois até o fatídico dia 7 de janeiro de 2015 foi um pouco diferente. Enquanto o caçula Chérif, que adotou o nome de Abu Isen, integrava a chamada “rede de Buttes-Chaumont” – comandada pelo “emir” Farid Benyettu, sendo responsável por enviar jihadistas franceses para o braço iraquiano da Al-Qaeda – e foi julgado e condenado em 2008 a três anos de prisão, Said não tinha antecedentes conhecidos até a informação de que treinou com a Al-Qaeda do Iêmen em 2011.

Chérif foi detido antes de viajar à Síria e dali ao Iraque e dos três anos em que esteve preso, 18 meses foram em liberdade condicional. Em 2010, quando já estava em liberdade, seu nome foi alvo de busca mais uma vez ao aparecer num projeto de tentativa de fuga da prisão de um islamita, Smain Ait Ali Belkacem, condenado em 2002 à prisão perpétua por um ataque que feriu 30 em Paris, em 1995. Além de assassinarem os suspeitos do massacre ao Charlie Hebdo, a polícia francesa eliminou Amedy Coulibaly, o homem que esteve barricado numa mercearia judaica em Porte de Vincennes, na zona leste da capital francesa. Coulibaly fez seis pessoas reféns e seria ligado aos irmãos Chérif e Said. Quatro pessoas teriam morrido durante a operação.

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ELIMINADO
Amedy Coulibaly foi morto pela polícia
francesa após fazer seis pessoas reféns

Fotos: AFP PHOTO/AFPTV/GABRIELLE CHATELAIN; Peter Dejong, Christophe Ena, French Police – AFP PHOTO Divulgação; Patrick Kovaric/ap photo; Philippe Wojazer