Brasil

Refém do Pavilhão 6

Dentro do Carandiru, coração do maior levante de presos da história do País, o nosso repórter Douglas Tavolaro faz um relato dramático de 24 horas de terror

Alan Rodrigues

Eu preferia ter descoberto teoricamente, e não in loco, o que significa na Casa de Detenção de São Paulo o número 1533. O 15 é o P, a décima quinta letra do alfabeto, o 3 é o C, a terceira letra. Assim, 1533 é igual a PCC. Quem me deu a aula prática foi um preso. E isso em meio à rebelião na qual fiquei como refém desde a hora do almoço do domingo 18 até ser libertado na manhã da segunda-feira 19. Fui à Casa de Detenção na manhã da sexta-feira para começar a reportagem sobre os grupos evangélicos. Não pude entrar porque estava sendo feita a transferência dos principais líderes do PCC. Voltei à Detenção no domingo, às dez horas, acompanhado da fotógrafa Ana Nogueira Mazzei. A fila das visitas era interminável, mas até aí tudo bem, é assim todos os domingos. Entramos e passamos pela Divinéia. Trata-se do sombrio pátio de entrada em forma de funil e tem esse nome porque divide os pavilhões onde as visitas param para serem distribuídas pela casa.

Pois bem, fomos direto para o Pavilhão 7, onde se realizava o culto de uma igreja evangélica. Observei que a Detenção estava superlotada de familiares – homens e mulheres de todas as idades, muitas e muitas gestantes, um número impressionante de crianças. Ana começou a fotografar o culto e eu concentrei a minha atenção nas palavras do pastor. Agora, depois de passar 24 horas como refém, somente uma frase do pastor me restou na cabeça:
– A cadeia é um lugar imprevisível…

Epitácio Pessoa/AE
“Vi mais de 60 carrinhos de ferro levando familiares desmaiados”

O Pavilhão 7 pode ser considerado um jardim da infância se comparado aos pavilhões 8 e 9, verdadeiras faculdades do crime. Terminado o culto, fomos para o Núcleo de Educação do Projeto Ler e Escrever, no terceiro andar do Pavilhão 6. Ouvimos um estrondo.

– Que barulho é esse, pastor?
– Está com medo Douglas? É só a reforma no andar de baixo.

Eu senti medo, mas o certo é que no segundo seguinte o pastor também tremeu: soou a sirene do alarme de um dos pavilhões e na seqüência dois presos, “soldados” do PCC, invadiram a sala. Na mão direita de um deles, uma espada de ferro feita com a cantoneira do degrau da escada. Fomos encurralados: eu, a Ana, cinco pastores, onze voluntários e três presos evangélicos. O presidiário apontava a espada na direção de nossos estômagos e gritava:
– Tem funcionário aqui? Tem funcionário aqui?
Não tinha. O preso ameaçou sair, voltou e encarou um dos pastores:
– Está com medo por quê? Deve alguma coisa?

O outro “soldado do PCC” retirou esse “irmão” (é assim que eles se chamam o tempo todo) e deu a ordem para irmos ao salão nobre do Pavilhão 6. Quando chegamos lá, ele já estava abarrotado de familiares. Não deu dez minutos e veio a notícia: toda a Casa de Detenção estava sob o comando do PCC. Os agentes penitenciários de cada pavilhão já estavam confinados em celas do último andar. Eu repetia mentalmente: “Isso vai acabar logo”.

Todos os presos do PCC que transitavam pelo Pavilhão 6 estavam armados com facões e espadas e conversavam com os “irmãos” dos outros pavilhões através dos walkie-talkie, que tomaram dos funcionários. Os integrantes do PCC repetiam essa palavra três ou quatro vezes numa única frase. Por meio dos walkie-talkie, os presidiários do Pavilhão 6 passaram a saudar os “irmãos” dos outros pavilhões:
– Salve, salve, irmão do Pavilhão 7. Salve, salve, irmão do Pavilhão 8. Salve, salve, irmão do Pavilhão 9.

De uma das janelas do salão nobre dava para ver o portão do Pavilhão 9. Os “soldados” do PCC tomavam conta dele. Quando alguém queria entrar no pavilhão, se o “porteiro” batia com as duas mãos fechadas no peito, era sinal de que era um “irmão” que queria passar. Veio então uma nova ordem do comando: o salão nobre teria de ser desocupado, os familiares iriam para as celas, os evangélicos voltariam para o núcleo de educação. Motivo: a Tropa de Choque estava se posicionando na Divinéia.

Os “soldados” do PCC ficaram agitados, corriam de um lado para outro e gritavam. É incrível o efeito que a expressão Tropa de Choque tem sobre a população carcerária – parece um formigueiro desorganizado. O meu medo era que os PMs invadissem a Detenção e sobrassem tiros para mim também.