Cultura

Chique não, elegante

Selo Dubas, de Ronaldo Bastos, amplia seu catálogo de jóias raras

Em formato de cinemascope, a imensa janela da gravadora Dubas, na avenida Beira-Mar, centro do Rio, deixa ver a estonteante paisagem que engloba o Pão de Açúcar, o Aterro do Flamengo e um céu sem limite. Mal começa a entrevista, o compositor Ronaldo Bastos, criador do selo, avisa: “A minha linha é a do horizonte.” Com 57 anos, 40 deles dedicados à música – “Cheguei na indústria do disco com 17 anos e nunca mais saí” –, Bastos mantém a “linha” na gravadora que investe tanto em novas coletâneas quanto em relançamentos e é sinônimo de qualidade. Pelo selo voltaram às prateleiras das lojas o primeiro disco de Milton Nascimento, Travessia, o segundo de Elza Soares, A bossa negra, e, recentemente, O grande circo místico, o histórico balé de Chico Buarque e Edu Lobo que, além das interpretações remasterizadas de Gal Costa, Zizi Possi e Tim Maia, inclui temas instrumentais que não entraram nas edições anteriores e uma gravação inédita da memorável Beatriz na voz de, simplesmente, Tom Jobim.

Com dez anos de existência, a Dubas – apelido dado por Caetano Veloso e que reúne o som do fim do nome Ronaldo com o início do sobrenome Bastos – é pioneira na tendência de selos independentes. “Eu lanço a melhor música do mundo, que é a MPB”, diz Bastos. De fato, há CDs que fazem a alegria aqui e no mercado internacional, como os três volumes de Tropique samba lounge, com harmonia e suingue para ninguém botar defeito, ou o Bossa jazz, com canções de Moacir Santos a Miles Davis. Nos relançamentos, Bastos nem sempre reedita a capa original e se irrita quando é acusado de adulteração: “Sobrevivi muitos anos bolando capas de discos; talvez seja um dos maiores capistas do mercado. Não sou um mané que não sabe o que faz. E não somos o Museu da Imagem e do Som, que tem a incumbência da preservação.”

Para Ronaldo Bastos, letrista de feras como Tom Jobim, Lulu Santos, Marina
Lima, João Donato e Caetano Veloso, a gravadora é menos lucrativa do que
a arte de compor. “Em termos individuais, é uma atividade suicida. Me pedem
música e eu não tenho tempo para fazer. Mas desde os 20 anos tenho esse
projeto. Não ganho dinheiro com a Dubas, mas pago todas as contas e os salá-
rios”, diz. Um dos convites para o qual ele arranjou tempo é a consultoria de
música do filme Desafinados, de Walter Lima Jr. e direção musical de Wagner
Tiso. Talvez porque o filme tenha a mesma filosofia da gravadora: “A gente
não é chique, é elegante. E faz o melhor.”