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Entrevista

Mauro Halfeld

Do tostão ao milhão

Do tostão ao milhão

Economista Mauro Halfeld mostra que poupar exige disciplina, mas é possível se aposentar milionário, economizando só R$ 10 por dia

Luiza Villaméa
Edição 27/06/2001 - nº 1656

Experiência no mercado financeiro é o que não falta ao economista Mauro Halfeld, 37 anos, que começou a comprar ações ainda na adolescência. Mineiro de Juiz de Fora, ele acaba de lançar um manual que mostra ser possível juntar R$ 1 milhão para os tempos da aposentadoria, poupando apenas R$ 10 por dia. “Não fiz um manual para o pão-duro”, diz Halfeld. “Quero apenas que as pessoas possam usufruir mais o dinheiro que elas ganham.” Com pós-doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, ele é professor catedrático de economia da Universidade Federal do Paraná.

No livro Investimentos – como administrar melhor seu dinheiro, da editora Fundamento, Halfeld não recorre em nenhum momento ao “economês”, aquela linguagem hermética que muitos economistas adotam. Na obra, ele explica que é possível poupar nos momentos de crise e sugere investimentos de acordo com as possibilidades de cada um. Com isso, está fazendo sucesso nos mais variados ambientes. Seu manual está sendo presenteado a clientes especiais de corretoras de renome, mas também está sendo discutido em comunidades carentes, como aconteceu na terça-feira 19, numa escola pública da periferia de São Paulo. A seguir, os principais trechos de sua entrevista.

ISTOÉ

O brasileiro é bom investidor?

Mauro Halfeld

No esforço de poupar, perdemos para os europeus. Mas não estamos muito longe dos americanos. Alguns têm sucesso, mas a maioria patina. Infelizmente não temos uma boa educação financeira. Quase ninguém sabe calcular os juros embutidos em uma prestação ou tem visão de longo prazo. Ficamos míopes por conta da inflação que nos obrigava a pensar no curtíssimo prazo.

ISTOÉ

Então o próprio mercado brasileiro não ajuda.

Mauro Halfeld

Pois é. Adoraria se um dia as crianças tivessem, no ensino fundamental, noções básicas de matemática financeira, de economia. Elas fariam uma revolução silenciosa neste país. As pessoas deixariam de transferir boa parte da renda delas para os juros dos financiamentos, que aqui são exorbitantemente altos. É um absurdo pagar 10% de juros ao mês, como cobram pelo cheque especial e pelo cartão de crédito. Não é à toa que Einstein disse que os juros são a mais poderosa invenção do homem.

ISTOÉ

É mais fácil poupar nos Estados Unidos e na Europa?

Mauro Halfeld

Com certeza. O sistema financeiro brasileiro está se aprimorando, mas ainda não oferece todas as alternativas que existem na Europa e nos Estados Unidos. Lá as pessoas têm noção do que é longo prazo. Como não viveram esta hiperinflação, fazem orçamento doméstico. Nossos pais e nossos avós também faziam orçamento. Com a inflação, porém, perdemos este hábito. Ninguém mais planeja. A gente sai gastando. No final, muitos percebem que estão endividados e não conseguem sair desse círculo vicioso.

ISTOÉ

No seu livro, o sr. diz que é fácil ser milionário…

Mauro Halfeld

Teoricamente, não é difícil ter R$ 1 milhão. Basta poupar R$ 10 por dia, que seriam R$ 300 por mês, ao longo de 35 anos. Vamos supor que a pessoa comece aos 30 anos. Quando ela chegar aos 65 anos, terá R$ 1 milhão, sendo que R$ 129 mil saíram do bolso dela. O resto, R$ 871 mil, é fruto do rendimento dessa aplicação, a uma taxa de 10% ao ano. Quem começar a poupar aos 40 anos precisará desembolsar R$ 254 mil. Quanto mais tempo demorar para começar a poupança, maior será a quantia investida e menor o ganho com os rendimentos.

ISTOÉ

Isso se aplicar direito, não é?

Mauro Halfeld

Sim. Não basta poupar. Tem que saber investir. Se colocar o dinheiro na caderneta de poupança, ninguém conseguirá os 10% ao ano acima da inflação. Para investir direito, é preciso adquirir educação financeira, através da leitura de jornais, de revistas e também da discussão em casa.

ISTOÉ

E quanto a poupança paga acima da inflação?

Mauro Halfeld

Ela promete pagar 0,5% ao mês acima da inflação, o que daria 6,17% ao ano acima da inflação. Mas nas últimas três décadas ela só pagou 1,7% acima da inflação. Os governos dão pequenos calotes no rendimento da poupança. Ou grandes calotes. Houve uma época em que o índice de inflação ficava sempre acima da estimativa que servira de referência para o cálculo da correção monetária. A diferença jamais era recuperada. Nos planos heterodoxos, seja no Cruzado, no Bresser, no Verão ou no Collor, eles jogavam para debaixo do tapete parte da inflação, com o argumento de que ela iria acabar. Os planos fracassaram e as perdas não foram devolvidas.

ISTOÉ

Quando foi o auge da inflação?

Mauro Halfeld

 Ela começou a acelerar na década de 70, atingiu o pico em 80, continuando até o Plano Real, em julho de 1994. Aí a inflação caiu, mas em compensação os juros ficaram exorbitantemente altos. Hoje são mais danosos do que a simples inflação.

ISTOÉ

Quais os pontos básicos para se chegar à independência financeira?

Mauro Halfeld

No Brasil, o primeiro passo é ficar livre das dívidas. Ninguém consegue chegar a lugar algum tendo dívidas, embora exista um dito popular dando conta de que quem não faz dívidas não progride. Discordo. Com os juros que cobram aqui é impossível ir para a frente, a menos que a pessoa esteja num mercado que proporcione uma margem de lucro exorbitante, num mercado muitas vezes ilegal. Drogas, por exemplo.

ISTOÉ

Fazer dívidas foi um bom negócio em algum momento do País?

Mauro Halfeld

 Quem se endividou na década de 50, se deu superbem. As taxas eram fixas, depois veio a inflação, trazendo benefícios para quem devia. Também se deram bem aqueles que compraram imóveis pelo Sistema Financeiro da Habitação durante os anos 70 e 80. A prestação era paga de acordo com o salário e se perdoava o resíduo, aquele descompasso entre o saldo devedor e aquilo que efetivamente se pagou. A partir de 1991 a regra mudou e, no longo prazo, a dívida se torna violentíssima.

ISTOÉ

Fazer dívidas foi um bom negócio em algum momento do País?

Mauro Halfeld

 Quem se endividou na década de 50, se deu superbem. As taxas eram fixas, depois veio a inflação, trazendo benefícios para quem devia. Também se deram bem aqueles que compraram imóveis pelo Sistema Financeiro da Habitação durante os anos 70 e 80. A prestação era paga de acordo com o salário e se perdoava o resíduo, aquele descompasso entre o saldo devedor e aquilo que efetivamente se pagou. A partir de 1991 a regra mudou e, no longo prazo, a dívida se torna violentíssima.

ISTOÉ

O que deve fazer a pessoa que já está encalacrada?

Mauro Halfeld

 Poupança é receita menos despesa. O saldo precisa ser positivo. Não existe nenhuma fórmula mágica. Ou a pessoa aumenta a renda ou diminui as despesas. Em comunidades carentes, tenho visto pessoas abrirem mão do tempo livre e conseguirem sair do círculo vicioso. Elas fazem extra como motorista, segurança, cozinheiro… Ou vendem Avon, Natura… Quando a pessoa não é empreendedora ou não quer abrir mão do lazer, a única saída é apertar o cinto. Para diminuir a despesa, uma boa alternativa é anotar todos os gastos num caderninho. Em dois ou três meses, a pessoa descobre para onde está indo o seu dinheiro. Como é muito difícil reduzir 50% de um gasto, o melhor é tentar reduzir 10% de vários itens. Além disso, é preciso abrir mão do consumismo exacerbado. É o óbvio, mas as pessoas precisam ter disciplina para fazer isso.

ISTOÉ

Quando o saldo for positivo, qual o passo seguinte?

Mauro Halfeld

 Uma vez pagas as dívidas, crie uma reserva de emergência. Coloque o equivalente a seis meses de suas despesas mensais numa aplicação líquida, um fundo DI, cuja rentabilidade varia de acordo com a taxa de juros e hoje paga mais do que a poupança. É um dinheiro sagrado. Só vai ser usado em caso de perda de emprego, de doença, para que a pessoa não tenha de sair vendendo o patrimônio dela por qualquer preço.

ISTOÉ

Quanto tempo leva para criar essa reserva de emergência?

Mauro Halfeld

É difícil fazer reserva. Algumas pessoas demoram até dois anos. Uma vez atingido esse degrau, é hora de partir para investimentos de renda variável. Para mim, são três ativos: imóveis, ações e negócio próprio. A carteira de imóveis deve ser diversificada, com pequenos imóveis para gerar aluguel. Imóveis grandes são mais difíceis de alugar e mais suscetíveis aos modismos do mercado.

ISTOÉ

E com relação a flats e fundos imobiliários?

Mauro Halfeld

Muitas empresas anunciam flats dando rentabilidade de 1% ao mês. Talvez até seja possível nos primeiros anos, quando o flat está zero quilômetro. Depois, a tendência é isso cair. Além disso, as taxas de administração são muito altas. Quanto aos fundos imobiliários, tomara que dê certo no Brasil. Só que eu não aconselharia grandes investimentos agora, pois ainda não temos uma tradição na administração desses fundos. Há espaço para fraudes nisso. Vamos aguardar. Pode ser uma grande saída porque começa a dar liquidez para o investimento em imóveis.

ISTOÉ

Qual o ativo que dá mais lucro?

Mauro Halfeld

O negócio próprio. É o que mais dá dinheiro no mundo. Mas também é o mais arriscado. Várias pessoas abandonaram bons empregos e em menos de um ano perderam tudo o que tinham acumulado até então na vida.

ISTOÉ

E o mercado acionário?

Mauro Halfeld

 Defendo as ações como uma das melhores maneiras de fazer poupança a longo prazo, embora no Brasil exista um preconceito grande contra a Bolsa. Recentemente, em Madri, vi um anúncio da Telefonica vendendo opções de ações. O que a Telefonica faz com esse dinheiro? Ela vem ao Brasil, Argentina, México e Peru comprar as boas empresas. Veja a incoerência. As famílias brasileiras acreditam que ações é uma jogatina. No final, várias boas empresas brasileiras são vendidas para famílias espanholas, alemãs, americanas, que já aprenderam como investir em ações. Não é fácil. Mas também não é difícil.

ISTOÉ

Por que tantas pessoas perdem dinheiro em ações?

Mauro Halfeld

 Por dois motivos. Primeiro, elas não diversificam. Compram ações de uma, duas ou três empresas, quando deveriam investir num conjunto de ações, como a carteira do Ibovespa, que reúne 55 empresas. Se uma delas vai mal, paciência! Outra está indo bem. O segundo motivo de perdas é quando a pessoa quer ganhar no curto prazo, para trocar de carro, fazer uma viagem sofisticada…. Bolsa é um excelente negócio a longo prazo. Acima de cinco anos eu sugiro um investimento na Bolsa.

ISTOÉ

Falando em longo prazo, o que o sr. acha dos planos de previdência privada?

Mauro Halfeld

 Já se foi o tempo em que a pessoa podia contar com a previdência pública para a sua aposentadoria. Em princípio, sou a favor da previdência privada, mas é preciso cautela na escolha da empresa administradora. O investidor deve escolher uma instituição sólida, fugir das taxas de administração altas e não concentrar seus investimentos em apenas um administrador.

ISTOÉ

Por que o mercado anda registrando recorde em cheques devolvidos?

Mauro Halfeld

 Hoje a devolução de cheques sem fundos já está se igualando aos índices de 1991, quando tivemos uma grande recessão. A inadimplência é alta por conta dos juros altos. Em termos de macroeconomia, o que vem acontecendo no Brasil é uma enorme transferência de riqueza. As pessoas que se endividam estão transferindo a renda delas para uma minoria.

ISTOÉ

Como parar com isso?

Mauro Halfeld

 O governo tem de dar o exemplo. Porque o governo é o maior tomador de crédito. Se ele ajustar as contas dele, vai passar a pagar menos juros. Nós, contribuintes, é que pagamos esses juros altos. É importante que a sociedade pressione os governos – o federal, o estadual, o municipal –, para que eles tenham transparência nas contas. A despesa tem de ser menor que a receita.

ISTOÉ

 É bom aplicar em dólar?

Mauro Halfeld

 No longo prazo, é uma grande bobagem. O dólar é a moeda dos Estados Unidos e, como tal, sofre o efeito da inflação americana. Um dólar guardado na gaveta em 1968 vale hoje 26 centavos. Perdeu três quartos de seu poder de compra. Investir em dólar é totalmente estéril. Há momentos em que ele dispara, como agora. Mas no ano passado ele ficou paradinho, sendo corroído pela inflação.

ISTOÉ

É possível aumentar o patrimônio em períodos de crise como o que estamos vivendo?

Mauro Halfeld

 Não existe outra alternativa. Talvez a pessoa vá poupar menos do que em época de bem-estar generalizado. Mas é preciso fazer esse sacrifício. Quem tiver condições, pode até se dar bem. Os imóveis estão baratos, comparados com dez anos atrás. As ações também começam a cair.

ISTOÉ

Em que situações vale a pena tomar empréstimo?

Mauro Halfeld

 Para comprar uma mercadoria necessária que vá sofrer aumento substancial nos dias seguintes. Fazia-se muito isso na época da inflação alta. Para investir num negócio cuja rentabilidade seja bem maior do que os juros a serem pagos. Isso também é cada vez mais raro e arriscado. Para pagar outra dívida. Aí sim. Se a taxa de juros é de 10%, vale a pena conversar com o gerente do banco para que ele arrume um empréstimo de dois, três meses, com a taxa de 3%.

ISTOÉ

Mais alguma situação?

Mauro Halfeld

 O cartão de crédito é razoável, desde que se quite totalmente no dia do vencimento. O cartão de crédito é para quem tem disciplina. E para uma emergência. O crédito é útil. Aliás, o crédito é um dos melhores instrumentos para o desenvolvimento social. Só que no Brasil, com esse nível das taxas de juros, o crédito tem levado o desespero a muitos lares.

ISTOÉ

Quantos anos o sr. tinha quando começou a poupar?

Mauro Halfeld

Na infância, tive cofrinhos. Depois, caderneta de poupança. Aos 14 anos, comprei ações. Era uma coisa esdrúxula! Meu pai era funcionário público e achava – até hoje acha – que Bolsa é jogatina. Na época não tive lucro. Cometi um dos erros básicos: peguei todo o meu dinheirinho e comprei ações de uma única empresa, o Banco do Brasil, que estava sendo esvaziado.

ISTOÉ

E hoje o sr. se considera um investidor bem-sucedido?

Mauro Halfeld

Sim. Não sou um homem rico. Sou um professor universitário, mas venho sendo bem-sucedido nos investimentos. Eu não ousaria falar sobre algo que não tivesse colocado na prática.



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