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Entrevista

Eugenio Staub

Vem aí o apagão cambial

Vem aí o apagão cambial

O País precisa atrair US$ 1 bilhão por semana, e a dívida, ao contrário da crise de energia, é um problema estrutural, alerta Eugenio Staub

Carlos Drummond e Hélio Campos Mello
Edição 20/06/2001 - nº 1655

O primeiro impulso diante da crise de energia que assusta o País é sair pela casa desligando o que for possível e não comprar novos aparelhos. Esse comportamento afetará a indústria eletroeletrônica, pelo menos no curto prazo. Mas essa não é a principal preocupação de Eugenio Staub, 59 anos, presidente da maior empresa brasileira do setor, a Gradiente. O que o inquieta é a superposição de crises, algumas conjunturais, como a de energia, outras estruturais, a exemplo da cambial. O seu sonho é ver aplicados os primorosos projetos para o Brasil, desenvolvidos pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), mantido por empresários privados brasileiros e presidido pelo próprio Staub, como ele explica nesta entrevista.

ISTOÉ

Como o sr. vê a crise energética que assola o País?

Eugenio Staub

Está bem administrada, mas coisas elementares não são feitas. Não critico o ministro da Fazenda, talvez ele esteja certo, mas, antes de aumentar o IPI dos chuveiros elétricos para reduzir as vendas desse produto, ele deveria chamar os principais fabricantes e pedir uma sugestão melhor em três dias. Provavelmente, proporiam um chuveiro de menor consumo, e o pobre, que usa chuveiro elétrico, iria tomar banho morno, em vez de banho frio. Outro exemplo é a proposta de reduzir a alíquota de importação de geradores a zero. O certo seria convocar representantes do setor, que pode aumentar facilmente a produção, e dar uma semana de prazo para oferecerem uma alternativa.

ISTOÉ

O governo não percebe essas possibilidades ou não admite dividir a paternidade das decisões?

Eugenio Staub

 Ninguém quer decidir no lugar do governo, mas reivindicamos o direito de ser ouvidos, até para eles não fazerem besteira. A crise de energia é um caso típico: todo mundo sabia, há especialistas fantásticos no País. Empresários como Antônio Ermírio de Moraes estão alertando sobre isso há anos. A indústria sabe.

ISTOÉ

Por que o País não mobiliza esse conhecimento?
 

Eugenio Staub

 É um fenômeno cultural. Perdemos a auto-estima, não confiamos mais nos brasileiros. A gente vê isso no governo. Examine a agenda do presidente: quantos presidentes de empresas estrangeiras e quantos de empresas brasileiras ele atende? Recebe o presidente da Ford, o da Nokia, que na maioria das vezes vão lá tratar dos interesses deles. Há uma perda de auto-estima. A gente não valoriza o know-how brasileiro, a empresa brasileira, o empresário brasileiro.

ISTOÉ

Há um preconceito?

Eugenio Staub

 A avaliação é de que o empresário só procura o governo para tratar de seus interesses, é incapaz de pensar nas necessidades do País, não tem contribuição a dar. Brasileiro não tem graça, parecem pensar. É uma coisa que tomou conta do País, e não era assim.

ISTOÉ

O governo não aceita a colaboração da iniciativa privada?

Eugenio Staub

 O problema é que não existe mobilização do conhecimento da iniciativa privada brasileira. Esvaziou-se o papel das associações de classe, não se usou corretamente o Iedi e isso custa caro ao País.

ISTOÉ

Qual é o alcance da crise de energia?

Eugenio Staub

 É a ponta de um iceberg. Todo mundo está enxergando agora que houve uma falha do governo no planejamento e na execução. Abaixo da linha d’água há outros problemas, como a política industrial. O Brasil perdeu o pé. As empresas fizeram um esforço extraordinário para aumentar a produtividade, a qualidade e reduzir custos. Mas as indústrias novas que interessam, aquelas que puxam o comércio internacional, geram exportação e reduzem importações, não estão aqui. O governo precisa dizer que interessa ter essas empresas aqui. Um excelente exemplo de setor de ponta e dinâmico no Brasil é a aviação comercial. Mas a Embraer é o resultado de um planejamento estratégico de longo prazo e de uma política industrial. E o Brasil, coitadinho, em quem ninguém acredita porque não temos auto-estima, é capaz de ser um dos melhores do mundo nessa área. Há gênios estrangeiros na Embraer? Não há.

ISTOÉ

Qual será o impacto da escassez de energia na indústria em geral?

Eugenio Staub

 Estudos preliminares do Iedi indicam que o crescimento da indústria este ano poderá ser zero. O que iria puxar a economia era a indústria. Naturalmente esses dados ainda são muito precários.

ISTOÉ

A indústria e os consumidores têm reagido.

Eugenio Staub

 É uma reação positiva. A crise de energia não é estrutural, mas de oferta, e é completamente superável. Estrutural é a crise cambial. Até hoje, nessa área, não se foi além de resolver as emergências. A continuar como está, um dia teremos um apagão cambial.

ISTOÉ

Como se chegou a essa situação?

Eugenio Staub

Quando Itamar Franco entregou o governo, os índices de dívida pública, de dívida externa, a taxa cambial eram muito positivos, embora isso não tenha sido mérito dele. Mas houve covardia em relação ao problema cambial. Enfrentá-lo podia representar inflação e deterioração dramática das contas públicas. Essa postura gerou uma grande necessidade de endividamento e uma dependência externa preocupante. O País precisa atrair US$ 1 bilhão do Exterior por semana, entre investimento direto estrangeiro e rolagem de dívida. São os vencimentos do ano mais o buraco da balança de pagamentos. A privatização (nada contra, é só uma constatação) conduziu a um aumento da dependência externa. O governo fica alegre quando chegam dólares para comprar empresas como a Telebrás, usinas, bancos, porque isso ajuda a sustentar a taxa cambial. Mas esses e outros ativos públicos e privados eram brasileiros. Hoje estão nas mãos de estrangeiros e o resto da vida vão gerar remessa de divisas para pagar empréstimos, royalties e dividendos às suas matrizes. Soma-se a isso o aumento do endividamento dos Estados e governos.

ISTOÉ

Que forma seria o apagão cambial?

Eugenio Staub

 É uma questão de tempo e de mudanças conjunturais. Uma grande crise internacional impacta o Brasil diretamente. Felizmente, parece que este ano a crise americana vai passar, mas o stress cambial esta aí. A crise de energia provavelmente reduzirá os investimentos diretos estrangeiros. Nos próximos dois anos precisaríamos de US$ 50 bilhões por ano. Se vierem 30% a menos, o que não é absurdo, serão US$ 35 bilhões. Faltarão US$ 15 bilhões, que poderão ser supridos pelo FMI sem dificuldade, com endividamento privado junto ao setor privado lá fora. Mas isso aumenta o endividamento. Hoje temos uma panela de pressão com uma boa válvula, que é a taxa variável de câmbio. Na medida em que se começa a perceber que há falta de divisas, o dólar vai subindo. Isso provoca pressão inflacionária, desordem nas contas públicas. Então, a situação do País não é tranquila. Estamos no sétimo ano de um governo que, dentro de um ano, estará entregando um país em piores condições do que recebeu, no que diz respeito ao econômico e ao social.

ISTOÉ

Com essa restrição cambial, o País não pode crescer.

Eugenio Staub

Se crescer, como a sua indústria não está fundamentalmente dentro dos setores dinâmicos, começa a importar mais do que pode exportar. O Brasil é um país bem mais aberto do que a gente pensa, mas não houve contrapartida. Precisa renegociar – isso é uma coisa delicada – a sua inserção internacional, porque nós fizemos acordos muito perversos, passivos, na Rodada Uruguai e na OMC. Nós somos bonzinhos. No fundo é falta de auto-estima, de perceber que somos um parceiro importante e capaz de colocar exigências na mesa. Somos muito educados.

ISTOÉ

Em relação à Alca, qual é a sua posição?

Eugenio Staub

 Acho que não se deve rejeitar “in limine” a Alca, mas não dá para entrar nessa conversa sem entender o quadro todo. O Brasil só deve participar se for bom para diminuir a distância entre o nosso PIB e os do Canadá e dos Estados Unidos, se o acordo proporcionar condições de distribuir melhor a nossa renda. É preciso colocar na mesa uma agenda de pré-requisitos, como a abertura do mercado americano para nós. Mas não é isso que os americanos pensam nem o que eles fizeram com o México. Acho que, se o quadro todo for colocado na mesa, não existe a Alca. Ela também não existe sem o Brasil. Essa fantasia da Alca é para pegar o mercado brasileiro, faz parte do planejamento estratégico dos Estados Unidos.

ISTOÉ

Qual é o nosso planejamento estratégico?

Eugenio Staub

 Acho que o único plano que está na mesa é cumprir as metas do FMI, seguir a cartilha. O que o FMI exigiu não é irrazoável. Isso é matéria discutível, mas não é esse o problema. O problema é que não temos a nossa agenda. A indústria é o motor do desenvolvimento e não há planejamento para ela. Ninguém sobrevive sem planejamento estratégico. Uma empresa tem que planejar a estratégia, o que vai fazer, senão ela desaparece, e o País também. Nós não temos uma visão do futuro do Brasil.

ISTOÉ

Há países que deixaram para trás a condição de subdesenvolvidos sem a indústria numa posição central?

Eugenio Staub

 Sem a indústria, eu não conheço. Talvez haja países muito pouco relevantes em termos de população. Indústria e tecnologia são indispensáveis. O conteúdo tecnológico, isto é, de conhecimento de todos os produtos, está aumentando e pesa cada vez mais no faturamento e na riqueza das indústrias. E nós não cuidamos disso aqui. Os recursos estão aí: temos bons empresários, um bom mercado interno, bons técnicos.

ISTOÉ

Mas o presidente, em sua obra teórica, não reserva um papel muito relevante para a indústria, tem até um certo desprezo pelo empresariado nacional.

Eugenio Staub

 É lamentável. Mas a verdade não é essa. Pode ser ponto de vista da pessoa física. Onde está a riqueza da Alemanha, do Japão? A Coréia é um exemplo extraordinário de indústria e planejamento estratégico.

ISTOÉ

O que falta ao Brasil?

Eugenio Staub

 É preciso olhar para a frente, identificar as novas possibilidades para o País em alta tecnologia. Há as oportunidades claras, vocacionais em papel e celulose, aço, produtos agroindustriais, que podem se tornar importantes no contexto mundial. O que falta é negociar corretamente sua inserção no mundo para não existirem barreiras como os americanos levantam contra o nosso aço, os nossos têxteis, o suco de laranja. E há outros setores que têm crescimento dinâmico e pressionam a balança na direção contrária. Hoje importa-se muita coisa que o País poderia exportar, como componentes eletrônicos.

ISTOÉ

Por que não exporta?

Eugenio Staub

Vou contar uma experiência recente, extraordinária e frustrante. O ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias, reuniu 12 empresários de componentes do mundo inteiro interessados em estudar a fundo investimentos no Brasil. Eram todos presidentes de empresa e saíram impressionados. Na etapa seguinte, colocaram as equipes deles para estudar o que é preciso para desenvolver sua próxima fábrica, não em Taiwan, nem em Cingapura, onde já há cinco ou seis iguais, mas no Brasil, reduzindo o seu risco geoeconômico e suprindo o México, os EUA e o mercado sul-americano a partir daqui. Duas semanas depois desse evento, no entanto, o governo decidiu reduzir a alíquota de importação de componentes eletrônicos, de 14% para 2%, antecipando a mudança prevista para 2006. Um tiro no pé, um crime de lesa-pátria, porque isso vai condenar à morte a indústria nascente de componentes e nos tirar do mapa do complexo eletrônico para o resto da vida. Seremos (talvez nem isso) eternamente montadores de componentes importados, que têm alto valor adicionado. É para ficar indignado.

ISTOÉ

Por que isso aconteceu?

Eugenio Staub

 Atribuo a muita ingenuidade e a um complexo de inferioridade. A idéia, boa mas incompleta, é reduzir a alíquota de importação para tornar o computador mais barato e a população mais simples poder acessar a internet. O custo final inclui o computador importado, 5% a 10% mais barato, o financiamento da compra em 36 vezes, o uso do telefone e do provedor. Feitas as contas, a redução da alíquota não vai resolver.

ISTOÉ

Essa reunião com os empresários teve sequência?

Eugenio Staub

Há duas associações envolvidas, a Abinee e a Eletros. Ninguém foi chamado para discutir. Há uma indignação.

ISTOÉ

Qual é a justificativa para importar em vez de fabricar aqui?

Eugenio Staub

O pensamento atrás disso é o de que a indústria brasileira precisa de um novo choque de competitividade. Portanto, é preciso reduzir todas as alíquotas de importação. Como isso não pega bem agora, decidiu-se fazer por etapas. Isso foi dito por gente do governo, informalmente. Começaram pelo computador porque é simpático oferecê-lo ao cidadão que não pode comprar.

ISTOÉ

Quando foi decidido isso?

Eugenio Staub

Foi decidido nos últimos 60 dias, pelo mais alto nível do governo. Só que ninguém comunicou formalmente para nós. Vamos tomar conhecimento no Diário Oficial até o dia 21. E no dia 22 esse assunto vai ser decidido em nível de Mercosul. Isso é um erro sério. É uma catraca, baixa a tarifa e não volta mais.

ISTOÉ

Qual será o impacto na balança comercial?

Eugenio Staub

 O setor mais deficitário é o eletrônico, com um saldo negativo de US$ 8 bilhões. É o dobro do nosso déficit em petróleo, por exemplo. A estimativa é que esse déficit passe para US$ 15 bilhões em três a cinco anos. Não há exportação de minério de ferro, de soja, de celulose e papel que pague isso.

ISTOÉ

O Brasil tem jeito?

Eugenio Staub

Tem. Mas isso não quer dizer que vá dar certo. O responsável pela situação em que está não é o pobre, nem americano, nem militar: somos nós, a elite brasileira e temos capacidade para fazer a virada, se alguém conseguir mobilizar essa força. Mas se continuarmos a ser passivos, a tomar decisões erradas, como essa de reduzir a tarifa dos componentes eletrônicos, não vamos cumprir o nosso destino, seremos um país de pobres excluídos, exportando bens primários, de Terceiro Mundo mesmo, e a distância entre nós e os desenvolvidos vai continuar crescendo. Precisamos eleger um líder que seja capaz de mobilizar a força transformadora.

ISTOÉ

Existe alguém no atual cenário?

Eugenio Staub

Há oito ou nove candidatos, alguns deles capazes de fazer a inflexão. Mas o piloto que sentar naquela cadeira lá para pilotar o País tem muito menos possibilidade de manobrar agora do que teria antes. Há dependência externa, dos mercados financeiros, uma inserção internacional negociada na Rodada Uruguai, o Acordo de Ouro Preto, restrições criadas pelos parceiros do Mercosul. Mas eu continuo acreditando que o Brasil é viável, com “software humano” extraordinário, capaz de resolver os problemas se tiver uma direção correta.



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