Comportamento

A porta-voz da elite

Como Hildegard Angel, uma das colunistas mais famosas do País, consegue os "furos" da sociedade

high society está em polvorosa. A responsável é Hildegard Angel, colunista do jornal O Globo, que não pára de provocar calafrios nos mais altos escalões da sociedade carioca. A última bomba foi a ação de reconhecimento de paternidade contra o já falecido gentleman Walther Moreira Salles, poderoso fundador do Unibanco e pai do cineasta Walther Salles Júnior, o Waltinho. O escândalo chegou a Hilde por meio de amigos. Uma semana antes, outra notícia explosiva: a separação da louríssima Ariadne Coelho do Rei das Quentinhas, Jair Coelho. No início de abril, foi a vez de revelar que Francisco, primogênito da socialite Lourdes Catão, na realidade seria filho de outro Francisco, irmão de seu marido, Álvaro. “Isso tudo só pode ser conjunção astral”, especula Hildegard com humor, sobre o período tão fértil.

Aos 51 anos, a colunista famosa e ex-atriz, não esboça sinal de abandonar suas investidas. Seu modelo é a czarina da elegância americana e amiga Eleanor Lambert, que mantém, aos 96 anos, um bem-sucedido escritório de relações públicas em Nova York. O motor de Hildegard certamente não é a necessidade. Está feliz com o empresário Francis Boghossian, que assumiu a paternidade do filho João Pedro, 17 anos, nascido da união com João Rezende, colunista social já falecido. Vive em uma cobertura na elegante avenida Atlântica, em Copacabana. A decoração é clássica e mal dá para ver o piso de mármore, de tantos tapetes persas. Mas Hilde é uma mulher sem afetação. Workaholic assumida, além da coluna, mantém o Instituto Zuzu Angel em homenagem à mãe, uma estilista de fama internacional morta num acidente suspeito em 1976, quando denunciava militares pelo assassinato do filho Stuart Angel.
Em 1994, ela já surpreendia ao cunhar o termo “sociedade emergente”, para designar gente produtiva que subiu na vida. Agora, lamenta que alguns deles estejam caindo na tentação do falem mal, mas falem de mim. “Eles têm que se dar ao respeito”, diz, como em defesa da cria.

ISTOÉ – Como a sra. chegou ao escândalo Moreira Salles?
Hildegard Angel – Fontes não se revelam. Soube da história e, como já conhecia Maria da Aparecida (mãe de José Roberto Pacheco, suposto filho do banqueiro), avisei que iria publicar. Ela achou melhor contar tudo, para a revelação sair de forma respeitosa. Mostro o comportamento da elite. Entrar em julgamentos não é chique e eu não faço isso, apenas reporto. Não faço futrica, não entro no cheirou, desmunhecou.

ISTOÉ – E ao dos Catão?
Hildegard Angel – Também por meio de amigo. Por ética, telefonei para Lourdes Catão três dias depois de começar a apurar a história. Não podia soltar a notícia sem ouvi-la. Sua confirmação foi fundamental, deu mais substância à informação. Os Catão, os Guinle, o Jorginho, mesmo empobrecido, os Paula Machado, os Nabuco são personagens importantes que ficaram preservados, que mantiveram seu carisma e dignidade.

ISTOÉ – Este assunto não é íntimo demais? Como a sra. reagiria se visse a sua intimidade exposta assim?
Hildegard – Sendo as pessoas que são, por mais que fosse um segredo de Justiça, um dia o caso viria à tona. E ninguém melhor do que eu para divulgar uma história como essa. Não que eu seja melhor do que os outros, mas tenho um traquejo que me permite manter um relacionamento franco com essas pessoas.

ISTOÉ – Como a sra. interpreta histórias novelescas como essas? Está mais difícil preservar a intimidade?
Hildegard – Esses dramas familiares são mais corriqueiros do que imaginamos. Por outro lado, uma coisa era ser personagem de coluna quando havia um processo natural de seleção, quando o dinheiro e a tradição selecionavam as pessoas. Antigamente as colunas eram lidas por um público segmentado. Hoje todo tipo de leitor lê o jornal inteiro. A informação foi democratizada e a elite se encolheu. Ao mesmo tempo, a violência recrudesceu e gerou o medo de sequestro. Também há o Imposto de Renda. Antes banqueiros quebravam, davam prejuízos enormes e mantinham o mesmo trânsito social. Hoje eles continuam quebrando e dando prejuízos, mas se fecham. Além disso, a superexposição não é mais de bom tom, não é politicamente correta.

ISTOÉ – Como é conviver com essas pessoas nas festas e depois publicar notícias que possam constrangê-las?
Hildegard – As pessoas esperam de mim essas revelações. Tudo é questão de tom. No caso dos Catão, se não fosse eu, outros publicariam. Não vou sair por aí dizendo quem é bígamo, com duas famílias montadas. Sei de casos no Brasil inteiro. Acontece que tenho de manter minhas fontes. A notícia tem um limite, que é o respeito pelo outro. Não se pode ir com sede ao pote, tudo na vida é uma questão de dosagem.

ISTOÉ – A alta sociedade de hoje é mais ou menos glamourosa que a de 20 ou 30 anos atrás?
Hildegard – O glamour hoje é diferente. Para começar, há muito mais recursos. A pessoa dá um telefonema e monta um toldo espetacular ou aluga 300 cadeiras douradas. As festas estão grandiosas e cenográficas. Antes talvez houvesse mais requinte. Já fui a uma festa com docinhos que reproduziam os rostinhos das pessoas em delicados biscuits. Não existe mais mão-de-obra para esse tipo de preciosismo. Já as festas infantis viraram coisas mirabolantes. Outro dia fui a uma festa dos filhos da arquiteta Fátima Brizola, na Barra, onde havia uma minifazenda, com todos os bichos de verdade.

ISTOÉ – Quem são os que amam aparecer? E os que desejam desaparecer?
Hildegard – Adoram os que têm objetivos profissionais, como uma Maria da Glória Antici, que faz banquete, ou a Claudine de Castro, que ajuda a filha Maria Amélia a divulgar seus maravilhosos desenhos em tecidos. A vaidade deixou de preponderar. Os que detestam são os que têm classe e apreciam a discrição. Não se vê gente de categoria abrindo o closet, é um exibicionismo. Por aí já se vê quem é quem. A gente não vê nas revistas pessoas com estantes de livros, só home theaters.

ISTOÉ – O que são exatamente os emergentes?
Hildegard – Esse termo se descaracterizou. Alguns se outorgaram o título e entraram no delírio do novo-rico, aparentando o que não são. Vera Loyola, por exemplo, é formidável, mas às vezes se perde vestindo o personagem que lhe direcionam. Vera não pode se deixar ridicularizar, tem que se dar ao respeito. Emergente não é uma caricatura. É o self-made man americano, só que brasileiro.