Medicina & Bem-estar

A forca da palavra

Escrever sobre os problemasde saúde fortalece o sistema imunológico e melhora a vida de doentes


O som da música no corredor desperta a atenção das pessoas. A melodia vinda do piano, atrai os ouvintes até uma sala no Centro Infantil Boldrini, em Campinas, interior de São Paulo, instituto que atende crianças e jovens adultos com câncer e doenças de sangue. O local é frequentado pelo compositor paulista Anderson de Souza, 22 anos, autor das notas musicais. Aos 14 anos, descobriu que tinha câncer na faringe. “Achei que era meu atestado de óbito.” Hoje, Souza está bem e faz apenas acompanhamento médico. Conseguiu se recuperar com quimioterapia. Mas para superar a doença ele contou com um aliado inusitado: a escrita. Na tentativa de controlar seu sofrimento, passava horas escrevendo letras de música que refletiam seus medos e angústias daquela época. Depois, dava vida a suas composições colocando ritmo no emaranhado de palavras. “Foi a terapia que encontrei para derrotar o problema.” Sem saber, ele colocou em prática um método que pode auxiliar na melhora de pacientes com câncer, asma, artrite reumatóide, anorexia, entre outros. A novidade é resultado de uma pesquisa feita recentemente pela Universidade de Nova York, nos Estados Unidos. O estudo sugere que escrever diariamente sobre o mal ajuda a combatê-lo.

No trabalho americano foram analisados 70 voluntários com asma – inflamação dos brônquios e pulmões que dificulta a respiração – ou artrite reumatóide (inflamação das articulações). Todos escreveram sobre suas crises de falta de ar e dores por três dias consecutivos, durante 20 minutos. “Metade deles conseguiu reduzir o desconforto provocado por uma das duas doenças”, garante o psicólogo Joshua Smyth, que coordenou a pesquisa. Para os asmáticos, a notícia vem a calhar. “É justamente nesta época do ano que as crises de falta de ar se tornam mais frequentes, por causa das mudanças bruscas de temperatura”, explica o alergista e imunologista Fábio Morato Castro, da Universidade de São Paulo. A asma afeta 16 milhões de brasileiros.

Abrangência – A pesquisa da Universidade de Nova York esteve focada em apenas dois tipos de doenças, mas a terapia da escrita pode servir de auxiliar no tratamento a diversos males. É o que acredita Smyth, embora faltem estudos sobre a abrangência dos efeitos positivos da escrita. Por que a expressão da palavra pode melhorar a vida de outros pacientes? A explicação para tal benefício é que escrevendo a pessoa estimula o cérebro a produzir anticorpos. “Isso irá fortalecer o sistema imunológico do doente”, esclarece a oncopediatra Silvia Regina Brandalise, diretora do Centro Infantil Boldrini. “Uma palavra bonita tem o dom de despertar no organismo sensações de prazer”, acrescenta.

Foto: Max G. Pinto
Olinda descreve o que come

Na prática, o recurso já vem sendo experimentado no Brasil por pessoas que sofrem de transtorno alimentar, como anorexia e bulimia. No primeiro caso, o paciente se recusa a comer e no segundo, ele devora tudo pela frente e, depois, tem uma crise de arrependimento. Geralmente, o mal aparece na adolescência, é mais comum em mulheres e pode ser desencadeado por depressão, drogas ou fatores genéticos. As vítimas se acham gordas e querem emagrecer a qualquer custo. Os dois problemas são controlados com antidepressivos, terapia e acompanhamento nutricional. No ambulatório de bulimia do Hospital das Clínicas de São Paulo, os pacientes têm a tarefa extra de escrever diariamente tudo o que saborearam durante o dia. Ao lado de cada refeição, expressam o que sentem. “É um instrumento de autocontrole da doença”, justifica a nutricionista Marle Alvarenga, do HC. “Eles pensam duas vezes antes de ficar sem comer ou de devorar a geladeira”, conta.

O diário foi o instrumento que melhorou a vida da arquiteta paulistana P.C.S., 28 anos, que não quis ser identificada. Há oito anos, ela começou a ter anorexia. Na época, pesava 68 quilos. Resolveu fechar a boca e chegou a ficar com 36, sendo que mede 1,60m. “Achava que até água engordava”, recorda-se. Hoje, ela recuperou o peso perdido. “Escrever te faz tomar consciência do problema e te fortalece”, afirma. A empregada baiana Olinda de Souza, 28 anos, também está superando o problema. Ela conta que não tem muita disciplina para fazer o diário, mas admite que o livro ajuda na terapia.

Para a psicóloga Maria Helena Bromberg, da Sociedade Brasileira de Psicooncologia de São Paulo, a escrita é a forma mais forte de expressão. “É a carta que nunca será enviada, repleta de sentimentos que colocam o paciente em contato com a realidade dele.” Já a psicoterapeuta Lenize Chaves, do Centro de Estudos Cognitivos da Universidade Federal de Minas Gerais acredita que quem escreve é corajoso. “Essa pessoa quer e pode se curar”, conclui. É essa confiança que Anderson de Souza deixa transparecer nas letras de música que compõe.

Colaborou Cilene Pereira

A arte terapêutica
Pintura, desenho, música e contos. Essas formas de expressão que representam diversas nuances da arte também podem contribuir para a recuperação de pacientes. Não por acaso no final do ano passado vários psicólogos, médicos e pedagogos se reuniram na Unicamp para participarem do Primeiro Simpósio sobre Arte e Dor. Lá, eles contaram como o trabalho artístico auxilia doentes nos hospitais. Segundo a psicóloga Elisa Perina, da Unicamp, a arte estimula a criatividade das pessoas, que passam a reagir melhor ao tratamento. Não é só isso. “Por mexer no campo subjetivo, a manifestação artística reduz o stress”, explica.


Saiba mais
+ Morre a atriz Noemi Gerbelli, a diretora Olívia da novela 'Carrossel', aos 68 anos
+ Modelo brasileiro se casa com nove mulheres e vira notícia internacional
+ Horóscopo: confira a previsão de hoje para seu signo
+ Receita simples e rápida de asinhas de frango com molho picante
+ Conheça o suco que aumenta a longevidade e reduz o colesterol
+ CNH: veja o que você precisa saber para a solicitação e renovação
+ Vídeo de jacaré surfando em Floripa viraliza na internet
+ Veja quais foram os carros mais roubados em SP em 2021
+ Expedição identifica lula gigante responsável por naufrágio de navio em 2011
+ Tudo o que você precisa saber antes de comprar uma panela elétrica
+ Descoberto na Armênia aqueduto mais oriental do Império Romano
+ Agência dos EUA alerta: nunca lave carne de frango crua
+ Gel de babosa na bebida: veja os benefícios
+ Truque para espremer limões vira mania nas redes sociais