Cultura

O devasso

Carlos Lombardi transforma a novela global das sete Uga uga num sucesso de audiência graças ao festival de bíceps e seios de seus atores

A julgar pelo que imagina para a novela global Uga uga, a mente de Carlos Lombardi é um campo de nudistas frequentado por malucos. Não há uma cena em que a maioria de seus personagens não esteja em trajes sumários. O público adora. No primeiro capítulo, segundo o Ibope, o índice de audiência rondou os 40 pontos, enquanto a média da primeira semana esteve nos 37. É o melhor desempenho dos folhetins do horário das sete da Rede Globo nos últimos três anos. Claro, qual é a moçoila ou marmanjo que não gosta de ver Danielle Winits e seus seios siliconados em modelito molhado e transparente, sendo lambida por Claudio Heinrich seminu? Ou então Marcelo Novaes e Mateus Rocha promovendo um concurso no qual eles dão notas para os traseiros das vizinhas, com direito a generosos closes nos respectivos derrières. Sem falar no eterno descamisado Humberto Martins, cuja atuação se concentra nos bíceps e nos pêlos do peito. Apesar de tanta libidinagem no ar, Lombardi jura não ser tarado. “Eu? Nada disso. Sou um conservador, pai de dois filhos, que gosta de ficar em casa curtindo a família.”

Se é assim, por que então seus personagens parecem estar sempre pensando “naquilo”? O autor não esconde. Trata-se de uma estratégia usual da tevê brasileira para fisgar audiência. “Quando entramos no outono/inverno, a televisão procura mostrar novelas ambientadas em lugares ensolarados, porque, vivendo dias escuros, chuvosos, o telespectador é atraído pelos cenários iluminados”, explica Lombardi. “E ninguém vai à praia vestido nem há índio de terno e gravata. No verão do Rio todo mundo usa pouca roupa.” Mas para seguir essa linha – uma síndrome que já se havia manifestado em Quatro por quatro e Vira lata, suas novelas mais recentes –, gente sem músculos ou de cara bonitinha que o perdoe. Na grife Lombardi, beleza é fundamental. Bonitos todos são, mas… bons atores? O autor defende seu eleitorado com unhas e dentes. Acha que Martins sabe falar bem o seu texto e Danielle não é apenas uma louraça satanás. “Se ela ficar feia aos 60 anos, vão descobrir que é uma boa atriz.”

Na escalada dos sem-roupa, um de seus principais trunfos para manter os telespectadores hipnotizados é o personagem Tatuapu, o improvável índio louro que sai do meio do mato e acaba se aventurando na cidade grande. Para viver o papel, foi escolhido a dedo o ator Claudio Heinrich, atual campeão de correspondência da Globo, posto obviamente conquistado, já que todas as noites aparece metido numa tanguinha minúscula, correndo de um lado para o outro, com as nádegas 100% à mostra. “Além de me dedicar ao texto, preciso manter um bom preparo físico para as cenas de ação”, explica Heinrich.

Foto: Dovulgação
Lombardi: “Sou um conservador, pai de dois filhos”

Uga uga, no entanto, não se resume aos peladões e peladonas. A novela tem um texto de pique alucinante que dá muito trabalho ao diretor Wolf Maya, também atuando como ator. “Não é fácil. A ebulição exige marcas criativas, um tratamento de câmera ágil para não perder a sofisticação da narrativa”, conta ele. Maya dá pouca importância às críticas à nudez. “Se reclamarem muito, o Lombardi é capaz de fazer nevar e pedir emprestado os figurinos de Esplendor”, ironiza, referindo-se à novela das seis, passada nos anos 50. A atriz Mariana Ximenez, vivendo a personagem Bionda, se esbalda com o humor de Uga uga. “Damos muitas gargalhadas com o texto e nos divertimos enquanto representamos.”

Crítica interna – Lombardi sabe que os elogios recebidos do elenco podem ser fugazes. “Vamos ver se na metade da novela eles vão achar a mesma coisa”, brinca. Na pele de autor, ele sabe que é impossível dar o mesmo destaque a todos os personagens. São 35, apenas no núcleo fixo. Quando uns começarem a sobressair, a insatisfação pode emergir, mas ele diz estar preparado. Paulistano de 41 anos, Carlos Lombardi não se intimida com os torpedos da crítica e procura sempre testar os limites da televisão. Vez ou outra, um personagem deixa escapulir um palavrão. “Outro dia, Mário Lúcio Vaz (diretor da Central Globo de Controle de Qualidade) me ligou porque o roteiro tinha a palavra ‘porra’. Chegamos a gravar uma cena alternativa sem usar o termo e no final o convenci de que o palavrão não era gratuito, estava bem colocado.” Vaz, um mineiro tradicionalista, liberou o palavrão, mas fez uma advertência: “Não fica muito saidinho nos palavrões, não.”

Escrever novela é um trabalho árduo e exige dedicação. Durante o período, Lombardi fica 15 dias no Rio de Janeiro e 15 em São Paulo. Quase não sai de casa. Quando acontece é para visitar rapidamente um restaurante e depois voltar correndo ao computador. Lombardi não deixa dúvidas de que considera o folhetim um produto, mas confessa ter pelo menos uma ambição em relação aos seus textos. “Quero que no horário das sete o telespectador dê algumas boas risadas diante da televisão.” Para conseguir o intento, ele lança mão de muito nonsense, como se seus personagens fizessem parte de uma história em quadrinhos ou de um desenho animado. A mãe pode apontar um revólver contra o próprio filho para dar-lhe um corretivo, como fez Santa (Vera Holtz) com Rolando (Heitor Martinez Mello). O Pajé também pode revelar-se um muambeiro de produtos do Paraguai, como é o personagem de Roberto Bonfim. Misturando esses elementos à correria e à sensualidade, a diversão é certa. Só em novembro Carlos Lombardi deverá dar a missão por encerrada, mas já faz planos. “Quero ficar descansando na praia da Barra, com meus filhos e minha mulher, Cris.” Sujeito familiar, esse Lombardi.