Edição nº2599 18/10 Ver edições anteriores

Entrevista

Dana Thomas

As marcas de luxo perderam o brilho

As marcas de luxo perderam o brilho

Escritora americana diz que grifes famosas pela exclusividade baixaram a qualidade dos produtos para aumentar o lucro

Suzane Frutuoso
Edição 08/10/2008 - nº 2031

O conceito de luxo está ligado ao poder, à exigência pelo melhor e à tentativa de se diferenciar da maioria. Durante décadas, ele esteve presente apenas no universo dos muito ricos, que podiam vivenciar a experiência de uma compra cercada de mimos – do atendimento vip ao laço de seda que arrematava o pacote. Marcas como Louis Vuitton, Dior, Burberry, Gucci e Prada eram exemplos dessa exclusividade para muito poucos. Hoje, essas e outras grifes históricas estão sob o controle de corporações globais multibilionárias que visam ao lucro e ao crescimento pelos quatro cantos do mundo. O que os empresários do setor consideram democratização, a escritora e jornalista americana Dana Thomas chama de massificação no livro Deluxe – como o luxo perdeu o brilho, lançado no Brasil pela editora Campus-Elsevier. A autora, que escreve para as revistas Newsweek e New York Times Magazine, expõe o lado obscuro dos bastidores da atual indústria da moda. Entre as revelações, conta como os produtos feitos à mão estão praticamente extintos, as manobras agressivas dos executivos para tirar as marcas das famílias fundadoras, o impulso que a pirataria ganhou com o consumismo criado pelos desejados logotipos e como roupas fabricadas na China, para cortar custos, recebem etiquetas “Made in Italy”. Dana, que mora com o marido e sua filha em Paris, levou três anos para terminar a obra. Ela concedeu a seguinte entrevista à ISTOÉ.

 

ISTOÉ – Quando a sra. percebeu que havia uma história a ser contada por trás da rápida expansão do acesso a produtos de luxo?
Dana Thomas

Decidi escrever o livro por duas razões. Primeiro porque, como jornalista, escrevo há anos sobre moda, luxo e estilo de vida. E nesse tempo colhi boas histórias sobre as empresas do setor e os executivos que estavam tomando a frente dessas companhias, que sempre foram comandadas pelas famílias fundadoras. A indústria de moda começou a crescer muito, a se tornar um grande negócio, a formar conglomerados e a apresentar lucros incríveis. Um fenômeno.

ISTOÉ – E a qualidade dos produtos?
Dana Thomas

Como consumidora das marcas, percebi que a qualidade dos produtos estava caindo. O acabamento das roupas não era bem-feito, zíperes arrebentavam, bainhas descosturavam. E isso não acontecia antes. Estava pagando muito por peças de baixa qualidade.

ISTOÉ – O que aconteceu com as empresas familiares?
Dana Thomas

Muitas foram vendidas pelos herdeiros dos fundadores aos conglomerados de luxo. Em alguns casos, o que começou como uma sociedade para as famílias foi um passo para a perda de controle da empresa, como aconteceu com a italiana Gucci.

ISTOÉ – Por que a sra. define o atual fenômeno como ?massificação? do luxo e não ?democratização?, como preferem os empresários do setor?
Dana Thomas

Para mim, a democratização do luxo é fazer com que produtos sofisticados estejam ao alcance de todos. Significa que qualquer um pode entrar em uma loja de grife e adquirir um produto, o que já se tornou comum nos Estados Unidos e na Europa. No passado, entrar em uma loja dessas era como fazer parte de um clube seleto. Hoje, qualquer um que tenha dinheiro – e há cada vez mais pessoas com dinheiro no mundo – pode comprar um produto de uma marca considerada de luxo. Mas, para as empresas, democratização significa espalhar objetos de desejo por todos os cantos, sem critério. Isso é banalização. Não se trata mais de uma compra especial. Hoje, as marcas de luxo perderam o brilho.

ISTOÉ – Algumas dessas grifes resistiram à massificação do luxo?
Dana Thomas

Sim. A francesa Hermès é o melhor exemplo. Continua uma empresa familiar. E, quando você compra uma bolsa da marca, precisa ir pessoalmente à maison, escolher o tamanho, o couro, a cor, se a ferragem será em ouro amarelo, branco ou incrustada de brilhantes. Depois, é necessário esperar o tempo que for para que os artesãos montem a bolsa. Isso pode levar meses. Eles poderiam produzir centenas de milhares de bolsas, ter centenas de lojas, mas optaram por manter a exclusividade.

ISTOÉ – O que permitiu que mais pessoas adquirissem produtos de grandes marcas nos últimos dez anos?
Dana Thomas

Muitas coisas mudaram. Um número considerável de pessoas enriqueceu, portanto há mais dinheiro para se gastar. Há mais produtos disponíveis no mercado, com maior número de lojas espalhadas pelo mundo. Vinte e cinco anos atrás, a Louis Vuitton tinha duas lojas. Hoje, tem 400. É bem fácil achar peças da marca. Mas, principalmente, as empresas introduziram no mercado produtos mais baratos para pessoas que compram pelo logotipo, e não pelo que ele representa. Há coisas em conta, além das peças caras: echarpes, carteiras, óculos de sol, cintos. O que importa é a etiqueta.

ISTOÉ – Permitir que produtos de luxo sejam acessíveis a mais pessoas é totalmente ruim?
Dana Thomas

Não, claro que não. É bom que diferentes populações tenham acesso a produtos mais sofisticados, possam conhecer e refinar seus gostos. Mas penso que não é certo alguém comprar uma blusa acreditando que foi feita à mão na Itália, quando, na verdade, a produção é chinesa. Ou dizer que algo é exclusivo quando há centenas de milhares iguais ao redor do mundo.

ISTOÉ – Quais são as principais diferenças no atendimento em uma maison hoje e algumas décadas atrás?
Dana Thomas

A grande diferença é que antes uma loja era como um clube. As vendedoras conheciam bem os clientes e suas preferências. Os clientes se conheciam entre si. No Brasil existe a Daslu, que é o que há de mais próximo no mundo de como era a experiência da compra de luxo no passado. Vendedoras e clientes são amigas, da mesma classe social. No geral, o que as empresas das grandes grifes oferecem é um atendimento corporativo, sem um toque pessoal.

ISTOÉ – A sra. conheceu a Daslu, em São Paulo. O que achou?
Dana Thomas

Incrível. Levei três dias para conhecer toda a loja. É enorme. Mas adorei o lugar porque tudo o que você quiser encontrará lá. E, além disso, é absolutamente confortável e agradável. Como se você estivesse na casa de uma amiga.

ISTOÉ – O que acha dos outlets (lojas de grifes que vendem produtos com pequenos defeitos e de coleções anteriores)?
Dana Thomas

Os outlets são a antítese do luxo. Vendem produtos inferiores e danificados, quando a essência de uma grife de luxo são peças minuciosamente perfeitas e belas. Na minha opinião, eles prejudicam a imagem das marcas.

ISTOÉ – A massificação dos produtos de luxo pode ser considerada culpada pelo crescimento da pirataria?
Dana Thomas

Sim. A partir do momento em que as corporações fizeram suas marcas se tornarem cada vez maiores, seus produtos também passaram a ser mais desejados. E, mesmo que muita gente tenha mais dinheiro, ainda há uma parcela imensa da população que não pode gastar. Por outro lado, o que importa para boa parte das pessoas não é a qualidade, mas o logotipo.

ISTOÉ – No livro, a sra. diz que muitas peças das grandes marcas são fabricadas na China. Quer dizer que, se compro uma bolsa Prada em que está escrito ?Made in Italy?, deveria estar escrito ?Made in China??
Dana Thomas

Isso mesmo.

ISTOÉ – Quais são as empresas que produzem parte de suas peças na China? São produtos de menor qualidade?
Dana Thomas

Não tenho como afirmar ao certo porque há uma enorme proteção dos chineses sobre as marcas para as quais trabalham. Mas, quando eu estive no país, fiquei impressionada com a quantidade de produtos feitos lá de cerca de 20 marcas.

ISTOÉ – Existem boas fábricas na China?
Dana Thomas

Não seria correto afirmar que tudo o que é produzido na China é ruim. Pelo contrário. As marcas estão ensinando qualidade aos fabricantes chineses e eles estão melhorando cada vez mais. O problema é que deveria ficar claro para o consumidor que a bolsa que ele compra imaginando ser feita à mão é produzida numa fábrica em larga escala.

ISTOÉ – Quais são as principais diferenças entre os consumidores de luxo do mundo?
Dana Thomas

Os melhores, no geral, são os que conhecem a história de uma marca, têm gosto refinado e cultura. Pessoas assim dão valor e sabem o que estão comprando. Os japoneses são muito exigentes com a qualidade e a beleza. Os chineses estão aprendendo e comprando muito. Americanos querem comprar muito e ponto. Os brasileiros dão importância ao belo e à leveza em suas vidas e transmitem isso para suas compras.

ISTOÉ – Bernard Arnault, que comanda o conglomerado LVMH, é descrito no livro como um empresário frio, que não se importa de passar por cima dos outros para adquirir uma grande marca. Foi esse perfil que fez da Louis Vuitton um sucesso mundial e da LVMH o maior conglomerado de luxo do mundo?
Dana Thomas

Ele é um homem de negócios perspicaz, não há como negar. Graças a Arnault, a Louis Vuitton tornou-se conhecida em centenas de países. Mas para uma marca chegar a isso não precisa de alguém com o perfil dele. Giorgio Armani não precisou, por exemplo. O que importa para ele é ser bem-sucedido e obter lucro, mesmo que isso descaracterize o trabalho de anos de uma grife.

ISTOÉ – Quais maisons continuam independentes dos grandes conglomerados? Como elas sobrevivem?
Dana Thomas

Chanel, que continua seguindo os princípios da fundadora, Coco Chanel. A Hermès também. São marcas que vendem bem porque o público continua seleto e não precisam da massificação. Ninguém sabe como os negócios dessas maisons são realizados. É tudo muito discreto, como sempre foi.

ISTOÉ – Ter acesso a produtos de luxo faz alguém mais elegante?
Dana Thomas

Não. Elegância é um dom natural. Mesmo que ela esteja de camiseta e jeans. Está ligada a um estilo pessoal e a uma postura diante da vida e no trato com as pessoas.



Copyright © 2019 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.