Comportamento

O movimento das anti-feministas

Surgem na internet comunidades de mulheres, a maioria jovens, que consideram o feminismo ultrapassado, radical e desnecessário nos dias de hoje

O movimento das anti-feministas

MODA ANTIGA A mineira Silvania Delduque e o marido, Samy Houchaini: ela diz que o romantismo é visto pelas feministas como uma forma

Para um número cada vez maior de mulheres jovens, o feminismo é um movimento ultrapassado, cheio de ideias equivocadas. “Atualmente não temos mais as mesmas desigualdades do passado”, afirma a administradora Léia Sampaio, 24 anos, integrante da comunidade Mulheres Contra o Feminismo e uma das representantes do que está sendo chamado de antifeminismo. Esse grupo cresce na esteira das redes sociais – há uma profusão de comunidades sobre o tema na internet – e, amparado em lemas como “homens e mulheres são diferentes sim e têm de ser tratados como tal”, vem angariando adeptos. Segundo a especialista em feminismo e professora da Universidade de Brasília Susane Rodrigues de Oliveira ideias contrárias à emancipação das mulheres existem desde a Antiguidade, mas têm ganhado expressividade no Brasil por se tratar de um país ainda educado em torno de valores conservadores e cristãos. “Elas veem o feminismo como uma subversão da ordem sacralizada e heterossexual”, afirma. “Trata-se de uma reação de setores mais vinculados à Igreja, que defendem uma concepção de família mais antiquada”, completa Tica Moreno, militante da Marcha Mundial das Mulheres para quem o surgimento de grupos antifeministas deve-se à popularização do feminismo nas redes sociais.

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À MODA ANTIGA
A mineira Silvania Delduque e o marido, Samy Houchaini: ela diz que
o romantismo é visto pelas feministas como uma forma de submissão


A administradora Léia chegou a integrar um grupo feminista durante a adolescência. O ponto de virada ocorreu em um debate sobre a legalização do aborto – ela é contra a interrupção da gravidez. Há quatro anos, Léia tornou-se uma das administradoras de um dos grupos de antifeministas da internet. “Quero mostrar à sociedade que para uma mulher lutar por seus direitos ela não precisa ser feminista”, diz. Para a jovem, homens e mulheres não são biologicamente iguais e por isso assumem papéis sociais diferentes.

“É preocupante que, para conquistar a igualdade, uma mulher tenha que trabalhar tanto quanto um homem e ficar sobrecarregada”, afirma. A antropóloga e pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero da Unicamp Guita Grin Debert observa que a diferença de salários, por exemplo, reforça a necessidade da luta feminista no Brasil. “Existem desigualdades entre homens e mulheres e a crítica se dá quando elas são usadas para inferiorizar o gênero feminino”, diz.

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BANDEIRA
Léia Sampaio, 24 anos, do Movimento de Mulheres contra o Feminismo: 
"Biologicamente não somos iguais"

Estudante de letras e ex-militante feminista, Tamara do Nascimento Mota, 23 anos, começou a se identificar com o antifeminismo quando teve um texto de sua autoria sobre emagrecimento censurado em uma página feminista. “Comecei a perceber que havia uma apologia à obesidade. As feministas diziam que cedíamos à ditadura da beleza imposta”, diz. Para a estudante, o movimento feminista no Brasil adotou ares radicais. “Elas desqualificam e são intolerantes com as mulheres que divergem de sua ideologia”.

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Fundadora de outra página antifeminista nas redes sociais, a educadora Silvania Delduque, 41 anos, acha que as mulheres devem resgatar o romantismo, visto como submissão pelas feministas. Ela também critica as manifestações públicas dos grupos de igualdade de gênero. “Comecei a notar que muitas utilizam o rótulo de feminista para praticar atos de atentado ao pudor”, diz. Católica, ela acredita que atos que utilizam símbolos religiosos em performances sexuais desmoralizam as mulheres. Para Tica Moreno, da Marcha, porém, quando se busca uma mudança estrutural é necessário ser radical. “As performances fazem parte da nossa estratégia, mas é importante compreender que o feminismo vai além das marchas”, diz. Silvania também questiona a necessidade da luta pela igualdade. “Hoje as mulheres têm seus direitos conquistados e amparos legais para recorrer”, diz. Ela acredita que homens e mulheres têm papéis diferentes: “A mulher é a mãe que deve estar presente na vida dos filhos e o homem é o chefe da família.” A ativista Tica ressalta, entretanto, que a conquista não ocorreu na mesma medida entre os gêneros. Para ela, apesar de as mulheres atuarem cada vez mais no mercado de trabalho, os homens não incorporaram as atividades domésticas em sua rotina. “A sociedade ainda precisa evoluir muito para que as mulheres sejam livres e autônomas”, diz. Até lá, é necessário que levantem a voz por seus direitos e pela preservação de suas conquistas.