Brasil

O rei da Zitolândia

Prefeito de Duque de Caxias tenta criar feudo político incentivando candidaturas de parentes

A Baixada Fluminense pode mudar o nome para Zitolândia após as eleições deste ano. Se derem certo os planos do prefeito de Duque de Caxias, José Camilo Zito (PSDB), quatro dos oito municípios da região serão comandados por um só clã. Esbaldando-se em mais de 90% de aprovação, Zito, 47 anos, transferiu o domicílio da mulher, Narriman, 42, para concorrer à prefeitura da vizinha Magé. Exportou a filha Andréia, 25, deputada estadual, para fazer o mesmo em São João de Meriti. O irmão Waldir, 42, já faz campanha em Belford Roxo.

A Zitolândia somaria 1,7 milhão de habitantes, 60% do maior curral eleitoral do Estado, que age de forma homogênea diante das urnas. Foi assim com o chaguismo nos anos 70, com o brizolismo nos 80 e com Anthony Garotinho (PDT) em 1998. A novidade é que Zito é um nativo sem pedigree social nem consistência partidária. Sua fama começou num processo em que é acusado de mandar matar um ex-funcionário da prefeitura em 1995. Ele jura inocência e nega ter usado métodos heterodoxos para acabar com a bandidagem no bairro Doutor Laureano, onde tinha um clube.

“Já me armaram mais uns cinco inquéritos. Me acusaram até de matar um dando cabeçada num jogo de futebol”, diz Zito, numa linguagem que, de tão bronca, é quase singela. Mas e a cabeçada, existiu? “Sei lá, não me lembro. Jogo futebol sempre, mas não dou cabeçadas assim”, pondera, com um olhar de peixe morto e um corpanzil de 1,89m e 103 quilos que assustam quem não o conhece.
A façanha de Zito não é só política. Em sua gestão, segundo ele, mil ruas foram pavimentadas e iluminadas, cinco postos de saúde 24 horas foram montados e os professores ganham pelo menos R$ 720. O estilo seduz uma população acostumada a maus-tratos. Não é contraditório um prefeito que se vangloria de ser um nativo exportar parentes para governar outras praças? Zito diz que Narriman, engenheira sanitarista, tem tudo a ver com Magé, “um município cheio de verde”. A filha “já morou três anos em São João”. O irmão Waldir será o trunfo de Zito em Belford Roxo, caso a prefeita Maria Lúcia dos Santos, do PSDB, naufrague. “Ela está meio lá, meio cá na popularidade”, ameaça Zito.

O deputado estadual Geraldo Moreira, provável candidato do PDT a prefeito de Caxias, admite ser difícil comparar Zito a antecessores, mas não se intimida. “Não passa de nepotismo baixo. Ele não defende causas, só interesses domésticos”, acusa. O ex-governador Marcello Alencar, chefe do PSDB, sai na defesa. “Estou certo de sua inocência. Ele teve fama de matador por ser acostumado a viver com risco, peitar tudo, pôr bandido para correr”, diz. “Tenho amor a Marcello por ter confiado em mim num momento difícil, mas ele é líder do PSDB, não do Zito”, escorrega o prefeito, já admitindo deixar o enfraquecido PSDB. Pensa em convocar um plebiscito para saber para onde seguir. Coisas da Zitolândia.