Economia & Negócios

Mordidas na concorrência

Pesquisa do Ibope mostra que o iG, com cinco meses de vida, empatou com o Universo Online na preferência dos internautas

Quando o provedor de acesso à Internet iG chegou ao mercado brasileiro muita gente da concorrência reclamou. Os mais exaltados foram à Justiça. Alegavam que não cobrar pelo serviço, o principal diferencial do provedor, ia contra as regras da concorrência saudável. Menos de seis meses depois, a empresa dirigida pelo publicitário Nizan Guanaes comemora dois feitos e, mais uma vez, vira alvo de comentários. O primeiro foi a entrada de dois novos sócios estrangeiros de peso, os fundos de investimentos UBS Capital, da Suíça, e o americano TH Lee Putman. O anúncio do negócio aconteceu semana passada em São Paulo, em uma concorrida entrevista coletiva. Os grupos estrangeiros pagaram US$ 75 milhões para ficar com 12% do iG. O mercado logo fez as contas e concluiu que o provedor de acesso já vale respeitáveis US$ 625 milhões. Foi a segunda entrada de sócios no negócio lançado em janeiro pelos grupos Opportunity e GP Investimentos. A primeira ocorreu com a venda de uma participação minoritária para as operadoras de telecomunicação Telemar e Brazil Telecom. Mas a razão do mau humor da concorrência parece vir de outro front: do crescimento do número de usuários que compõem a base do iG. Pesquisa realizada pelo Ibope, com 15 mil entrevistados, mostrou que o iG empatou com o seu concorrente mais forte, o Universo Online (UOL), na preferência dos internautas que acessam a rede a partir de um computador instalado em casa. O iG foi escolhido por 25% dos entrevistados, enquanto o UOL ficou com 24%. O empate técnico fica por conta da margem de erro da pesquisa, de 1%.

Vitaminado pela injeção de capital, a estratégia do iG a partir de agora será consolidar a posição conquistada nesses meses de intensa campanha publicitária, tendo à frente a figura da cachorrinha Micky. O resultado das campanhas do iG aparece, por exemplo, no tamanho da base de usuários. Hoje com dois milhões de internautas cadastrados, a tendência é que cresça em um ritmo mais acelerado que os provedores pagos. Ao menos é o que também mostra a pesquisa do Ibope, quando procurou detectar as preferências dos novos usuários. A resposta é que eles estão preferindo entrar na rede usando um provedor que não cobra pelo acesso.

Ainda que o acesso seja gratuito, o iG, claro, não está no mercado para brincar. O objetivo, como no caso dos provedores pagos, é ganhar dinheiro. Até o final do ano, por sinal, a estimativa é uma receita de US$ 30 milhões, sendo que desde janeiro o faturamento apenas com publicidade foi de US$ 14 milhões. “Essa performance mostra que estamos conseguindo entender o que o mercado publicitário quer da internet”, diz Guanaes. Em entrevista a ISTOÉ (abaixo), ele aproveita para rebater uma crítica recorrente da concorrência, segundo a qual o iG, por ser gratuito, deveria estar crescendo com velocidade ainda maior.

Receitas – A estratégia para aumentar a receita é ampliar o leque de serviços. Pretendem faturar com publicidade, comércio eletrônico, aluguel de espaço para lojas virtuais, licenciamento de produtos com a marca iG e a venda de produtos, como no caso da campanha do iG flores. Com isso, Guanaes vai mudar radicalmente o “mix” de receitas. Hoje, 60% do faturamento provém de publicidade e 40% são faturados com comércio eletrônico. Outra fonte importante de faturamento deve vir de novas tecnologias para a Internet. De um lado, o serviço SELig, que irá permitir a distribuição de conteúdo via telefone celular. Do outro, o sistema batizado como Bbig, usando o sistema de banda larga. Os dois serviços, é bom a concorrência estar avisada, serão pagos.

“O mercado é muito fofoqueiro”

Depois de 20 anos no mercado publicitário, no qual se firmou como um dos profissionais brasileiros de maior sucesso, Nizan Guanaes deu uma virada em sua carreira quando decidiu assumir o iG. Muita gente do ramo estranhou a decisão de se aventurar no mundo da economia virtual. Na entrevista a seguir, ele fala do novo desafio, cutuca concorrentes e reafirma a sua aposta na Internet grátis.

ISTOÉ – A sua experiência como publicitário ajuda a comandar o iG?
Nizan Guanaes – Acho que eu tenho um entendimento sobre o que a publicidade espera da internet. E isso faz com que o iG seja o líder em receita publicitária na rede. Nós já faturamos em cinco meses metade do que o mercado inteiro faturou no ano passado. O mercado inteiro investiu US$ 30 milhões, e o iG faturou US$ 14 milhões desde que começou a operar. E neste ano vamos faturar US$ 30 milhões. Essa performance mostra que nós estamos conseguindo entender o que o mercado publicitário quer. Além disso, nós somos o provedor de acesso mais usado hoje pelas pessoas.

ISTOÉ – A concorrência parece estar incomodada…
Guanaes – É uma luta aguerrida. O mercado é muito fofoqueiro, há interesses contrariados. A própria instituição da Internet grátis incomoda porque desafia o modelo pago. Já tentaram até proibir o acesso gratuito judicialmente. Antes se dizia que não teríamos sucesso, agora ficam perguntando como vamos ganhar dinheiro. Os mesmos que estão dizendo isso entram em contradição e lançam serviços gratuitos.

ISTOÉ – Os investidores que estão colocando dinheiro no negócio estão confiantes em manter o acesso gratuito?
Guanaes
– São os números que dão confiança a eles. Todas a metas para um ano foram alcançadas em cinco meses. Agora, é claro que a internet é muito nova. Se o modelo pago ainda não está no azul, não é possível que o modelo gratuito esteja, com cinco meses de vida. O problema é o tamanho da base, que precisa crescer. É única e exclusivamente isso. Tem gente que está há quatro ou cinco anos com acesso pago e ainda está no vermelho. Além do mais, o modelo do iG é misto. Dá acesso grátis para uma enorme base e vai ter serviços que serão pagos. Teremos uma série de fontes de receita: publicidade, e-commerce, aluguel de pontos como qualquer shopping, porque o iG é um shopping, licenciamento da marca, exploração de serviços, como estamos fazendo agora com as flores e vamos fazer com remédios e outros produtos. E vamos lançar o serviço de acesso por celular, que eu acredito será uma fonte enorme de receitas.

ISTOÉ – Então o acesso gratuito para o iG veio para ficar?
Guanaes
– Eu acho que o modelo do Brasil e de grande parte do mundo será o modelo de acesso gratuito, como é a televisão. O rádio, no começo, também era pago, depois é que se tornou gratuito. O Ibope mostra que as pessoas não estão dispostas a pagar R$ 20 para obter uma coisa que elas podem ter de graça. Elas querem que o anunciante pague pelo serviço. Eu não tenho medo de cara feia, nem de fofoca, nem de Internet grátis. Ao contrário, o iG apanha porque ele é o líder e tem sucesso porque está incomodando.