Brasil

Vida e morte na fronteira

Traficantes de drogas atuam com liberdade entre cidades do Brasil, do Para guai, da Bolívia e da Colômbia. São 500 quilômetros quase sem vigilância

Entoando a guarânia “Recuerdos de Ypacarai”, os paraguaios desembarcam do helicóptero brasileiro Esquilo UH-350 e mergulham em uma roça na serra de Umbu, um lugarejo paupérrimo a 90 quilômetros da fronteira do Paraguai com o Brasil, para uma coreografia com foices e facões. Regidos pelo subcomandante Francisco Alvarenga, 37 anos, 25 policiais do Exército e da Divisão Anti-Narcóticos do Paraguai (Dinar), vindos de Assunção, destroem uma plantação com golpes certeiros enquanto lamentam a derrota do escrete paraguaio para a seleção do Equador pelas eliminatórias da Copa do Mundo. Ao final, queimam 2,5 mil pés de maconha, espremidos em um hectare de terra. A operação secreta, feita na madrugada de quarta-feira 25 de abril, nem de perto ameaça os 1,5 mil hectares de maconha plantados só naquele trecho da fronteira. A muitos quilômetros dali, em outra localidade paraguaia, a goiana Denise Freitas, 33 anos, se esconde para não ser outra vítima de uma guerra que mata toda semana uma pessoa na fronteira. Desde que testemunhou, e denunciou, a trama de um consórcio de traficantes para tentar assassinar em Campo Grande (MS) o juiz federal Odilon de Oliveira, Denise virou uma fugitiva dos dois lados da fronteira. Mais ao sul, numa aldeia de sete mil índios nas vizinhanças de Dourados (MS), um conselho formado por velhos caciques tomou uma decisão drástica. A partir de agora, índio “bagulheiro” será entregue à Polícia Federal. O “capitão” da área Jaguapirá, o Terena Valdelírio Pontes, 65 anos, já fez até pajelança para espantar o “mau espírito da droga”. “A mocidade indígena tá ficando igual à branca: fumando e cheirando.” Parte dessa mocidade “branca”, as meninas R., 15 anos, e M., 16, rasparam essa semana suas economias – exatos R$ 660 – pegaram um ônibus em Cuiabá (MT), onde moram, e foram parar em Ponta Porã (MS), outro gargalo da fronteira. Não precisaram rodopiar muito pelo centro para encontrar o que queriam. As aprendizes de traficante compraram dez quilos de maconha a R$ 45 o quilo, mas caíram na primeira missão. Vão passar os próximos dois anos na Casa do Menor, ao lado de outras crianças viciadas e traficantes-mirins.

Alvarenga, Denise, Valdelírio e a dupla R. e M. fazem parte de um mundo que o Brasil não conhece. Quinhentos quilômetros de fronteira seca com dois dos três maiores produtores mundiais de droga – Bolívia e Paraguai – e um corredor aéreo e terrestre com o terceiro – a Colômbia. Latifúndios com plantações de maconha a perder de vista, a poucos quilômetros da fronteira. Uma infinidade de “linhas áreas” clandestinas, com Senecas e Navajos cortando os céus, e uma teia de estradas rasgando a fronteira, como a MS-156, apelidada de Transmaconheira, com 230 quilômetros de asfalto e terra ligando Ponta Porã a Guaíra, no Paraná. “A fronteira de Mato Grosso do Sul é hoje o lugar mais perigoso para se viver no Brasil”, atesta um homem baixo, bigode bem cortado e aparelho nos dentes. Entrincheirado na sede do Tribunal de Justiça, Odilon de Oliveira, 52 anos, pernambucano de Exu, é um juiz no meio de uma guerra. Com 150 traficantes presos, só sai do gabinete cercado por seguranças armados. Pela tabela do tráfico, sua morte vale US$ 20 mil. “Nesse ritmo, em dez anos o Brasil vai virar uma nova Colômbia. E Cali vai ser ali”, aponta Odilon, cravando no mapa um pontinho da fronteira que anda pegando fogo.

Ali, no caso, é Coronel Sapucaia, 15 mil habitantes, umas poucas ruas, um punhado de padarias, igrejas batistas e o posto de maior portal de entrada de drogas no Brasil. Do outro lado da fronteira – ou da rua – está Capitan Bado, com sete mil moradores. A maior riqueza dessas cidades gêmeas chega de fora, na forma de pó, sementes e folhas – como as plantações de Umbu. Desde 95, a Polícia Federal apreendeu nessa área, diante de uma população amedrontada, mais de 230 toneladas de maconha – o equivalente a 400 milhões de “baseados”, ou 75% de toda erva apreendida no País. Na mesma época, foram apreendidas 14,4 toneladas de cocaína. Essa “fronteira criminal” com o Paraguai, como ensina a Polícia Federal, transformou essa região pobre e esquecida num corredor para a maconha paraguaia e a cocaína boliviana e colombiana. Deve piorar. A inteligência da PF tem sinais de que o Paraguai, paraíso da maconha, abriu seus primeiros laboratórios de refino de coca. “O Paraguai é o nosso México. Um entreposto de criminalidade”, traduz Wantuir Jacini, chefe da PF em Mato Grosso do Sul.

Beira-Mar – Daquele lado da fronteira, concentram-se grandes áreas com plantações de maconha, em terrenos públicos e particulares – observadas por ISTOÉ em mais de um sobrevôo. Do lado de cá, grupos de traficantes brasileiros brigam pelo controle da distribuição. A prisão de Fernandinho Beira-Mar, que deixou o Rio para investir na fronteira mais promissora do tráfico, reabriu a disputa pelo poder na região. Concorrem ao posto de novo rei do Paraguai, além da família Morel, os traficantes Erineu Domingo Soligo, o Pingo, José Elias do Amaral, o Bagual, ex-distribuidor de Beira-Mar, e Jorge Rafaat Toumani, já conhecido do cartel colombiano. O traficante carioca agora está sendo ameaçado. Segundo fonte policial, sobreviventes da família Morel – como Israel e Lucila, presos respectivamente em penitenciárias em Dourados e Brasília – já deram ordem para executar Beira-Mar. É a vingança pelos assassinatos de João Morel e de seus filhos Cristobal e Mauro.

A Delegacia da Polícia Civil em Coronel Sapucaia, epicentro do tráfico, tem apenas três policiais e um escrivão. Criado pelo governo estadual para combater a criminalidade na fronteira, outro grupo, o Departamento de Operações de Fronteira (DOF), vive à míngua e tem parte das despesas pagas por um grupo de empresários e fazendeiros reunidos numa entidade privada, a Salve. Na Denarc, o grupo de elite da Polícia Civil no combate ao tráfico em Campo Grande, falta munição. Mesmo com apenas sete investigadores, a Denarc tem feito cada vez mais apreensões. Em 1995, foram encontrados 3,6 quilos de maconha. No ano passado, 13 toneladas. Tanta oferta faz surgir meninos como Jó.

Menino de rua em Campo Grande, ele bebe, fuma maconha compulsivamente e foi “promovido” a chefe da “boca” de fumo em seu bairro. Há alguns dias, o garoto de 15 anos, que tatuou uma suástica no braço direito “para parecer mau”, trombou com uma nova chance. Depois de fazer parte do exército mais numeroso e descartável do tráfico, a dos meninos-mulas, Jó conseguiu ser acolhido no Cerrad, uma das entidades que buscam recuperar menores viciados em Campo Grande. “É um erro achar que o tráfico é feito pelo menino da esquina. Eles são vítimas. Tráfico é feito por gente muito grande”, observa o procurador-chefe do Ministério Público em Mato Grosso do Sul, Blal Yassine Dalloul.

Ex-prefeito de Maracaju, Jair do Couto era um político em ascensão, chegando a presidir a associação dos municípios do Estado. Até que descobriram que tinha um negocinho com o Cartel de Cali: trazia cocaína. Outra figura respeitável, o major Sérgio Roberto de Carvalho, ex-comandante da PM em Amambai, cidade de 30 mil habitantes, tinha um futuro promissor no Estado até que o Ministério Público descobriu que chefiava uma quadrilha que trazia drogas da Bolívia. Jair e Carvalho, ambos presos, refletem a escalada do tráfico na hierarquia política e econômica do Estado, recordista em lavagem de dinheiro sujo. Um levantamento feito pelo juiz Odilon revelou que, entre 1992 e 1998, o narcotráfico lavou R$ 22,2 bilhões em uma única agência do BCN em Ponta Porã, em contas de “laranjas”. Foram abertos nos últimos meses 80 inquéritos de lavagem de dinheiro, investigando casas de câmbio, bingos e – modalidade típica de um Estado que abriga 24 milhões de cabeças de gado, o maior rebanho do País – o “vaca-papel”, a venda fictícia de vacas por falsos pecuaristas da fronteira. Loucuras de uma fronteira sem lei.

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