Brasil

De volta pra casa

Perto da cassação, ACM planeja renunciar, deixar o filho no Senado e retomar o governo da Bahia

Antônio Carlos Peixoto Magalhães, 73 anos, dos quais 50 na política, pode ser considerado um dos dois mais poderosos senadores da História da República. O outro foi o gaúcho Pinheiro Machado, que deu as cartas no Brasil do começo do século e só foi apeado do poder quando assassinado em 1915. ACM, que durante seis anos deu as cartas no governo Fernando Henrique, sai da vida pública pela porta dos fundos como mandante da violação do painel eletrônico na votação secreta em que o Senado cassou Luiz Estevão. Na quinta-feira 26, o Congresso parou para assistir a um irreconhecível ACM protagonizar um espetáculo patético: o lobo vestiu a pele de cordeiro e bajulou até os que o criticavam. Com enorme cinismo, ele mentiu. Tentou negar que ordenou a operação criminosa e jogou a culpa na ex-diretora do Serviço de Processamento de Dados (Prodasen) Regina Célia Borges e no seu parceiro, José Roberto Arruda, que perdeu a liderança do governo no Senado e acabou se desfiliando do PSDB. Ninguém acreditou em ACM. Naufragou junto com seu depoimento a manobra dos pefelistas para que o coronel baiano recebesse uma punição mais branda do que a cassação do mandato. Antônio Carlos e Arruda preparam agora um novo golpe. Para não serem cassados e perderem os direitos políticos, a dupla vai renunciar ao mandato. ACM está certo que a melhor saída no momento é a volta para casa, ou seja: lançar-se candidato ao Palácio de Ondina, onde ainda tem chances de manter-se no poder. No Senado, ACM continuará a fazer barulho através de seu suplente, o filho Antônio Carlos Magalhães Jr. Uma das provas de que a família continua com prestígio na Bahia foram as lágrimas de Dadá, a quituteira mais famosa de Salvador, em plena reunião do Conselho de Ética. Enquanto Dadá apoiava ACM, o artista goiano Siron Franco resolveu escandalizar. Levou uma instalação de dois metros e meio feita com serragem, representando fezes. A obra foi intitulada O que vi pela TV, uma tradução da sujeira no Congresso.

A jogada da renúncia foi acertada antes do depoimento de ACM e inclui o compromisso das cúpulas dos partidos governistas de interromper as investigações. No desespero por ter sido flagrado como parceiro de ACM, Arruda ameaçou renunciar, mas foi convencido pelo tucanato a adiar o anúncio para que deixe o Senado junto com Antônio Carlos. A cúpula do PFL também está discutindo com o coronel baiano o melhor momento para ele se afastar do cargo. A punição negociada inicialmente era a suspensão temporária de mandato. Chegou a ser conduzida pelo presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), que teve como interlocutores o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), e o presidente do PSDB, senador Teotônio Vilela Filho (AL). A reação da opinião pública pela cassação atropelou o entendimento. Bornhausen, então, transmitiu a ACM que ele não tem chances de sobreviver a uma votação em plenário. Com medo de perderem os direitos políticos por oito anos, ACM e Arruda estão arrumando as gavetas para deixar o Senado. O tucano, que sonhava em governar Brasília, deve se candidatar em 2002 a uma das oito vagas de deputado federal pelo Distrito Federal e Antônio Carlos volta à Bahia para tentar se eleger governador. A renúncia, no entanto, não afasta a inelegibilidade. Para alguns senadores, como o corregedor do Senado, Romeu Tuma (PFL-SP), o processo de cassação já começou.

As versões bem-comportadas do cacique baiano para a violação do painel começaram a ser derrubadas na segunda-feira 23, com a confissão pública feita por Arruda. Em um discurso choroso, ele confirmou da tribuna sua participação e entregou ACM. Um dia depois, um desesperado Antônio Carlos propôs o acerto com o Planalto e com o PMDB: o baiano prometia cessar os ataques a FHC e ao presidente do Senado, Jader Barbalho (PMDB-PA), em troca de pouca pressão dos tucanos e peemedebistas no interrogatório do Conselho de Ética. Enquanto Teotônio selava o acordo numa reunião na casa de ACM na noite de quarta-feira 25, o líder do PMDB na Câmara, deputado Geddel Vieira Lima (BA), transmitia o “de acordo” ao colega José Carlos Aleluia (PFL-BA), fiel pupilo de Antônio Carlos, em um restaurante de Brasília. Mesmo tendo sido poupado pelos governistas, Antônio Carlos se enrolou no depoimento. Além de não convencerem seus pares, ACM e Arruda foram flagrados por um detector de mentiras, da Truster Brasil, uma empresa sediada em Porto Alegre, conforme publicou o jornal Folha de S.Paulo. O programa de exame de frequência de voz atestou que o senador baiano, de fato, mentiu em vários momentos ao Conselho de Ética. Um deles foi quando disse não ter pedido a lista de votos que cassou Estevão. Arruda também não passou impune: mentiu, por exemplo, quando disse que estava só quando entregou a lista a ACM.

Nas seis horas em que esteve no Conselho de Ética, ACM admitiu que, na noite da cassação de Estevão, telefonou para Regina Borges. Disse que o propósito do telefonema de 34 segundos foi acalmar a ex-diretora do Prodasen. Causou espanto ao colegas. “Vossa Excelência diz que ainda foi tranquilizá-la? Quero dizer com franqueza que é difícil de acreditar”, disse o senador Saturnino Braga (PSB-RJ), relator do caso. Desacreditado, ACM tentou justificar por que – se não deu a ordem – nem sequer repreendeu Regina. “Tive preocupação com a saúde dela, porque ela havia sofrido várias cirurgias e estava em casa acamada”, alegou. A senadora Marina Silva (PT-AC) contestou: “Como ela estava acamada, se na véspera da votação participou de reuniões e da montagem da fraude no Prodasen?”

A justificativa mais surpreendente apresentada por ACM foi quando explicou por que manteve a fraude em sigilo: “Razões de Estado.” “Não quis macular a imagem do Senado”, alegou. Pedro Simon (PMDB-RS) não perdoou: “Maculados nós estamos hoje.” ACM, em novo estilo, pediu calma a Simon, que ironizou: “O senhor hoje está Toninho Tranquilidade.” ACM tentou enquanto pôde negar que sabia da violação do painel. “Mas tão logo foi oficializado o laudo da Unicamp, no dia 19 de abril, deixei de negar que soubesse da existência da lista”, repetiu diversas vezes durante o depoimento. Ao final do interrogatório, essa alegação também caiu por terra. O senador Antero de Barros (PSDB-MT) lembrou que, na tarde da segunda-feira 23, ACM declarou que não existia lista alguma. “É que eu ainda não sabia o que exatamente havia dito o senador Arruda”, entregou-se. Os senadores também ouviram espantados ACM dizer que só teria contado que Heloísa Helena (PT-AL) votou a favor de Estevão ao líder da oposição, José Eduardo Dutra (PT-SE), e aos procuradores Luiz Francisco de Souza, Guilherme Schelb e Eliana Torelly. Pura mentira. Vários parlamentares ouviram a mesma inconfidência de ACM. A senadora não deixou passar as contradições e exigiu de ACM a lista: “A minha história não merece ficar refém da sua memória”, pressionou.

A defesa de Antônio Carlos ficou ainda mais fraca na sexta-feira 27, quando Arruda depôs e relatou o diálogo que teve com ACM antes de convocar Regina Borges e transmitir a ordem para que ela extraísse a lista do painel. Na conversa, no gabinete de ACM, Arruda contou que havia um boato de que Estevão poderia ter acesso à relação com os votos. “Você, que é engenheiro, verifique isso com a Regina”, mandou ACM. “Posso falar em seu nome?”, perguntou Arruda. “Pode”, respondeu Antônio Carlos, que também mentiu ao senadores sobre essa conversa. Como o colega, Arruda montou suas versões instruído por advogados. Por isso, continua negando ter dado, em nome de ACM, a ordem para Regina violar o painel. A estratégia montada por advogados, e seguida pelos dois, é mostrar que a ex-diretora do Prodasen extraiu a lista por sua conta e risco. Em conversa com ISTOÉ na madrugada da sexta-feira, Arruda deixou escapulir uma nova versão para o diálogo que teve com Regina: “Se vocês ficarem sabendo (da lista) lá (no Prodasen), ele (ACM) também quer saber”, relatou Arruda. Horas depois, no depoimento, deu outra interpretação: era apenas para saber se o painel era violável. Os novos capítulos da novela, que estão dando grande audiência não só à TV Senado, já estão marcados. O presidente da Comissão, Ramez Tebet (PMDB-MS), confirmou para quinta-feira 3 acareação entre ACM, Arruda e Regina. “Todos que depuseram apresentaram versões diferentes”, afirma. Esse será o capítulo decisivo.

O mentiroso ACM

Semblante indiferente
 

Tom de voz monocórdio e calculado
 

Gestual firme e imperativo

Palavras de elogio aos colegas, para cativar
 

Olhar inquisidor e desqualificatório
 

Risos irônicos e até piscadelas para os advogados
 

Provocado, reage agressivamente, para intimidar

O mentiroso arruda

Expressão de medo
 

Álibis e declarações de amigos conseguidos de última hora

Gestos apressados e nervosos

Testa franzida, sinal de ansiedade

Voz embargada

Pupilas dilatadas e olhar desviado

Sobrancelhas arqueadas demonstrando conflito interno

Discurso frágil

Sudorese Boca seca

Poder hipnótico

Sara Duarte

Não se deve menosprezar o poder de dissimulação e a frieza do senador Antônio Carlos Magalhães. O longo depoimento dado à Comissão de Ética atesta: aos 73 anos, é um retórico manipulador. Na opinião de especialistas em psicologia social, ACM tem o que se chama de talento hipnótico, característica própria dos comunicadores.

Já no início de seu discurso, o cacique baiano usou o truque de fazer uma série de elogios a seus interlocutores. Ele sempre usa esse artifício para criar um clima de cumplicidade. Quem é bajulado acaba se sentindo constrangido e hesita na hora de arguir de forma agressiva. Quando o terreno está preparado, o senador parte para a desqualificação.

Auxiliado por dois advogados, que lhe dão toques na forma de bilhetes ou de rápidas trocas de olhar, ACM tentou confundir os inquisidores. Apontou incorreções em seus relatos, dizendo, por exemplo, que estavam mal informados. Ou então tirava do baú histórias escusas envolvendo nomes que “não posso revelar”. Diferentemente do comportamento inflamado nas sessões do Congresso, desta vez ACM vestiu a pele de cordeiro. Fez cara de paisagem, desviou a atenção do que realmente importava. “Ele é um político experiente e sabe que o que falar vai ter repercussão”, opina o psicólogo social Odair Furtado, da PUC. “Seu enfrentamento é calculado, cínico, a melhor forma de defesa de quem mente.”

Com o olhar firme e um sorriso irônico, o senador vai invertendo o discurso, deixando as perguntas sem resposta. Com isso, ninguém questionou se ele recebeu mesmo a lista. “ACM lança um olhar desqualificatório e vira a situação de tal forma que o público não sabe mais quem é que está sendo arguido”, atesta o terapeuta Eduardo Shinyashiki, criador do método Namaste de leitura corporal. “Sua expressão é de que está tudo dominado. É o show de um grande comunicador.”

Ao final do embate, ACM já estava na posição de observador. Impávido, lançou mão de falas irônicas, olhares arrogantes e pose de enfado. A sensação que se tem é a de que os senadores lutaram com o vácuo. Pedro Simon, referindo-se à fama de Toninho Malvadeza, traduz a estupefação geral: “Vossa Excelência está de Toninho Tranquilidade, é?”. Na face de ACM, a máscara de tranquilidade permanece intacta. “A imagem que ele quis e conseguiu passar é a de quem está de gaiato no navio”, resume Shinyashiki.

As mentiras de ACM
“Vou dizer aqui para vocês, Heloísa
Helena votou a favor do Luiz Estevão.
Votou a pedido do Renan Calheiros. Depois ela disse que não votou, xingou… Temos
a lista de todo mundo que votou a
favor e contra Luiz Estevão”
Na fita publicada por ISTOÉ
em 23 de fevereiro

 

“Não falei em lista”
8 de março

“Ninguém, ninguém mesmo, dirá que ouviu da minha boca, em qualquer oportunidade, o pedido para saber quem votou em quem”
17 de abril

“Eu garanto que não liguei para agradecer”
25 de abril

“A ligação (para Regina) durou 34
segundos. Eu disse: ‘A sra. tem serviços prestados ao Senado. Não fique nervosa, porque a sra. não tem culpa’”
26 de abril

“Não há telefonema para a dra. Regina”
18 de abril

“É uma montagem da pior categoria
(…) Não tem valor”
3 de março sobre a fita
publicada por ISTOÉ

“Se fosse possível violar o painel,
jamais seria na minha presidência”
5 de março

“Depois da votação, o Arruda me levou a lista… Tomei a decisão de destruir a lista depois que o Arruda saiu”
26 de abril

“Eu nunca neguei a lista… Falei em lista, era uma lista como outra qualquer. Como poderia saber ao certo?”
24 de abril