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Entrevista

Marconi Perillo

Hora de flexibilizar

Hora de flexibilizar

O Governador de Goiás Marconi Perillo defende a renegociação da dívida dos Estados e diz que o PSDB deve ocupar novos espaços políticos

Hélio Campos Mello e Ramiro Alves
Edição 21/04/2001 - nº 1647

Ele acaba de completar 38 anos, é casado, tem duas filhas e uma cara de bom moço. Na eleição de 1998, Marconi Perillo surpreendeu o País ao derrotar o senador Íris Rezende, poderoso cacique do PMDB, e ganhar a eleição para o governo de Goiás. Hoje, Perillo acha que o Estado está pronto para dar um salto qualitativo e diversificar sua economia. Além do agronegócio, o governador acredita que Goiás pode se destacar na indústria de medicamentos, na mineração, nos serviços e no turismo. Para tanto tem investido em educação e na distribuição de renda. Com posições políticas firmes, Perillo nem sempre lê pela cartilha do Palácio do Planalto. É, por exemplo, contra a privatização de Furnas. Cansado de pagar juros – nos últimos 27 meses foram R$ 748 milhões –, o governador quer abrir um debate sobre a renegociação das dívidas dos Estados. Quando o assunto é a sucessão de Fernando Henrique, no entanto, Perillo se veste de político mineiro e distribui elogios a todos os pré-candidatos do PSDB, embora seja mais generoso com o ministro da Saúde, José Serra. O governador acredita que chegou a hora de o PSDB se diferenciar dos outros partidos pela postura ética. Quando se pergunta quais são seus alvos, Perillo gosta de repetir uma frase: “O populismo e a demagogia foram os males políticos do Brasil no século passado.”

ISTOÉ

O presidente Fernando Henrique está incentivando o aparecimento de diversos candidatos dentro do PSDB. O sr. também quer disputar o Palácio do Planalto em 2002?

Marconi Perillo

Eu não diria que o presidente da República está estimulando pré-candidaturas pelo PSDB. O fato inegável é que o PSDB dispõe de nomes do mais alto valor, tanto moral quanto administrativo. Não me acho em condições de postular uma eleição como esta. A minha prioridade é administrar o Estado de Goiás, fazer as mudanças necessárias para modernizá-lo.

ISTOÉ

Mas o sr. pensa em ocupar um espaço na política nacional ou pretende ser candidato à reeleição em Goiás?

Marconi Perillo

Eu tenho interesse em estar cada vez mais inserido nas discussões das questões nacionais.

ISTOÉ

Entre os possíveis candidatos do PSDB em 2002 – os ministros José Serra, Paulo Renato e Pedro Malan e o governador Tasso Jereissatti –, tem algum que o sr. apóia?

Marconi Perillo

Felizmente, o PSDB possui pré-candidatos desse nível. O governador Tasso realiza uma gestão reconhecida por todos; o ministro Paulo Renato conseguiu mudar as estatísticas com relação ao ensino no Brasil; o ministro Malan, além de ajudar a conceber o Plano Real, manteve a política de estabilidade e sobreviveu a inúmeras crises internacionais; já o ministro José Serra é um líder nato, que tem sua origem no movimento estudantil. É um político denso, que realizou excelentes gestões, quer no Legislativo, quer no Executivo. Isso sem esquecer o governador Dante de Oliveira e o ministro Pimenta da Veiga.

ISTOÉ

O sr. não está muito mineiro nessa distribuição de elogios? Não existe um nome que tenha um perfil mais adequado?

Marconi Perillo

 É muito difícil fazer uma avaliação concreta agora. Eu imagino que nem os próprios pré-candidatos tenham interesse em precipitar o debate sucessório.

ISTOÉ

O sr. acha que o ministro Malan tem a preferência do presidente Fernando Henrique?

Marconi Perillo

 Eu acho que isso é uma boa cizânia da mídia, da imprensa. Eu citei o ministro Malan, que não é nem filiado ao PSDB, como um nome expressivo no governo.

ISTOÉ

O que o sr. está achando dessa troca de acusações entre lideranças do PMDB e do PFL?

Marconi Perillo

 Eu não quero enfiar a colher de pau em briga alheia. Lá em Goiás nós temos uma relação política com o PFL e temos uma rixa política com o PMDB. Agora, no plano nacional, ambos os partidos têm sido fundamentais para a aliança e a governabilidade, mas eu não quero tecer nenhum tipo de comentário sobre essa briga. Isso não diz respeito ao PSDB.

ISTOÉ

Como o sr. acompanha as denúncias contra o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) pela violação do painel de votação e o envolvimento do presidente do Senado, Jader Barbalho (PMDB-PA), em denúncias de corrupção na Sudam? O sr. acha que para o eleitor todo político é corrupto?

Marconi Perillo

 Esses episódios acabam por desgastar as instituições envolvidas, são nefastos para a vida política. As pessoas acabam jogando todos na vala comum. Mas eu sinto que há certa diferenciação por parte da população. Hoje há um senso mais crítico em relação às lideranças nacionais.

ISTOÉ

O sr. apoiaria uma CPI?

Marconi Perillo

 Fui deputado federal duas vezes. Acompanho há muitos anos a chamada farra das CPIs. O fato é que o País dispõe de mecanismos de investigação bastante fortes. O Ministério Público é muito atuante, o próprio Tribunal de Contas da União tem seu papel. Sempre que há uma falta de bandeira para um partido, é colocada a questão da CPI. Por outro lado, é bom lembrar que vimos várias CPIs célebres: a dos anões do Orçamento, do PC Farias, e, no entanto, ninguém mais ouve falar no que aconteceu com os envolvidos. Onde está o João Alves? Ele foi punido? Infelizmente, muitas vezes, a CPI acaba virando um palco de promoção política.

ISTOÉ

A sua tendência para 2002 é ser candidato à reeleição. Em Goiás, o sr. tem um bom relacionamento com o PT, que administra Goiânia, a capital. É possível uma aliança entre PSDB e PT no Estado ou o quadro nacional pode atrapalhar?

Marconi Perillo

 Reafirmo que não há uma decisão minha sobre 2002, pois considero que ainda está muito cedo. Temos um bom entendimento com o PT e com os outros partidos de esquerda. Há uma convergência de partidos porque estamos cumprindo os nossos compromissos com relação a um projeto de mudança de práticas políticas. Mas acho difícil uma aliança entre PSDB e PT por causa da conjuntura nacional.

ISTOÉ

Quem é seu candidato a presidente do PSDB?

Marconi Perillo

O ministro Pimenta da Veiga é o primeiro nome aventado. Não sendo ele, eu ficarei com o deputado José Aníbal, secretário de Ciência e Tecnologia de São Paulo. Precisamos de um presidente que tenha conteúdo, que entre na bola dividida, que seja competente e solidário ao partido em todas as situações.

ISTOÉ

O sr. disse que o PSDB é o partido da ética. A questão da corrupção não está cada vez mais identificada com o governo Fernando Henrique?

Marconi Perillo

 Eu não acho. Não existe nenhuma acusação contra ministros ou governadores do PSDB. O governo federal tem os seus mecanismos de avaliação interna com relação a todos os ministros. Tem as suas auditorias, criou a Corregedoria Geral da República, está criando um Código de Ética da Alta Administração Pública. Está investigando. Agora, eu defendo, e já defendi em conversas com o presidente, o afastamento de qualquer pessoa suspeita, até que a investigação se conclua.

ISTOÉ

As pesquisas apontam que há uma sensação de que a corrupção envolve o governo federal, embora sem a participação do presidente. Isso não se deve a certa lentidão no trato com as denúncias?

Marconi Perillo

Acho que há uma sinalização bem clara do governo federal, a partir da nomeação da corregedora Anadyr Rodrigues, que qualquer denúncia ou suspeita seja imediatamente apurada.

ISTOÉ

Com essa série de denúncias contra o PMDB e o PFL, o sr. ainda continua defendendo a manutenção de uma aliança ampla para a eleição de 2002 ou seria melhor para o PSDB ter uma chapa puro-sangue?

Marconi Perillo

 A razão de ser do PSDB é seu compromisso com a ética, com a mudança, com a inclusão social. A aliança foi, até agora, importante para o País. Eu a considero ainda importante para a conclusão da transição de um país eminentemente estatizante para um país que possa sobreviver num mundo competitivo, mas com toda uma preocupação com a distribuição de renda. O grande desafio do próximo candidato à Presidência da República, além da geração de empregos, vai ser a questão da distribuição de renda. A aliança ainda é necessária, mas precisa ser oxigenada por lideranças novas.

ISTOÉ

Qual é o seu futuro político?

Marconi Perillo

 O meu plano prioritário é concluir bem o mandato de governador.

ISTOÉ

Como o sr. avalia as candidaturas de Itamar Franco, Ciro Gomes e Lula?

Marconi Perillo

 Lula sempre foi forte, é uma candidatura aglutinadora de um segmento expressivo da sociedade. As outras candidaturas dependerão, certamente, das definições partidárias, das alianças políticas que serão feitas. Acho que o quadro partidário ainda está um pouco obscuro. Hoje, a candidatura mais visível e mais consolidada é a de Lula.

ISTOÉ

O que o sr. fez de mais positivo e o que ainda não foi possível fazer?

Marconi Perillo

 De positivo, uma expressiva desoneração tributária, que está dando condições de competitividade ao empresariado local. Também destacaria os 16 programas de inclusão social, que até julho atenderão 250 mil famílias. Temos feito um trabalho muito visível também na área de educação, criamos uma universidade do Estado, que está presente em 38 regiões de Goiás e oferece 28 mil vagas. De negativo, é a dor que sinto em ter que, todos os meses, repassar à União cerca R$ 40 milhões, ou seja, por volta de 19% de nossas receitas líquidas a título de pagamento das dívidas que outros fizeram. Para se ter uma idéia, só de juros nós pagamos nesses 27 meses de governo R$ 748 milhões. Isso seria suficiente para a construção de 250 mil casas populares ou 4 mil quilômetros de rodovias pavimentadas.

ISTOÉ

Não seria a hora de tentar uma renegociação?

Marconi Perillo

 Eu acho que sim e falo isso com a tranquilidade de quem sempre defendeu a política econômica do governo e todos os ajustes. O Brasil já pagou muito caro por essa política de ajuste fiscal e pelo cumprimento de todas as metas que foram estabelecidas pelo acordo com o FMI. Um preço altíssimo pelo que os outros governos fizeram ou deixaram de fazer. É bom que se diga isso. Eu acho que é hora de dar uma flexibilizada. Os Estados vivem sufocados. Pagamos cerca de 19% ao mês da receita líquida. Não faço essa colocação em tom de crítica ou de desafio, mas como uma constatação. Goiás é o Estado do Brasil mais endividado proporcionalmente. São quase R$ 10 bilhões.

ISTOÉ

O sr. derrotou o senador Íris Rezende, um dos grandes caciques da política brasileira. Como está a situação do PMDB em Goiás?

Marconi Perillo

 O que se nota em Goiás é que o senador Íris não é mais o líder do PMDB local. O senador Maguito Vilela é quem tem a hegemonia do partido no Estado. Acho que eles estão juntos ainda por uma questão de sobrevivência.

ISTOÉ

Mas o PMDB ainda é o seu principal adversário?

Marconi Perillo

 Um adversário irracional. Na verdade, todas as mazelas ocorridas no Estado nos últimos anos, sobretudo no que diz respeito à dívida e às denúncias de corrupção, foram praticadas nesses governos.

ISTOÉ

Goiás é um Estado agrícola onde não há notícias de conflitos de terra, onde o MST faz pouco barulho. Qual é o segredo?

Marconi Perillo

 O segredo é o diálogo. Sempre que há um impasse, procuramos envolver a CPT, o MST, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura, a Federação da Agricultura, órgãos do governo, Igreja, Ministério Público, a OAB. Até hoje a polícia nunca despejou assentados ou invasores. Buscamos sempre o diálogo quando existe um mandado judicial de desocupação. Estamos atacando o problema da distribuição de terras com a criação das agrovilas, as vilas rurais.

ISTOÉ

Economicamente, Goiás ainda depende muito da agricultura?

Marconi Perillo

Eu diria que 60% da economia goiana está diretamente ligada ao agrobusiness, ao agronegócio, mas isso não quer dizer que seja um Estado agrícola. Estamos trabalhando na agroindustrialização do Estado. É possível que, nos próximos anos, Goiás assuma a primeira posição no País na indústria do agroalimento. Além da pecuária e da agricultura, temos uma força muito grande em minérios e na indústria farmacêutica. Segundo indicadores que temos, Goiás deve ter a maior indústria de medicamentos da América do Sul nos próximos anos. E temos ainda o setor de serviços e um grande potencial turístico, principalmente o ecoturismo.

ISTOÉ

A novela Estrela-guia, que é gravada em Pirenópolis, já aumentou o número de turistas na cidade?

Marconi Perillo

 Tanto a novela quanto a homenagem da Caprichosos de Pilares, que teve Goiás como enredo do Carnaval deste ano, estão sendo fundamentais para a divulgação do Estado. A Rede Globo vai gravar cenas em outros locais, como Caldas Novas, Alto Paraíso, Goiânia, Anápolis, o que é muito importante para a apresentação qualitativa do Estado. 



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