Cultura

Inventor da esperança

Em Jakob, o mentiroso homem comum traz alento a gueto judeu

Ao longo de algumas intermináveis semanas, o pacato Jakob Heym, cidadão que poderia ter sido apenas mais um prisioneiro de um gueto judeu na Polônia, em plena Segunda Guerra, vive o dilema de ser herói por acaso ou um covarde manipulador da esperança alheia. Ele é o personagem principal do livro Jakob, o mentiroso (Companhia das Letras, 282 págs., R$ 28), escrito pelo polonês Jurek Becker em 1969, e agora relançado.

O perfil de Jakob, outrora dono de um obscuro boteco, não o recomendaria para maiores heroísmos. Como tantos outros, ele se restringe a tocar a vida nos estreitos limites impostos ao gueto pelos nazistas. Sua angustiante aventura começa numa noite, quando quase se atrasa para o toque de recolher e é enviado por um sentinela para o quartel-general. Lá, é dispensado por ainda estar no horário, mas ouve de passagem um pequeno fragmento de noticiário, que fala no avanço das tropas russas contra as alemãs. Quer repassar a notícia – uma chama de esperança em meio às trevas do cotidiano – a seus colegas de infortúnio. Mas, se disser que esteve e saiu ileso do QG, poderá ser tachado de colaboracionista. Para contornar o problema, inventa ter escutado as novas em uma rádio clandestina. E é aí que começa a história de Jakob, uma das mais belas já escritas sobre o drama do Holocausto.

Ao confessar a novidade, primeiro a um conhecido mais próximo e, aos poucos, a um número cada vez maior de pessoas, Jakob renova as esperanças de futuro dos que até então se sentiam à espera de uma morte inevitável, quando muito adiável. Sua angústia, entretanto, cresce na proporção da ansiedade que desperta nos seus colegas. Para piorar a situação, Jakob é uma mente simplória, nem de longe dotado de uma imaginação fértil que permita criar na velocidade que seus ouvintes gostariam de ser iludidos. E é por este terreno movediço que ele se movimenta ao longo de todo o livro, criando uma atmosfera densa em torno de si. O final é o óbvio, mas o narrador dá ao leitor o consolo irônico de escolher entre duas alternativas. Na verdade, nem de alternativas se trata, mas do nefasto jogo de vida e morte que, por alguns momentos, pode ser esquecido entre as cercas de um triste gueto.

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