Cultura

A grande aventura sensorial

Considerada pelo Museu de Arte Moderna (MoMA), de Nova York, como "uma das mais fascinantes e complexas meditações sobre o corpo em todo o século 20", a obra revolucionária de Lygia Clark ganha sua maior retrospectiva já realizada nos EUA

A grande aventura sensorial

Quando se mudou para Paris, em 1970, para dar aulas na Sorbonne, Lygia Clark tinha a sua série de esculturas “Bichos” reconhecida por publicações internacionais como um dos marcos da arte cinética. Com essas primeiras obras interativas – formas vertebradas e manipuláveis pelo espectador –, Lygia poderia perfeitamente ter se acomodado à posição de expoente brasileira de um movimento internacional que rompeu com a condição estática da pintura. Impossível. Naquele momento, ela já havia dado um passo irreversível no sentido de desintegrar o objeto da arte, criando para a Bienal de Veneza de 1968 a instalação “A Casa É o Corpo: Penetração, Ovulação, Germinação, Expulsão”, que simula o aparelho reprodutor feminino e permite ao público uma experiência imersiva ao percorrer seu interior. A obra está exposta em “Lygia Clark: The Abandonment of Art, 1948-1988”, no Museu de Arte Moderna (MoMA), de Nova York, a mais abrangente exposição dedicada à artista brasileira realizada nos EUA.

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CONTATO INTERIOR
Lygia Clark usa "Máscara Abismo com Tapa-Olhos" (1968), um dos
trabalhos com os quais a artista substitui a experiência
estética pela sensorial, incentivando o uso do tato

A retrospectiva reúne cerca de 300 trabalhos produzidos desde o fim dos anos 1940 até o começo da década de 1980 e divide-se em três fases: abstracionismo, neoconcretismo e o “abandono da arte” em prol de um trabalho radical de experimentação sensorial, de cunho terapêutico. A exposição é uma importante ocasião para entender de que modo a semente da poderosa arte relacional e sensorial de Lygia Clark já estava germinada nas criações primárias da artista.

Em sua inquietação em relação ao plano bidimensional – sentimento que dividia com os artistas do grupo neoconcreto, como Hélio Oiticica e Ferreira Gullar, e expressava nas séries “Descoberta da Linha Orgânica” (1954), “Quebra da Moldura”(1954) e “Bichos” –, já estava implícita a pesquisa sensorial que aprofundaria em Paris. Quando ainda pintava, Clark afirmava que sua investigação pictórica não era óptica, “mas visceralmente ligada com a experiência do sentir”. Sobre os “Bichos”, dizia que tinham “vida própria” e continham um movimento em si mesmos, independentemente de serem manipulados pelo toque.

Depois de incentivar o espectador a tocar as superfícies metálicas dos Bichos, ela o incitaria a provar muitas outras matérias e volumes – que nos anos 1970 ganhariam o nome de “objetos relacionais”. A grande aventura sensorial proposta por Lygia Clark começou com “Livro Obra/ Livro Sensorial” (1964), que não tinha textos, mas uma coleção de volumes, como conchas, novelos de lã e pedras, guardadas em páginas de plástico, para serem experimentados pelo toque, como em um livro em braile.

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Em 1966, a pedra adquiriu importância fundamental. Quando Lygia já havia abandonado o que definia por “cogitações estéticas” e se entregado a pesquisas de outra natureza, uma experiência com uma pedra e um saco plástico levou-a ao seu primeiro trabalho em torno do corpo – “Nostalgia do Corpo: Respire Comigo” (1966). O trabalho consiste em um saco plástico vedado por um elástico, inflado de ar, com uma pequena pedra que ganha movimento quando o saco é apertado pelas palmas das mãos dos participantes, em uma experiência comparável ao movimento toráxico da respiração. A obra inspirou a canção “If You Hold a Stone” (1971), de Caetano Veloso, e agora inspira o texto do curador Luis Pérez-Oramas, publicado no catálogo.

A pedra fundamental de Lygia Clark é uma obra precursora de uma nova consciência do corpo, emergente nos anos 1960, definida pela curadora Cornelia Butler como “uma das mais fascinantes e complexas meditações sobre o corpo e sua presença no mundo, em todo o século 20, que ressoa muito além do contexto nacional”. Agora revista e legitimada pelo MoMA, ganha visibilidade inédita, atingindo milhares de pessoas. Contudo, Pérez-Oramas, curador de arte latino-americana Estrellita Brodsky no MoMA, prefere o termo “revelação” a “descoberta” (leia entrevista).

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Revelada, descoberta, revista ou experimentada, Lygia Clark estimula dezenas de eventos relacionados. Dentro do MoMa, a mostra “On the Edge: Brazilian Film Experiments of the 1960’s and Early 1970’s” apresenta filmes do cinema marginal. Pérez-Oramas participou de debate promovido pelo Projeto Latitude, do Brasil, em evento que lançou a publicação “Plataforma”, editada pela revista “seLecT”. Na cidade, mais de 20 artistas contemporâneos, entre eles Tunga, Lenora de Barros, Raul Mourão, Carlito Carvalhosa e Caio Reisewitz, expõem atualmente em coletivas, individuais, instituições e galerias, instaurando uma primavera brasileira em Nova York.

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Fotos: Eurides Lula Rodrigues Cardoso/Cortesia Associação Cultural “O Mundo de Lygia Clark”/Rio de Janeiro; Scott Rudd/Cortesia MoMA 

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