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Entrevista

Walmir Coutinho

“Podemos nos tornar a nação mais obesa do mundo”

“Podemos nos tornar a nação mais obesa do mundo”

No momento em que o Ministério da Saúde divulga que a obesidade se estabilizou no Brasil, o presidente da Federação Mundial de Obesidade diz que, se nada for feito, em 15 anos o Brasil terá a maior população com excesso de peso do planeta

por Wilson Aquino
Edição 07/05/2014 - nº 2319

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AMEAÇA
Para o médico, o desafio de combater a obesidade exige
esforços como os realizados contra o aquecimento global

O endocrinologista carioca Walmir Coutinho, 55 anos, acaba de assumir a presidência da Federação Mundial de Obesidade, instituição que congrega 30 mil especialistas, de 53 países, empenhados no combate à obesidade, doença tratada como epidemia pela comunidade científica. Ele fica no cargo até 2016. Na semana passada, Coutinho dedicou atenção à análise de dois novos dados divulgados a respeito da evolução e da consequência da obesidade no Brasil. Na segunda-feira 28, uma pesquisa feita pelo Estadão Dados com base em informações do Datasus (sistema de registro de informações oriundas do Sistema Único de Saúde, o SUS) revelou que o número de mortes em razão do excesso de peso triplicou no País entre 2001 e 2011. Na quarta-feira 30, o Ministério da Saúde apresentou os resultados de um levantamento mostrando que, pela primeira vez em oito anos, o percentual de excesso de peso e de obesidade no País se manteve estável. De acordo com o governo, 50,8% dos brasileiros estão acima do peso, sendo 17,5% deles obesos.

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"É preciso que se dê acesso aos medicamentos também.
Temos dois aprovados aqui. O SUS poderia disponibilizá-los"

 

Para Coutinho, os dados dão uma dimensão do problema. O primeiro, sobre a mortalidade, está inclusive subdimensionado. E o segundo, embora positivo, esconde algo sério: o crescimento da epidemia entre os mais pobres. Por isso, na opinião do endocrinologista, o desafio contra a obesidade é tão grande que exige o envolvimento de governos e sociedade. “De que adianta informar uma pessoa de renda mais baixa da necessidade de comer mais frutas, verduras e legumes se isso não cabe no orçamento dela?, questiona. Ele defende a criação de impostos sobre as comidas gordurosas e que o dinheiro seja usado para subsidiar os alimentos saudáveis, iniciativa adotada recentemente no México. “Se nada for feito, podemos nos tornar a nação mais obesa do mundo”, afirma. 

 

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"A maioria das dietas, como a das proteínas, não funciona.
Esse tipo de estratégia leva o indivíduo a ganhar mais peso"

ISTOÉ

Como analisa o fato de o número de óbitos relacionados à obesidade ter triplicado em dez anos no Brasil, saltando de 808 em 2001 para 2.390 em 2011?

 
Walmir Coutinho

Infelizmente, esses dados são subdimensionados, já que o levantamento toma por base as causas de morte registradas em atestados de óbito. Mas, quando chega a aparecer obesidade como causa da morte, é porque o caso era muito grave, saltava muito aos olhos. Ninguém morre de obesidade. Morre-se porque a obesidade levou a diabetes, ao infarto, ao acidente vascular cerebral, etc. Ela está associada inclusive a doenças como o câncer de mama. Há uma estimativa nos EUA de ocorrência de 300 mil mortes por ano em consequência do excesso de peso. Em uma comparação para a América Latina, chegou-se a 200 mil mortes anualmente, sendo cerca de 80 mil óbitos no Brasil.

 
ISTOÉ

Deve-se esperar um futuro melhor, a contar pela pesquisa do Ministério da Saúde garantindo que houve estabilização no número de casos de obesidade no Brasil? 

 
Walmir Coutinho

É algo a ser comemorado, até mesmo porque a obesidade cresce mais no mundo em desenvolvimento. O México acabou de ultrapassar os EUA em prevalência. Nos EUA e na Europa começa a haver estabilização. O maior desafio é que, quando você olha para países como Brasil, México, Peru e Chile, vê que a população que mais engorda é a de renda mais baixa, porque está mais desprotegida, sem muito acesso aos alimentos saudáveis. A pesquisa tem um lado bom porque vem acompanhada de indicadores de melhora de comportamento do brasileiro, como aumento de consumo de alimentos saudáveis e de atividades físicas.

 
ISTOÉ

Por que o mais pobre tem mais risco de ficar obeso?

 
Walmir Coutinho

É muito mais caro sair do mercado com uma bolsa cheia de frutas do que lotada de biscoitos recheados e de batata frita, refrigerantes. Além de ter pouco acesso à alimentação mais saudável, a população de baixa renda tem menos tempo de lazer e menos chances de fazer atividades físicas. 

 
ISTOÉ

Como mudar esse quadro?

 
Walmir Coutinho

A educação é muito importante, mas há muito tempo percebemos que ela sozinha não levará à mudança de comportamento. De que adianta informar uma pessoa mais pobre da necessidade de comer mais frutas, verduras e legumes se isso não cabe no orçamento dela? Ela compra o que consegue pagar. Deve-se oferecer educação e os meios para que a pessoa mude seu comportamento.

ISTOÉ

De que forma?

 
Walmir Coutinho

Aumentar imposto de alimentos é uma coisa que provavelmente funciona. No México acabou de ser criado um imposto novo para taxar os alimentos que mais engordam, como doces e refrigerantes.  A ideia é que se criem taxas desse tipo não para gerar mais receita para o governo, mas para que com a arrecadação possa subsidiar os alimentos mais saudáveis.

 
ISTOÉ

O governo brasileiro aumentou a taxa sobre bebidas, como refrigerantes.

 
Walmir Coutinho

E vai passar a arrecadar cerca de R$ 1 bilhão a mais com isso. Mas para onde vai esse dinheiro novo? Por que não usá-lo para subsidiar os alimentos mais saudáveis? 

 
ISTOÉ

Quais as outras deficiências no combate a obesidade no Brasil?

 
Walmir Coutinho

Uma das fragilidades é o direcionamento do transporte para o automóvel. Isso é péssimo. Na hora em que o governo reduz imposto para compra de automóvel, gera impacto negativo na saúde, uma vez que incentiva o sedentarismo.

 
ISTOÉ

E com relação aos tratamentos disponíveis no Brasil?

 
Walmir Coutinho

Há uma série de incoerências. Por exemplo, o Sistema Único de Saúde oferece cirurgia bariátrica (procedimento de redução de estômago). Isso é bom porque tem obeso grave que só conseguirá sucesso se for operado. Mas não fornece nenhum remédio para ajudar a pessoa a emagrecer. Não faz sentido. Se há o entendimento de que a obesidade é um problema de saúde, por que o SUS dá assistência somente quando o indivíduo está gravíssimo e precisa de cirurgia? É preciso que se dê acesso aos medicamentos também. Temos dois remédios aprovados aqui e já há genéricos deles. São opções baratas que o SUS  poderia disponibilizar.

 
ISTOÉ

O México levou cerca de 20 anos para tomar dos EUA o título de nação mais obesa do mundo. O Brasil caminha na mesma direção?

Walmir Coutinho

Acho que estamos no caminho para que o Brasil seja o recordista. Poucas ações efetivas estão sendo tomadas. Se continuarmos nesse ritmo e nada for feito, podemos nos tornar a nação mais obesa do mundo. Em 15 anos devemos ser o país com maior prevalência de obesidade.

 
ISTOÉ

Não há uma banalização da cirurgia bariátrica no Brasil?

 
Walmir Coutinho

Não vejo isso, uma vez que há mais obesos graves do que o número de cirurgias que têm sido feitas (são 60 mil por ano no Brasil). O que preocupa é que existe uma superoferta dessa operação para quem pode pagar, seja por plano de saúde ou particular.Pelo SUS a dificuldade é muito maior. Os obesos muito graves têm mais risco de morrer na fila de espera. 

 
ISTOÉ

Mas há  médicos que  orientam o paciente a engordar para atingir um nível tal que possa ser submetido à cirurgia. 

 
Walmir Coutinho

Isso é um absurdo. Hoje o que mais se discute na comunidade científica é a questão de usar somente o peso como critério para a bariátrica. Não se consegue prever quem vai se beneficiar mais olhando apenas o Índice de Massa Corporal (IMC). É preciso olhar principalmente o impacto que o excesso de peso tem na saúde daquela pessoa. Por exemplo, paciente com 40 de IMC e diabético tipo 2 provavelmente vai se beneficiar mais do procedimento do que aquele com IMC 45 e que não tem diabetes. Daí o absurdo de alguém engordar mais só para atingir o critério de IMC suficiente para ser submetido à cirurgia (acima de 40).

 
ISTOÉ

O que é preciso fazer para que os obesos parem de sofrer preconceito por parte dos médicos, como pesquisas já atestaram?

 
Walmir Coutinho

Isso acontece até dentro da minha especialidade, a endocrinologia. Eu via, com muita frequência, há 20 ou 30 anos, endocrinologistas dizerem: “Eu não gosto de tratar obeso, não gosto de obeso.” Mas o preconceito, que está diminuindo, é da sociedade como um todo, não apenas dos médicos. Em grande parte ele vem da visão de que o obeso não é um doente. É uma pessoa com falha de caráter, que não tem força de vontade, não tem vergonha na cara e por isso não consegue fechar a boca e emagrecer. 

 
ISTOÉ

Qual é o peso da genética na obesidade?

 
Walmir Coutinho

Na média da população, 70% da causalidade vem de fatores ambientais e 30%, genéticos. Nossos genes são iguais aos das pessoas que viveram no início do século XX, quando a obesidade era rara. A epidemia de obesidade está exclusivamente ligada a fatores ambientais.

 
ISTOÉ

É possível dizer se há algum benefício em seguir dietas como a do carboidrato ou a da proteína?

 
Walmir Coutinho

A maioria não funciona. E fórmulas mirabolantes para emagrecer muitas vezes contêm substâncias perigosas, colocando mais em risco a saúde da pessoa do que a própria obesidade. Além disso, esse tipo de estratégia leva o indivíduo a ganhar cada vez mais peso. Quem emagrece de forma errada vai ter mais tendência a engordar depois que terminar o regime.

 
ISTOÉ

Por quê?

 
Walmir Coutinho

Porque o emagrecimento rápido sem exercícios físicos leva à perda de músculos também. E, perdendo músculos, o indivíduo terá diminuição do metabolismo basal. Consequentemente, terá uma tendência maior a engordar. É o efeito rebote ou ioiô. 

 
ISTOÉ

Qual é o desafio que a epidemia de obesidade impõe à humanidade de uma maneira geral?

 
Walmir Coutinho

Podemos comparar com o desafio enfrentado hoje para controlar o aquecimento global. O problema chegou a um ponto tal que só será possível resolvê-lo com o envolvimento da sociedade como um todo, incluindo aí os governos de cada país e a comunidade científica. 

 

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