Tecnologia & Meio ambiente

Mais uma peça no quebra-cabeça da origem da vida

Cientistas recriam em laboratório processo que pode ter sido a faísca para o surgimento da vida na Terra

Mais uma peça no quebra-cabeça da origem da vida

O mundo científico ainda não tem a resposta definitiva para uma das perguntas mais importantes da humanidade: como a vida surgiu e, mais tarde, quais caminhos tomou para evoluir na Terra. Na última semana, porém, um grupo de cientistas da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, deu mais um passo para decifrar a origem de tudo que é vivo. Liderado pelo doutor Mark­us Ralser, o estudo apontou que o processo metabólico, uma sequência de reações que possibilita a sobrevivência de qualquer ser vivo conhecido, pode ter ocorrido espontaneamente fora das células, antes mesmo do surgimento da vida propriamente dita.

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O grupo liderado pelo doutor Markus Ralser, de Cambridge,
estuda há uma década os mecanismos que
permitiram o surgimento da vida na Terra

Após reproduzir o ambiente aquático de cerca de 3,8 bilhões de anos atrás – um oceano primordial composto por água, ferro, fosfato e outros metais –, o grupo adicionou moléculas, como o açúcar-fosfato, e aqueceu a mistura, a fim de simular a presença de uma fonte hidrotermal (ver quadro). O resultado foi o surgimento de uma sequência de 29 reações espontâneas até então registradas apenas em seres vivos. Entre elas a produção de ribose-5-fosfato, molécula considerada precursora do RNA, que, como o nosso DNA, é capaz de carregar informação genética e se replicar. O fenômeno, ocorrido em condições tão simples, oferece novas ideias sobre como a primeira vida foi formada.

“Foi uma grande surpresa, nós não esperávamos essas reações”, disse o doutor Ralser à Isto­É. “Diziam que esses processos eram tão complexos que não poderiam ser desencadeados pelo ambiente químico sozinho.” Para o cientista, o experimento mostra um cenário de como o metabolismo poderia ter começado no processo de evolução. A experiência sugere que muitas dessas reações podem ter ocorrido espontaneamente na Terra, no oceano primordial, catalisadas pelos íons metálicos, e não por enzimas, como ocorre atualmente.

O pesquisador explica que há quase dez anos o seu grupo vem desenvolvendo os métodos que possibilitaram medir esse tipo de metabolismo em laboratório. “Até então, nós só havíamos empregado os métodos para estudar o metabolismo em leveduras e células humanas”, conta Ralser. “A aplicação para estudar o processo de metabolismo dentro da evolução começou há apenas dois anos.”

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A experiência de Ralser reforça ainda o papel essencial da água na origem da vida. É por isso que boa parte dos estudos do espaço atualmente busca encontrar água líquida, ou vestígios dela, em outros planetas ou satélites, já que ela seria um elemento básico para todas as formas de vida conhecidas.

A próxima etapa da pesquisa, segundo Ralser, será focada em estudar vias metabólicas adicionais, para então reconstruir cenários em que as primeiras enzimas poderiam ter evoluído.