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Os últimos dias de Getúlio

Filme protagonizado por Tony Ramos faz um retrato intimista do político, mostrando um homem traído, depressivo e sentimental, que escondeu seus medos até o fim

Os últimos dias de Getúlio

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Tony Ramos queria recusar, mas João Jardim insistiu. “Não me achava apropriado, nem pronto, nem parecido com Getúlio Vargas”, diz o ator, que depois da insistência do diretor aceitou o papel principal do longametragem sobre os últimos 19 dias da vida do ex-presidente, seu primeiro personagem histórico no cinema e hoje tem certeza, um dos mais importantes da sua carreira. “Getúlio” começa com o aviso de que se trata de uma ficção “inspirada” em fatos históricos.

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Tony Ramos passou por duas horas e meia diárias de preparação
da roupa e da maquiagem para ficar parecido com o ex-presidente

Mas os fatos históricos que marcam os dias (e noites) entre o atentado contra o jornalista Carlos Lacerda (vivido por Alexandre Borges) e o suicídio do presidente em seu primeiro mandato democrático são contados rigorosamente como ocorreram – ou como narram os jornais da época e os principais documentos produzidos a respeito. A liberdade tomada pelo diretor (e desenvolvida pelos atores) ficou a cargo das personalidades e do estado de espírito dos integrantes da família Vargas, de amigos e políticos próximos e, sobretudo, do ex-ditador. “Tinha receio de se tratar de um perfil ‘chapa branca’, afinal é um ditador que rasgou duas constituições”, diz Tony Ramos. O ator passou por sessões de maquiagem e preparação de mais de duas horas diárias durante quase dois meses para realizar o trabalho de incorporar o governante, até o ponto de ele próprio ficar impressionado com a semelhança. “Mas o roteiro, que me apaixonou, fala do avô, do pai, do marido distante. O homem contraditório, que se sentiu traído por seus próximos e calculou, não sem dor e angústia, uma saída digna para os seus parâmetros”, continua o ator.

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Tirando partido da arquitetura do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, João Jardim criou um thriller psicológico, marcado por um ritmo de suspense. Quase todo filmado dentro do edifício, antiga sede do governo e residência presidencial –, o cenário real serve de tabuleiro para a partida de xadrez mental, o raciocínio que teria levado o governante gaúcho a dar cabo da própria vida com um tiro no peito, redefinindo a história do País. “Os jornais diários da época foram fundamentais para entender a surpresa diária que era o acompanhamento do caso da rua Tonelero”, diz João Jardim, referindo-se à tentativa de assassinato de Lacerda, num complô que teria levado à iminência de um golpe militar. “Mas as cartas de Alzira Vargas, o depoimento de Tancredo Neves (interpretado por Michel Bercovith) e os livros do jornalista Lira Neto nos municiaram sobre a relação entre eles, que interessava mais do que tentar encontrar uma versão para o caso ou uma razão clara para a decisão pela morte”, conta o diretor. Tony Ramos diz que um dos desafios da cena do suicídio foi filmar no quarto, na cama, portando a mesma arma usada de fato por Vargas para o tiro fatal que comoveu o País em 24 de agosto de 1954. Naquele dia, Tony Ramos, com então 5 anos, esperava o bolo do aniversário sair do forno quando a avó gritou da cozinha: “Minha Nossa Senhora, morreu o dr. Getúlio”. O filme termina com cenas reais do cortejo do corpo carregado pela multidão comovida com o suicídio do caudilho que queria entrar para a história como o Pai dos Pobres.
E, pelo visto, conseguiu.

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Fotos: Bruno Veiga; Ana Stewart; Jean Manzon

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