Ediçao Da Semana

Nº 2741 - 05/08/22 Leia mais

Para quem só consegue imaginar santidades em túnicas antigas, é difícil conceber que alguém com um perfil ambientado à sociedade moderna, como o do padre Mariano de La Mata Aparício (1905-1983), possa ser candidato a santo. Mas ele é. Batina preta e boina espanhola na cabeça, durante 25 anos ele andou pelas ruas de São Paulo para cumprir seus afazeres como representante da Ordem Agostiniana. Mas também era comum vê-lo pegar seu Fusca azul para visitar as Oficinas de Caridade de Santa Rita de Cássia, entidade que até hoje confecciona roupas e enxovais para os mais pobres. Costumava, numa única jornada, percorrer quatro oficinas, sempre disposto a puxar conversa com as costureiras e elogiar-lhes o trabalho. Em geral, contavam-se 80 senhoras em cada uma das casas, todas esperando para ouvir as palavras amáveis do religioso. Dar atenção às pessoas era uma de suas marcas. Quando a estação Vergueiro do metrô paulistano estava em obras, diversas vezes ele se dirigiu até lá para prosear com os operários na hora do almoço. Levava comida e otimismo.

Os católicos do País querem ver este homem transformado em santo. No domingo 5, um passo importante foi dado neste sentido. Em celebração comandada pelo cardeal português José Saraiva Martins, prefeito da Congregação das Causas dos Santos e representante do papa Bento XVI, padre Mariano foi beatificado, uma condição que precede a da santificação. Nascido na cidade espanhola de Palencia, ele é o quarto beato do Brasil, juntando-se aos padres Anchieta (1534-1597) e Eustáquio (1890-1943) e ao frei Galvão (1739-1822).

De acordo com as normas da Igreja Católica, para ser declarado beato é preciso que o pretendente tenha sido intercessor de um milagre. Foi exatamente o que aconteceu com o padre Mariano. Em 1996, João Paulo Polotto, então com cinco anos, foi atropelado por um caminhão. Ele acompanhava a mãe e o irmão mais velho numa excursão do Colégio São José, de São José do Rio Preto, no interior paulista, à estância de Barra Bonita (SP). Eram 9h30 quando um estudante gritou que um barco chegava à beira do rio Tietê, que banha a cidade. João Paulo correu para ver a embarcação e atravessou a rua sem prestar atenção. Atingido violentamente pelo caminhão, ele sofreu grave traumatismo craniano, entrando em coma. Enquanto era levado a um hospital, a direção do colégio organizou preces, pedindo auxílio do padre Mariano, fundador e mentor espiritual da escola durante anos. Dez dias após o acidente, João Paulo andava de patins por sua casa, sem seqüelas. “Não conhecia direito a história do beato. Agora, se a gente precisar, vai invocar o nome dele”, diz o rapaz, atualmente com 16 anos.

O milagre foi reconhecido pelo Vaticano. Por esse motivo, hoje o padre Mariano, como beato, pode ser invocado e venerado nos locais em que atuou. No caso do religioso, esses lugares são a cidade de São José do Rio Preto, onde morou por 24 anos, e a capital paulista. Se for declarado santo, o culto poderá ser feito em qualquer lugar do mundo. Foram nove anos para que padre Mariano se transformasse em beato. O período pode ser considerado breve. Em geral, o processo de canonização é demorado porque a vida do candidato a santo precisa ser profundamente investigada. Em latim, canonizar significa entrar para uma lista. Para isso, é preciso cumprir critérios norteados por dois princípios fundamentais: o candidato tem de ser modelo de virtude, amor e justiça e deve ter sido intercessor de milagres. Para ser santo, são necessários no mínimo dois.

Mariano foi o caçula dos oito filhos do casal Manuel e Martina. Como seus três irmãos, ele seguiu o sacerdócio, ordenando-se em 1930. No ano seguinte, aos 25 anos, Mariano veio para o Brasil. Ao chegar, encantou-se com a exuberância da vegetação. O padre gostava imensamente de plantas e flores e decidiu estudar aqui ciências naturais. Empenhou-se em ensinar a preservação da natureza. Por diversas vezes, quando saía para passear no campo, retornava com uma flor na mão. Mas inteira, com raiz e tudo. Sua preocupação era transportá-la para outro lugar, onde pudesse viver.

Não foi um caminho simples até que padre Mariano se tornasse beato. Mas houve uma grande torcida por isso. O religioso ficou famoso pela extrema bondade e pelo amor aos pobres, às crianças, aos enfermos e à natureza. Demonstrações de raiva não são conhecidas. Como professor jamais castigou um aluno. “Não me lembro de um dia ter escutado o tio contando piadas, mas ele sempre me fez rir”, comenta o padre espanhol Santos Martin de La Mata, sobrinho do beato. Outro de seus admiradores é dom Paulo Evaristo Arns, cardeal emérito de São Paulo. Foi ele que recebeu o pedido de canonização, em 1997. O vice-postulador da proposta, frei Miguel Lucas, recorda-se que dom Paulo perguntou se Mariano era aquele que se dedicava tanto às Oficinas de Caridade de Santa Rita. “Confirmei e ele respondeu ‘este homem merece ser santo. Este sim’ e abriu logo o processo”, conta frei Miguel, que conviveu com o beato por 12 anos. Se tudo der certo, o padre será São Mariano.