Cultura

A disputa dos talk shows

Danilo Gentili e Rafinha Bastos brigam na madrugada pelo Ibope com o veterano Jô Soares. A dupla acredita que há lugar no sofá para os três - e a rivalidade começa a apertar

A disputa dos talk shows

DE TERNO E COLETE

No Brasil, talk show sempre foi sinônimo de Jô Soares – pelo menos na modalidade “late night”, tarde da noite. Só na Rede Globo, Jô está há 14 anos no ar e se tornou visita obrigatória de quem é notícia no País. Ao voltar de três meses de férias, contudo, o Gordo foi surpreendido com dois concorrentes – leves, mas de humor heavy metal: Rafinha Bastos, que comanda na Band o “Agora É Tarde”, e Danilo Gentili, à frente do “The Noite”, no SBT. Até aí, nada de mais; existem programas de domingo em todas as emissoras, atrações femininas na maioria delas e novelas em igual proporção. A chegada de jovens apresentadores, dessa forma, só faria bem ao mercado, levando, de quebra, a uma renovação do gênero. O que descortina um cenário inédito na tevê brasileira, no entanto, é que Rafinha e Gentili, saídos da onda stand-up, surpreendem com gás e ideias próprias. Gentili, em particular, vem deixando a Globo levemente mal-humorada. Por duas vezes, o ex-CQC roubou a liderança no Ibope do “Programa do Jô” (teve média de 6 pontos contra 2 na terça-feira 25) e, pela desenvoltura demonstrada em quase um mês no ar, promete incomodar ainda mais.

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DE TERNO E COLETE
Danilo Gentili, no "The Noite", do SBT (acima), e Rafinha Bastos em
"Agora É Tarde", da Band: trajes formais, irreverência domada
e aposta em inovações, de olho no público jovem

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Do seu lado, Rafinha, mesmo sendo lanterninha na disputa, não é carta fora do baralho. Afinal, mesmo dois ou três pontos nessa faixa de horário pesam no cômputo geral.

A reação já se faz notar. Segundo a assessoria de Jô Soares, sua atração vai investir em nomes internacionais, terreno que domina como poucos – o primeiro deles foi ao ar em sua volta: o líder da oposição venezuelana, Henrique Capriles. Uma saída inteligente, já que os garotos “boca suja” investem justamente no contrário, em convidados que rendam conversas sem grandes pretensões, dando espaço para a irreverência, que é o forte deles. Basta examinar quem vem sentando nos seus respectivos sofás: Sérgio Mallandro, Serjão Loroza e MC Nego do Borel, no programa de Gentili; Mr. Catra, MC Guimê e a turma do “Pânico”, na atração de Rafinha. O elenco às vezes surpreende com a entrada em cena do pastor Silas Malafaia, por exemplo, mas a linha dominante tem sido essa. É claro que a escolha de entrevistados responde a novas demandas. O conceito de celebridade mudou muito, e hoje se leva à bancada de um talk show (o próprio Jô já fazia isso) não apenas o ator premiado ou o escritor best-seller, mas qualquer pessoa em seus 15 minutos de fama. Além disso, existe um público novo, mais afinado com o estilo da atual geração de humoristas – o mesmo que adotou há tempos o “Pânico na TV!” e que lota comédias como “Se Beber Não Case”. É de olho na participação dessa audiência que Rafinha e Gentili investem. “Eles são ousados, mexem bastante no formato e focam no jovem”, diz Dirceu Lemos, professor de rádio e tevê da Faculdade Belas Artes, em São Paulo. “Seus talk shows são oxigenados, trazem uma linguagem dinâmica que atrai esse segmento.”

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Rafinha acha que a tevê está amadurecida para abrigar três programas do gênero e que esse processo já está em andamento: “Os números apontam um pequeno crescimento nesse público. Na sexta-feira 28, marcamos 3 pontos de audiência, o SBT 5 e a Globo 7. No ano passado, nenhuma das emissoras apontava esses números numa sexta-feira.” Tanto ele quanto Gentili, que são sócios na vida real (na casa de espetáculos Comedians, voltada para o stand-up), apostam numa renovação do estilo bancada-sofá-grupo musical com quadros e recursos inovadores. “Minha ideia sempre foi subverter o formato. Não se trata tanto de fazer algo radicalmente novo, mas de resgatar o jeito como esse tipo de programa era feito. As coisas ficaram muito chatas, hoje divertir se tornou um tabu”, afirma Gentili. Totalmente voltado para o programa, ele costuma chegar aos estúdios do SBT às 9h30 e só sai às 22h. Grava entre quatro e cinco horas, para chegar a uma hora de programação diária.

A vantagem é que a emissora consegue aparar os excessos que, muitas vezes, terminam por deixar também o entrevistado bastante à vontade. Duas entrevistas de Gentili – uma com o jornalista Jorge Kajuru e outra com o músico e humorista Rey Biannchi – tiveram partes cortadas antes de ir ao ar por serem ofensivas à presidenta Dilma Rousseff.

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O mesmo se deu com o papo entre Rafinha e Lobão, que disse no Twitter que a conversa foi “um peido”. Em processo de limpeza da imagem, depois do episódio Wanessa Camargo, o apresentador gaúcho está com o nariz “mais comedido” e foi extremamente gentil com Luan Santana no programa de estreia, a quem pediu que cantasse uma música de Zezé Di Camargo & Luciano. Ao entrevistar Rodrigo Santoro, contudo, apareceu de cueca fio dental e mostrou o traseiro para a plateia. “Não faço o programa para mudar visão alguma. Estou nele para fazer um show legal e bater papos interessantes”, diz Rafinha.

Foto: Roberto Nemanis/SBT