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A expressão “poker face” costuma ser usada para descrever um rosto capaz de se manter blindado e de não expressar qualquer emoção que seu dono esteja eventualmente sentindo. Talvez o melhor jogador de pôquer brasileiro da atualidade esteja se valendo da genética para brilhar nas mesas físicas e virtuais do planeta. Nicolau Villa-Lobos tem 25 anos e é filho do ex-guitarrista da banda Legião Urbana, Dado Villa-Lobos. Se você leu o nome de Dado e imediatamente acessou os arquivos do hard disk da sua memória, pode lembrar dele nas mais diversas situações. Ainda moleque tocando no “Dado e o reino animal”, sua primeira banda em Brasília. Já consagrado num show gigante da Legião em algum estádio lotado. Logo depois da morte prematura de Renato Russo. Acompanhando os vocais de Wagner Moura no tributo a uma das bandas mais cultuadas do País, produzido algum tempo atrás pela extinta MTV brasileira. Ou talvez você prefira um registro mais recente, de quando se viu envolvido numa disputa ruidosa com os herdeiros do próprio Renato pelos direitos sobre a obra do grupo da qual fez parte durante boa parte da vida. Seja qual for a imagem que você escolha fixar em seu córtex cerebral, invariavelmente verá a mesma cara de Dado. Com certo ar elegante e frio, de lábios cerrados, olhar focado e praticamente nenhuma emoção aparente.

O garoto da foto ao lado pode ter herdado essa característica do pai. É possível que ele, ao lado do gosto pelos números, de algum conhecimento sobre lógica e de uma extrema habilidade para ler nos outros os sinais físicos, olhares e vibrações que denotem um blefe ou mesmo o excesso de autoconfiança que possa sinalizar uma mão poderosa de cartas prestes a ser baixada, tenha levado Nicolau ao posto de jogador número 1 do País. Apenas no último dia 27 de maio, o garoto faturou nada menos que 472 mil dólares ao terminar em segundo lugar num campeonato virtual internacional de pôquer. Ao longo da carreira, que começou há apenas seis anos por conta de um problema descoberto no coração que o levou a uma cirurgia e a um longo período de repouso forçado, já são mais de três milhões de reais ganhos em premiações de campeonatos virtuais e presenciais. Nicolau também toca guitarra como o pai e chegou a ter banda e a trabalhar no estúdio profissional que Dado mantém, incluindo assistências em trabalhos importantes, como a gravação do CD de Vanessa Da Matta. Mas diz que não gostava muito da ideia de viver à sombra do pai. Também teve uma passagem pela produtora de imagens Conspiração, onde tentou colocar em prática o que aprendia na faculdade de cinema, agora devidamente trancada em função da dedicação exclusiva ao pôquer. Afinal, ser o melhor do País em qualquer coisa requer muita entrega. Segundo o próprio Nicolau declarou ao jornalista Millos Kaiser, autor de uma de suas primeiras entrevistas de maior visibilidade, hoje o jogo foi tomado pela garotada que se dispõe a jogar mais de 10/12 horas por dia em seus computadores. Assim, eles conseguem superar rapidamente em experiência os jogadores da velha guarda que precisam esperar um torneio físico para colocar em prática o que sabem e treinar novas técnicas.

Nicolau escolheu o mundo real para investir sua verba. Comprou “ações” da fábrica de brownies de um amigo. Também garante que se mantém espartano, usando uma bike como meio de transporte. Conta que recolhe impostos sobre o que ganha, ainda que nem mesmo a legislação esteja pronta para lidar com uma indústria tão nova. Quando perguntado sobre os riscos de cair no vício do jogo, ele responde rápido e sereno com uma pontinha de “poker face”: “Não tenho por que perder a cabeça. Continuo fazendo tudo igual ao que sempre fiz. Meu maior ganho com isso tudo é viver do que gosto. Isso não tem preço.”

Reportagem: Millos Kaiser