Cultura

Uma paixão de US$ 135 milhões

Livro narra a história do quinto quadro mais caro do mundo, alvo de disputa de espólio nazista, pintado pelo austríaco Gustav Klimt, que seduzia as mulheres retratadas por ele

Uma paixão de US$ 135 milhões

AMANTE Adele Bloch-Bauer (abaixo) serviu de modelo para a tela -Dama Dourada-, no centro de uma das maiores disputas de espólio nazista da história. Acima, Gustav Klimt e um detalhe do quadro que hoje pertence à Neue Gallery, em Nova York ()

Gustav Klimt já era tão famoso por sua pintura como por seu poder de sedução quando a jovem Adele, então com 17 anos, ouviu as primeiras confidências sobre os métodos de aproximação do pintor e o principal objeto de sua arte, as mulheres. Klimt presidia a Secessão, movimento austríaco do fim do século XIX que rompia com a arte acadêmica no país e que ajudou a empurrar a Europa para o modernismo. Pintava três a quatro telas ao mesmo tempo, de manhã até a noite, e vivia enrolado, até o pescoço, com romances que começavam e terminavam no seu ateliê. Alguns casos legaram quadros e descendentes. Gustav Zimmermann, neto de uma das retratadas de Klimt, Mizzy Zimmermann, por exemplo, abriu as cartas da avó para a jornalista Anne-Marie O’Connor, que desde 2001 coleta entrevistas e documentos sobre a herança do artista, alvo de uma das maiores disputas de espólio nazista da história. O livro “A Dama Dourada – Retrato de Adele Bloch-Bauer” (José Olympio) traça o percurso do quadro do título, que começou na conversa entre aquelas duas adolescentes do século retrasado e terminou em 2006 com a venda da pintura por US$ 135 milhões, a quinta mais cara da história, para a Neue Gallery, de Nova York, depois de anos de lutas dos herdeiros contra o governo austríaco.

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AMANTE
Adele Bloch-Bauer (abaixo) serviu de modelo para a tela
"Dama Dourada", no centro de uma das maiores disputas de
espólio nazista da história. Acima, Gustav Klimt e um detalhe do
quadro que hoje pertence à Neue Gallery, em Nova York

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Eram tempos antagônicos em Viena. A psicanálise de Freud, o pensamento de Wittgenstein e a música atonal de Schoenberg conviviam nos salões das elites industriais ascendentes com um também ascendente sentimento moralista e xenófobo. Um best-seller do período “Sexo e Caráter”, de Otto Weininger, classificava como “degeneradas” as mulheres que manifestavam direito de votar ou almejassem educação superior. Segundo o seu autor, “faltava à mulher a capacidade de guiar-se não apenas pelas regras da lógica, mas também mediante as funções de conceitualização e julgamento.”

Mas assim como Adele, agora uma senhora da sociedade, articuladas e bem-relacionadas madames engordavam as filas das que queriam ser retratadas por Klimt. Ferdinand Bloch-Bauer, um industrial do açúcar, conseguiu convencer o pintor a receber a sua esposa, que adorava o artista desde a adolescência. A tela levou quatro anos para ficar pronta. Adele foi a única mulher pintada mais de uma vez por Klimt. A primeira tela nunca teria sido assumida como um retrato e é uma das grandes pistas do romance entre o artista e a mulher de seu patrono. A suspeita é de que a figura seminua com expressão de orgasmo de “Judith 1”, de 1901, é um retrato de Adele, que teria, portanto, 20 anos quando da conclusão da obra. As duas outras foram encomendadas pelo marido.

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Klimt explorava os temas eróticos. Desenhou um casal fazendo sexo, mulheres se masturbando e deixando à vista a excitação que sentiam. Um crítico da época escreveu: “Algumas vezes não era seguro para a reputação de uma senhora da alta sociedade ter seu retrato pintado por Klimt. Desde logo, elas podiam adquirir a fama de ter tido um caso com o mestre, conhecido pelas suas vergonhosas relações com as mulheres.” Mas a verdade é que ele não vencia as encomendas e as clientes – inclusive as modelos das quais ele de fato se tornou amante – eram suas maiores defensoras. Berta Zuckerkandl, jornalista precursora da abordagem de temas femininos pela imprensa (seu pai tinha um jornal), acreditava que o erotismo de Klimt e mesmo a relação com as suas retratadas propunham um ambiente necessário para uma sociedade tacanha e hipócrita. Aos poucos, as damas dos círculos intelectuais começaram a usar as roupas largas e estampas de inspiração bizantina das telas de Klimt como uma atitude de liberação. Sob o mesmo argumento de limpeza da arte degenerada, até 1937 mais de 16 mil obras foram confiscadas e vendidas pelo partido nazista por um preço muito menor do que valiam, “para fazer algum dinheiro com esse lixo”, nas palavras de Goebbels. Adele morreu de meningite antes da ocupação nazista, em 1925, com 44 anos – seis depois de Klimt. Maria Altmann, herdeira, levou mais de 50 anos para recuperar cinco das telas “degeneradas” que o retratista fez de sua tia.

Fotos: Culture Club/Getty Images