Cultura

Mulheres em ação

Com humor e disposição elas invadem teatro, televisão, música, literatura e até a Internet

Pasmem, meninos e senhores. Elas agora ganham dinheiro para discutir a relação, falar pelos cotovelos e, extrema ousadia, cobrar mais e melhores orgasmos. Sem perder o bom humor e com a diferença de que tudo não está acontecendo entre quatro paredes. Seja no palco de Os monólogos da vagina – peça em cartaz no Rio de Janeiro –, na televisão com o novo humorístico global Garotas do programa, no rádio, na literatura e na Internet como prova um trio feminino de jornalistas ou nas casas noturnas onde, no lugar dos homens, assumem o lugar de DJs, as mulheres espanam o mofo do feminismo com sarcasmo e ironia. Armas que, por sinal, também servem para varrer o machismo de lugares tradicionalmente ocupados por eles. Nos últimos meses, por exemplo, bandas tipo Penélope, Nocaute e Autoramas mostraram que o ex-sexo frágil também sabe tocar baixo ou bateria. Ao que tudo indica, o mundo da diversão está ficando cor-de-rosa, como admite a atriz Cláudia Ventura, uma das autoras de Garotas do programa. “Existe uma demanda reprimida, porque as mulheres têm muito para falar e faltava a oportunidade”, diz.

Quanto às garotas do pop, elas também levam variados assuntos na brincadeira, principalmente em relação aos comentários machistas. A baterista Andrea Wolff, por exemplo, única mulher da banda de rap Nocaute, já tem resposta pronta para quem se espanta ao vê-la assumir as baquetas. “Não dizem que lugar de mulher é na cozinha? Numa banda, é a mesma coisa, trabalho na bateria, que é a cozinha do som”, argumenta. Erika Nande, baixista da banda Penélope, tem mais sorte. Divide o palco com outras duas garotas – dois rapazes completam o grupo. Ela já enfrentou muito preconceito por ter escolhido um instrumento quase exclusivo dos machos. Mas acredita que agora a onda é outra. “De uns tempos para cá passou a ser chamariz ter uma banda com meninas. Vai chegar um dia em que o importante será a competência, independentemente do sexo”, afirma.

Donos de casas noturnas do Rio de Janeiro e de São Paulo já perceberam a jogada de marketing. Quem gosta de sair para dançar deve ter notado que nas cabines de som das boates, em vez de barbados, surgiram beldades comandando os toca-discos. No Rio, pelo menos oito delas trabalham regularmente ganhando um salário que pode chegar a R$ 4 mil por mês. A DJ Ana Paula, 26 anos, trabalha no ramo desde 1991. “Cheguei a ouvir coisas do tipo: ‘Ih, ela não deve tocar nada!’” A DJ Tati, da Bunker e da Public&Co, também aprendeu a driblar as ironias. “Já ouvi que tocava como um homem, e a pessoa estava elogiando!” Em São Paulo, Maria Antonia Teixeira, 50 anos, a Tunica, está entre as DJs pioneiras. Começou fazendo sonoplastia de teatro e agora anima festas de trintões e quarentões. “Não faço tecno, mas faço dançar.” Há também quem invista no som mais moderno, como Ana Luiza Gelfei, 26, que toca em festas e nas noites de sexta-feira de A Lôca, um dos templos paulistanos da música eletrônica.

Variedade – Como nunca houve tanta variedade de atrações feitas por mulheres – e, atenção!, não apenas para elas – o público tem aprovado estas incursões femininas. O teatro Clara Nunes, no Rio, vive lotado desde que Os monólogos da vagina estreou em 7 de abril. Escrita há cinco anos pela jornalista americana Eve Ensler, a peça se baseia em 200 entrevistas com mulheres de vários países. Nos esquetes, Eve mostra ângulos da sexualidade feminina. Desde a velhinha que confessa ter-se esquecido de sua vagina até a personagem que descobre seu clitóris num workshop. Na primeira versão americana, a autora fazia o monólogo, num tom mais sério enquanto a montagem carioca, com direção de Miguel Falabella, optou pelo bom humor em quase todo o espetáculo. Zezé Polessa, uma das atrizes, acredita que muitas vezes as pessoas riem da ignorância da personagem com a própria sexualidade. “É um humor quase involuntário”, comenta ela, que divide a cena com Cláudia Rodrigues e Vera Setta. Zezé já pode ser considerada o ícone dessa onda de humor feminino já que também integra o elenco de Garotas do programa. “As mulheres se sentem prestigiadas por se verem bem retratadas por outras mulheres. Os homens se dizem presenteados porque, para eles, as mulheres são um mistério”, diz Zezé.

Com 22 pontos de audiência em sua estréia na sexta-feira 7, o humorístico televisivo coroa a meteórica carreira de um grupo de moças que vem dando o que falar no mundinho feminino carioca. Carmen Frentzel, Cláudia Valli, Cláudia Ventura, Lucília de Assis e Suzana Abranches emplacaram na Globo graças ao tititi em torno de seu jornal prosaicamente batizado de O Grelo Falante, surgido em 1998. Dois meses depois, foram convidadas pela editora Objetiva para escrever o livro Tapa de humor não dói – a hora e a vez de as mulheres gozarem. Em meados de 1999, com o aval da turma do Casseta & Planeta, surgiu a idéia do programa de tevê, dirigido pela cineasta Rosane Svartman. O segredo? O quinteto não tem o menor pudor em fazer piadas chulas ou falar de sexo.

Experiência semelhante passaram as meninas do fanzine 02 Neurônio, que mais tarde se transformou em livro, acrescido do subtítulo Almanaque para garotas calientes, que em maio ganhará um site no UOL. O sucesso do trio Jô Hallack, Nina Lemos, ambas de 29 anos, e Raq Affonso, 27, inspirou o programa de rádio Zíper, transmitido pela Jovem Pan FM de São Paulo. Entre uma e outra música, Nina – com o médico Jairo Bauer e a desbocada drag queen Nany People – responde às mais inusitadas perguntas sobre sexo. Sempre, segundo ela, levando em conta conversas entre a mulherada, algumas bastante delicadas, exatamente como no livro. “O que tem causado mais furor é o dossiê sobre sexo anal, um tema que nós não discutimos muito. Escrevemos sobre coisas patéticas que acontecem com a gente”, segreda Nina. Depois de queimar os sutiãs nos anos 60, as mulheres descobriram que o melhor antídoto contra o machismo, além de fazer música pop, e animar noitadas, é rir. Até de si mesmas.