PAULOLIMA-01-IE-2302.jpg 

É exatamente nesse período entre o Natal e o novo ano que a ideia de renascimento volta de forma implacável ao centro do palco. Nos milhões de textos produzidos por conta do período de festas, dos despretensiosos e-mails de feliz Natal aos longos e repetitivos editoriais de publicações diversas, repete-se a reflexão sobre o renascer. Mas talvez pouca gente esteja em melhor posição para falar em renascimento hoje (e até sobre a tradição de renovar a vida no fim do ano saltando ondas) do que a pequena e valente filha do jornalista e deputado Fernando Gabeira e da estilista Yamê Reis. Maya é uma das pouquíssimas mulheres aceitas e consagradas no restritíssimo mundo do surfe de ondas gigantes. Estamos falando aqui do grupo das pessoas capazes de se jogar em vagas que passam dos 25 a 30 pés (cerca de 10 metros), podendo chegar aos 100 pés, algo parecido com uma montanha de 30 metros de água pesada. Surfando desde os 14 anos, Maya foi subindo os degraus da escada que separa os milhões de surfistas que embelezam os mares do mundo da “meia dúzia de cinco” que topa entrar na água nos dias em que o filho chora e a mãe não ouve.

Mas, no dia 28 de outubro deste ano que se encerra, ela escorregou num desses degraus e quase rola da escada em direção ao surfe cósmico. Numa onda que atiçou todos os canais da mídia, do “Jornal Nacional” às redes digitais, todos viram a queda estranha de Maya na praia portuguesa de Nazaré e os momentos de agonia que se seguiram em que ela perde as forças lutando contra a enorme massa de água branca e tentando fazer o necessário para ser alcançada pelo jet ski de seu mentor e parceiro de surfe, Carlos Burle. Quem viu o vídeo percebe que Maya está quase sem gás quando agarra a corda presa à rabeta do jet ski de Burle. Consegue ser arrastada por alguns metros em direção à praia, mas solta o cabo e em seguida é vista de bruços, boca e nariz na água, na posição em que os corpos em geral são achados já mortos no mar. Num ato entre o heroico e o desesperado, fruto de muitos anos de lida com a água salgada, Burle se atira do jet ski, pula na água e consegue empurrá-la na direção da areia, empreendendo o procedimento compassado de pressão sobre os pulmões que a faz expelir a água que já os preenchia e recobrar a vida.

Depois de muita dor nos pulmões, dias no hospital e um osso quebrado no tornozelo, Maya conversou com a repórter Karla Monteiro numa entrevista à revista “TPM”. Um trecho que diz muito sobre sua visão a respeito de vida, morte e renascimento e que pode nos inspirar diante dos obstáculos que nos derrubam aqui e ali: 

PAULO-LIMA-IE-2302.jpg
Ainda com as muletas por conta do acidente em Portugal, Maya Gabeira recupera
o bom humor e dispara: “Quero voltar lá!” no detalhe, Maya num dos dias
que antecederam o acidente que quase tirou sua vida na praia de Nazaré 

– Qual era o seu sentimento logo depois do acidente?
– Eu estava feliz. Muito feliz. Passei a vida inteira esperando aquele momento, o momento de arriscar tudo. Aquilo foi o meu limite. Tudo que eu já fiz pelo esporte eu botei naqueles minutos.

– E como é voltar à vida? Você morreu e ressuscitou, né?
– Fé, cara. De alguma forma, Deus me ajudou. Tenho certeza que alguém estava ali comigo. Tudo se conectou para eu viver. Teve uma hora que eu consegui me entregar em paz. Meu batimento cardíaco diminuiu muito. Se eu tivesse tido uma crise de pânico, não teria sobrevivido. Minha cabeça me ajudou. Meus pensamentos foram para um lugar que me poupou sofrimento, desespero. Quando eu vi que tinha dado merda, lógico, lutei pra caramba. Debaixo d’água, fiquei triste: “Pô, que merda, vou morrer.” Só que no próximo estágio me lembro que fiquei muito em paz. Super em paz. Na hora que tive de me entregar, que não dava mais para lutar, eu me entreguei. Se fosse para ser, eu estava no lugar certo. Escolhi estar ali, não estava ali à toa. Ou eu ia sobreviver ou não ia, era isso.

– Você faria tudo de novo?
– Sem dúvida, com certeza. 

fotos: Murillo Meirelles/Revista TPM; Ricardo Bravo/Red Bull Content Pool
A coluna de Paulo Lima, fundador da editora Trip, é publicada quinzenalmente