Brasil

Vão-se os anéis…

Tápias assume com o desafio de controlar a desnacionalização das empresas brasileiras, que não têm acesso a dinheiro barato

Antes de assumir na quinta-feira 9 o controle da Caloi, marca nascida em 1898 que se tornou sinônimo de bicicleta no Brasil, o empresário Edson Vaz Musa, ex-presidente da Rhodia, já estava em busca de sócios externos para a empreitada. "Nesse mundo de hoje é preciso estar atento às alianças estratégicas. A princípio iremos distribuir também os produtos de um fabricante dos Estados Unidos, mas a parceria tende a avançar rapidamente", diz Musa. Mesmo sendo líder de vendas, com 35% do mercado, a empresa amargou três anos no vermelho, com dívidas de R$ 90 milhões. "Ela não conseguiu dar conta dos juros estratosféricos", conta. Agora, o empresário, que comprou apenas a parte sadia da companhia – a Caloi Norte –, busca capital barato para impulsionar a reação. De imediato, os credores e fornecedores, inclusive internacionais, terão direito a transformar seus créditos em ações. "A empresa tem tudo para dar certo, falta uma injeção de capital". A constatação de Musa é a mesma da maioria dos industriais brasileiros, que para sobreviverem num mercado globalizado precisam de dinheiro barato. E ele só vem acompanhado de um sócio estrangeiro. Se a decisão for tardia, o competidor estrangeiro virá mesmo para comprar a preço de banana uma empresa mergulhada em dívidas.

Dez anos de abertura econômica, meia década de estabilidade monetária e dois anos de crise crônica colocaram o País diante do irreversível fenômeno da desnacionalização de suas indústrias. Um efeito que serve de combustível para disputa entre desenvolvimentistas e monetaristas ajudou a imolar o ex-ministro do Desenvolvimento Clóvis Carvalho e surge como o grande desafio do seu sucessor, Alcides Tápias. Responsável por conduzir os rumos da indústria no País, Tápias, que toma posse na terça-feira 14, já está enfrentando a resistência do Congresso por ter trabalhado como executivo de empresa financeira, o Bradesco, e de construção, a Camargo Corrêa. "Este senhor nada mais era do que vice-presidente do Bradesco, presidente da Febraban, o organismo classista dos banqueiros… É um lobista", atacou o senador Roberto Requião (PMDB-PR).

A pressão dos industriais também não será pequena. Nacionalista de carteirinha, o empresário Antonio Ermírio de Moraes estava prestes a tomar uma decisão surpreendente: abrir sua Votorantim a novos sócios. O maior conglomerado industrial brasileiro pretendia permitir a entrada de parceiros estrangeiros como uma forma de se preparar para os novos tempos. Por ora, o plano está suspenso. E a justificativa para o recuo é ainda mais insólita: "Somos muito pequeninos diante dos grandes grupos globais. Perderíamos espaço caso abríssemos o capital", justifica Antonio Ermírio, dono de um império nascido em 1918 a partir de uma tecelagem e que hoje fatura mais de R$ 4 bilhões por ano, com pesada atuação nos setores de alumínio, cimento e papel e celulose. O dilema do megaempresário é o mesmo que aflige todo o industrial brasileiro: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Ou, em outros termos: se tentar enfrentar os rivais externos apenas com os próprios recursos, corre o risco de sucumbir, se aceitar unir-se a eles, mais cedo ou mais tarde, perderá o comando e se tornará um passageiro dentro da companhia que ajudou a erguer.

O próprio grupo privado para o qual Clóvis Carvalho trabalhou durante mais de dez anos antes de ir para o governo é um exemplo acabado da perda de espaço das companhias nacionais. Há três meses, a família Villares renunciou ao papel de capitã da indústria por pouco mais de R$ 100 milhões, ao vender a Elevadores Atlas – empresa que deu origem ao grupo, cujo faturamento chegou a alcançar US$ 1 bilhão no início dos anos 80 – para a concorrente suíça Schindler. A última empresa remanescente em que a família ainda detém participação, a Aços Villares, já recebeu várias propostas para a venda, o que marcaria o desfecho de uma história importante da industrialização brasileira neste século. Nos últimos anos, a participação externa avançou a passos contínuos (leia tabela ao lado).

 

Boas ofertas – De toda a receita gerada pelo parque industrial localizado dentro do território brasileiro, quase 40% dos impostos provêm de fabricantes estrangeiros. É um processo que não mostra sinais de esgotamento. Pelo contrário. Vingou a profecia do ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, que dizia, antes de sair do governo, que as empresas nacionais ficariam baratas demais com a desvalorização do real. Isso irritou profundamente os industriais, que pediram a cabeça de Franco. Embora a importação esteja sendo substituída gradativamente pela produção doméstica, o efeito mais imediato da desvalorização é que as indústrias nacionais ficaram mesmo mais baratas na comparação com o dólar. "Embora a entrada de capital externo seja importante, o resultado não tem sido bom. Não dá para ter uma via de mão única em que apenas as empresas estrangeiras atuem no mercado brasileiro", afirma o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva.

O sentimento é de melancolia. Nas raras ocasiões em que opinam, com o cuidado de evitar a pecha de nacionalistas, antiquados ou protecionistas, os industriais estão pedindo atenção. "O governo não tem outra alternativa senão voltar os olhos para a indústria nacional", afirma Ermírio de Moraes. "Ser contra a desnacionalização não é uma questão ideológica", completa o empresário Paulo Cunha, do grupo Ultra, outro espécime em extinção. "É uma questão de aritmética: não vai dar para pagar as contas." Pelos estímulos da política econômica, os investimentos estrangeiros diretos entraram maciçamente, desembocando especialmente em setores da infra-estrutura e privatização com pouca propensão à exportação. Foram fundamentais para a revolução em alguns setores, como telecomunicações. Mas agora, segundo Paulo Cunha, chegou a hora de pagar a conta pelo aumento das remessas de lucros e dividendos das empresas estrangeiras. Para o economista-chefe do Banco Bilbao Viscaya (BBV), Octávio de Barros, o grande desafio é alavancar as exportações. Volta o velho e batido slogan dos anos 70: exportar é o que importa.

 

Fusões salvadoras – A abertura econômica, aliada à estabilidade e à dupla câmbio e juros, deixou o empresário brasileiro bastante inseguro. "Ele se sente ainda muito frágil diante do rival internacional", afirma a economista Maria Helena Zockun, pesquisadora da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). "A empresa estrangeira tem um nível de produtividade tão grande que pode absorver as distorções da economia brasileira. Elas pagam impostos e ainda dão lucro." Representando 7% do Produto Interno Bruto (PIB), as empresas com sede no Exterior pagam 45% dos impostos. "Por isso, o governo gosta tanto delas", declara Maria Helena. O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), uma entidade criada há dez anos e que reúne 45 dos maiores industriais brasileiros, acha que o casamento entre o capital nacional e externo é a melhor solução para sobreviver a esse processo – uma saída intermediária entre a desnacionalização completa e o superprotecionismo do passado. No casamento, o que vale é o dote dos pretendentes estrangeiros: acesso a financiamento barato e tecnologia. Muitos empresários ainda estão com o desembolso de R$ 700 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) entalado na garganta. "Queremos que a empresa nacional tenha prioridade no financiamento no BNDES e nas políticas tecnológicas", afirma o diretor-executivo do Iedi, Júlio Gomes de Almeida. No momento, o banco estuda financiar as reestruturações de quatro setores: papel e celulose, petroquímica, siderurgia e eletroeletrônicos. Em tese, o governo estimula que algumas das empresas brasileiras se unam para tornarem-se fortes competidores globais.

Enquanto isso não se concretiza, o caso mais corriqueiro levantado pelos analistas como exemplo de sucesso – e boa solução de mercado – é o da fabricante de aviões Embraer. De uma situação quase falimentar, a empresa projetou um avião, ganhou mercado internacional e virou o segundo maior exportador do País. Mas sempre contou com a ajuda financeira do BNDES, o que acabou levando o País a uma disputa comercial com a canadense Bombardier na Organização Mundial do Comércio (OMC). Por isso, seus acionistas – o Banco Bozano, Simonsen e os fundos de pensão – nunca esconderam sua intenção de associar-se a um grupo de estrangeiros para ter acesso à tecnologia e fontes baratas de capital. Se essa intenção virar realidade, o maior exemplo de sucesso da indústria brasileira nos últimos tempos será controlado por um sócio estrangeiro – destino impensável pelos militares nacionalistas que criaram a empresa no fins dos anos 60.

Colaborou László Varga (SP)

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