Medicina & Bem-estar

Prazer em dez minutos

Novo remédio contra impotência promete agir ainda mais rápido do que o Viagra e com menos contra-indicações

Alegria, alegria. Não vai ser por falta de pílulas que haverá falta de sexo. Isso porque está para ser lançada mais uma droga contra a impotência, mal que acomete, em algum grau, cerca de 50% dos homens acima dos 40 anos. Deve se chamar Uprima e é fabricada pelo laboratório americano Abbott. O novo remédio deve chegar ao mercado europeu ainda este semestre e a previsão é de que desembarque por aqui até o final do ano. Antes que seja vendido oficialmente, especialistas brasileiros devem testar seus efeitos nos próximos meses. A droga já vem, ao que tudo indica, com uma grande vantagem: surte efeito mais rápido que outras pílulas orais concorrentes, como o Viagra e o Vasomax. De acordo com estudos em andamento nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa, o Uprima é capaz de promover uma ereção suficiente para a penetração sexual em apenas dez minutos (o efeito pode variar, chegando até a 20 minutos). O Viagra (princípio ativo sildenafil) demora cerca de uma hora e o Vasomax (fentolamina), meia hora, em média.
Essa ação quase imediata se dá porque a pílula é usada na forma sublingual (em baixo da língua). Ao se derreter na boca, o remédio atinge rapidamente a circulação sanguínea e, ao contrário da concorrência, não precisa passar pelo estômago nem pelo intestino para ser absorvido. Outra diferença é que a nova droga atua diretamente no cérebro. Seu princípio ativo, a apomorfina (derivada da morfina), age no sistema nervoso central aumentando o nível de dopamina no cérebro.

A dopamina é um neurotransmissor (substância que faz a comunicação entre neurônios) que permite que o estímulo sexual externo (pode ser olfativo, visual, etc.), já codificado em impulsos elétricos, chegue até o pênis. Ali, o impulso estimula a produção do neurotransmissor óxido nítrico, que induz ao relaxamento do corpo cavernoso e permite o afluxo de sangue que levará à ereção. Esse mecanismo é diferente do das outras drogas disponíveis. O Viagra e o Vasomax, por exemplo, atuam no sistema nervoso periférico, agindo exclusivamente sobre o corpo cavernoso. Todas essas drogas, no entanto, não interferem na falta de apetite sexual masculino. Ou seja, o desejo pelo sexo é fundamental para que essas pílulas funcionem.
 

Mas ser mais rápido significa ser mais eficaz? Não. Há cerca de três mil pacientes sendo estudados em testes clínicos conduzidos por especialistas e, por enquanto, o Uprima tem se mostrado eficaz em 65% dos casos, em média. É um resultado parecido ao do Viagra e pouco melhor que o do Vasomax, que, segundo o urologista Celso Gromatzky, do Hospital das Clínicas de São Paulo, tem eficácia em torno de 50%. “Não é um remédio que vai tratar todos os casos de impotência. Isso não existe”, afirma Gromatzky. “Mas será mais uma arma para combater esse mal.” O Uprima tem as mesmas indicações que as outras pílulas para a impotência. Poderá ser usado para casos de impotência de origem psicológica e orgânica leve e moderada, na qual existe um comprometimento parcial do sistema vascular e do corpo cavernoso do pênis. Quando há comprometimento total, as indicações são cirúrgicas ou o uso de prótese. Ao que parece, a apomorfina não tem contra-indicações (pode ser usada por cardíacos que tomam remédios à base de nitrato) e produz efeitos colaterais leves (o mais significativo deles foi náusea, constatado em 17% dos pacientes estudados). Com esta novidade, os homens ganham mais um aliado contra a impotência. Alegria, Alegria.

Alternativas femininas
Produzir remédios que atuem nas disfunções sexuais da mulher é também um dos grandes desafios da medicina. Só que é muito mais difícil, pois ainda se conhece muito pouco sobre a complexa fisiologia da sexualidade feminina. Na Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, o urologista Jed Kaminetsky está testando dois cremes vaginais para tratar mulheres com problemas sexuais como falta de orgasmo e pouca lubrificação. Um deles contém o sildenafil, princípio ativo do Viagra, e o outro tem
L-arginina, um aminoácido que há algum tempo já é estudado para tratar disfunções sexuais. A pesquisa é pequena (cerca de 50 mulheres) e não tem aval da Pfizer (fabricante do Viagra), mas 80% das mulheres que usaram os produtos relataram efeitos positivos como o aumento da excitação. O resultado, especula-se, deve-se ao aumento do fluxo sanguíneo e à lubrificação local. A ação psicológica, porém, também deve ser levada em conta. Será que as mulheres não tiveram uma relação melhor só porque já esperavam que ela fosse melhor por causa dos cremes? “Os cremes podem ajudar a mulher a ficar mais predisposta ao sexo. Mas é um efeito puramente físico que nem sempre garante a satisfação da mulher”, diz Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade (Prosex), do Hospital das Clínicas de São Paulo. No Prosex, por exemplo, 70% das mulheres atendidas se queixam de falta de orgasmo. Entre elas, 25% não sentem desejo sexual e 35% têm desejo, se excitam, mas não conseguem chegar ao clímax. Dessas constatações tiram-se duas lições: mais excitação não significa ter orgasmos e ainda há muito mais mistérios sobre a sexualidade feminina do que se imagina.

Como atua o medicamento

1) O estímulo sexual externo (imagem, cheiro) é recebido pelo homem e processado em regiões do cérebro.
2) Ao mesmo tempo, o Uprima, que é um comprimido usado em baixo da língua cujo princípio ativo é a apomorfina, aumenta o nível de dopamina no cérebro, um neurotransmissor que levará até o pênis o estímulo sexual codificado na forma de impulsos elétricos.
3) No pênis, os impulsos estimulam a produção de óxido nítrico (outro neurotransmissor), que induz ao relaxamento do corpo cavernoso e permite afluxo de sangue que leva à ereção.