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Kosovo é aqui

A violência política no país vizinho já provocou 1,5 milhão de refugiados internos, o dobro do Kosovo. O Brasil pode mediar as negociações do governo colombiano com a guerrilha

A noite mal havia dominado o céu em Brisa de la Frontera, na região Norte colombiana, quando a guerra civil atirou a maior parte de seus moradores numa definitiva escuridão. Num ataque surpresa, centenas de paramilitares marcaram na história daquele povoado o horror do último sábado, dia 21 de agosto. O agricultor Faustino Galves, 46 anos, agarrou um dos filhos e fugiu com a mulher, que segurava o outro menino no colo, logo que ouviu os tiros das metralhadoras e os gritos de quem caía pelo caminho. "Atravessei o rio da fronteira e me escondi na Venezuela", contou o camponês, ainda assustado, ao se juntar na quinta-feira 26 a outros 100 refugiados internos que estão acampados em Cúcuta, cidade que os terroristas das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) mantêm praticamente sitiada, mas ainda livre da invasão. No ginásio onde foi alojada, a família Galves tornou-se vizinha de Dinael Sierra, um camponês de 36 anos que também fugiu, com a esposa e seis filhos, abandonando sua pequena propriedade no município de La Gabarra, na mesma região de Brisa. Seus parentes ficaram para trás e deles não tem muitas notícias. "Só sei que um de meus sobrinhos, um rapaz de 17 anos, teve o corpo partido ao meio por uma motosserra e atirado em diferentes pontos da cidade", relata ele, emocionado. "Para minha casa não volto mais", adianta Dinael. Nem ele nem os filhos menores, que estão traumatizados depois de assistirem a fuzilamentos e degolas de parentes e amigos. Andam insones pelo acampamento buscando entender o pesadelo no qual acabam de mergulhar e ainda não sabem quando acabará. Aquelas crianças, assim como Faustino, Dinael e mais um milhão e meio de colombianos têm relatos impressionantes a fazer sobre a realidade de um país que está morrendo. São todos "desplazados", ou refugiados internos, que se multiplicam a cada semana ao abandonarem suas terras e casas para preservar suas vidas. Já são o dobro dos refugiados do Kosovo, embora seu drama esteja longe de galvanizar a opinião pública mundial como o dos kosovares. Querem ir para um lugar seguro, ainda que seja o Brasil ou a Venezuela. Cansada da guerra, Estrela Niño, uma senhora forte de 49 anos, desabafa enquanto termina de cozinhar o ensopado para as famílias instaladas em Cúcuta: "Diante de armas estaremos sempre humilhados. Eles deveriam brigar entre eles, e que se matem", vocifera a geniosa camponesa.

 

Paramilitares – "Eles" são as duas principais facções armadas que já dominam a maior parte do país e põem de joelhos o governo do presidente Andrés Pastrana, a cada dia mais acuado e tão frágil quanto o povo que deveria proteger na deflagrada guerra civil colombiana. Os últimos atentados na região Norte, que já fizeram 150 mortos, foram cometidos pelos paramilitares das AUC, uma das dezenas de grupos terroristas de extrema direita, formados por cinco mil homens. Nasceram como milícia privada, para dar proteção a fazendeiros, e agora transformaram-se numa força militar clandestina que reivindica a autoria de genocídios marcados pela barbárie. Ao lado das tropas do Exército, com quem dividem muitos interesses, os paramilitares dedicam-se preferencialmente a combater as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a organização guerrilheira de esquerda composta por 15 mil combatentes. Todos estão muito bem armados, dão proteção ao narcotráfico em troca de dinheiro e tornam o jogo do poder no país uma equação complexa e difícil de ser resolvida.

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Fogo cruzado – Apesar das radicais diferenças ideológicas entre esses grupos, o resultado prático de suas ações não é muito diferente. "Os paramilitares acharam que meu sobrinho era colaborador das Farc simplesmente porque foi obrigado a atravessar um grupo de guerrilheiros em sua canoa", explica o desolado Dinael. No centro do país, em Bogotá, o plantador de coca Germaín Ríos, 25 anos, está cego de um olho e tem o corpo marcado pelos estilhaços de uma granada atirada contra ele pelas Farc. "Fui soldado do Exército e, por isso, os guerrilheiros concluíram que eu seria uma ameaça", relatou Germaín, no domingo 22. Três dias antes, ele e outro colega haviam sido crucificados e mais dez tiveram seus lábios costurados numa radical manifestação de 120 "desplazados", que tomaram por três semanas a sede colombiana do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). "Só dois dos 32 departamentos não estão afetados pelo conflito armado", atesta a chefe da Acnur na Colômbia, a brasileira Leila Lima, revoltada com a indefesa condição do cidadão comum no país. Gente simples como Luís Carlos Arango, 48 anos, que um dia estava caçando perto de casa e voou longe depois de pisar numa mina. Hoje, sem a perna direita, perambula como um mendigo pelas ruas de Bogotá.

O refúgio nas grandes cidades, porém, não é mais uma prerrogativa só da população desarmada. Na semana passada, a própria polícia abandonou dez cidades por falta de condições para enfrentar as milícias, elevando para 130 o número de municípios abandonados pelos serviços de segurança estatais.

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Gradualmente, o Estado vai se encolhendo e abrindo espaço para outros poderes concorrentes. As Farc ganharam há um ano um enclave no Sul do país, com 42 mil quilômetros de área (equivalente a uma Suíça), onde oficialmente detêm o uso legal da força e da tributação. Ilegalmente, entretanto, já dominam cerca de 40% do território colombiano, disputando à bala outras regiões com os paramilitares. Dessa guerra também participam o acuado Exército colombiano e o outro grupo guerrilheiro, o Exército de Libertação Nacional (ELN). A imprensa local trata a todos como se fossem poderes constituídos. Suas agendas e atos são regularmente divulgados e seus principais líderes portam-se como chefes de Estado ao conceder entrevistas. Isso tudo dá à Colômbia ares de região feudal às vésperas do novo milênio. Cada senhor tem seu território, o domina a mão-de-ferro e não parece disposto a recuar um centímetro nas negociações de paz, suspensas há dois meses.

Numa conversa reservada, dias atrás, o ex-presidente Alfonso López Michelsen confessou que está decepcionado com a fragilidade do governo de Andrés Pastrana. "Ele não esboça nenhuma reação e prova que não tem um ás na manga para retomar as negociações de paz", lamentou o ex-presidente a um observador estrangeiro. Outro analista classificou Pastrana como "um sujeito personalista e mal assessorado, cercado de gente muito amiga, mas pouco experiente no processo de negociação da paz". Os adjetivos dão o tom da decepção causada pelo primeiro ano de governo do conservador Andrés Pastrana. Filho de Misael Pastrana Borrero, presidente colombiano de 1970 a 1974, Andrés chegou ao poder cercado de otimismo e apoiado pelo governo americano. Prometeu esfriar a guerra, mas, de forma ingênua, abriu a rodada de negociações pela paz dando às Farc um território próprio. "A guerrilha está mais forte do que nunca e não vai ceder", prevê Leila Lima, da Acnur.

 

Ação militar – Instalado num dos 100 gabinetes do Senado, sob uma forte proteção de seguranças pessoais, o senador liberal Germán Vargas Lleras vai além. "O processo de paz não funciona e o Estado tem que se preparar agora para uma ação militar", defende o parlamentar de voz firme e decidida. Político em ascensão no Partido Liberal, com apenas 37 anos, Vargas Lleras é ele próprio uma das vítimas da guerra suja financiada pelo narcotráfico colombiano, que ainda é o mais lucrativo negócio do país mesmo depois do desbaratamento dos cartéis de Medellín e Cali. Após várias ameaças de morte, o senador despachou sua família para o exterior, adotou um colete a prova de balas e só circula pelas dependências do Senado sob uma escolta bem armada. "Os sequestros atingem especialmente as pessoas mais ricas, que podem pagar resgates mais altos", explica o parlamentar, um dos poucos de sua geração que ainda insistem em permanecer na Colômbia. Neste ano, um em cada cinco colombianos que deixam o país por avião está abandonando definitivamente sua terra natal. Parte de uma elite que deixa para trás uma triste ironia. Quando pagam pelo resgate de seus parentes, as famílias ricas da Colômbia ajudam a financiar a matança que atinge em cheio a população mais pobre do país, mostrando um dos lados mais cruéis da desigualdade social colombiana.

 

Retórica – Diante do colapso evidente, as principais autoridades abusam da retórica para encobrir a inação. Na terça-feira 24, o ministro colombiano da Defesa, Luís Fernando Ramírez, limitou-se a classificar como "execrável" a ação dos paramilitares na região Norte, já que não tem instrumentos efetivos para combatê-la. A alternativa de socorro mais viável é a intervenção indireta, em que outros países são instados a colaborar de alguma forma com a solução do problema. Ramírez admitiu a ISTOÉ que o governo colombiano "está negociando com o Brasil uma ação conjunta", e que isso não se resumiria à vigilância da fronteira.

Por trás dessa estratégia está o governo dos Estados Unidos, que teme a queda do governo Pastrana diante da guerra civil e do narcotráfico, mas tampouco está disposto a invadir o território colombiano e correr o risco de um novo vexame como a guerra no Vietnã. O relevo acidentado da Cordilheira dos Andes, a forte presença da selva amazônica e a infiltração da guerrilha e dos paramilitares na população comum tornam praticamente impossível uma tarefa militar dos americanos na Colômbia, opina uma fonte diplomática. Mais prático para os Estados Unidos é poupar seus homens e financiar a ação dos Exércitos da região, que começaram a ser acionados na semana passada durante uma rodada de visitas feitas pelo chefe da agência americana antidrogas, general Barry McCaffrey, aos países vizinhos da Colômbia. Por pressão dos Estados Unidos, o presidente Pastrana não fará novas concessões às Farc, que mantêm em seu poder 500 sequestrados, entre policiais e soldados, e só pretendem trocá-los por 400 de seus guerrilheiros que foram capturados fora da área de distensão pelo Exército colombiano.

Sob um crescente clima de tensão, a Colômbia nem sequer se iludiu com um falso sopro de otimismo na semana passada. Num comunicado inusitado, o comandante Carlos Castaño, líder dos paramilitares da AUC, sugeriu um cessar-fogo unilateral durante entrevista dada a uma rádio local na terça-feira 24, após massacrar duas cidades inteiras no fim de semana. O governo desconfiou das intenções de Castaño e as Farc avisaram que seus fuzis continuarão soando. Pudera. O próprio Castaño, que perdeu o pai num atentado da guerrilha esquerdista, logo fez uma avaliação assombrosa do que vem por aí. "Lamentável e seguramente poderão existir mais casos como o de Jaime Garzón", avisou o terrorista, em tom de ameaça, referindo-se ao humorista assassinado pelas costas nas ruas de Bogotá, na última sexta-feira 13. Acuada, a sociedade tenta responder da forma que pode. Nesta terça-feira 31, haverá uma greve geral organizada pelas centrais sindicais. A partir da quarta-feira, os telejornais passarão a transmitir as notícias da guerra civil em preto-e-branco, num sinal de protesto. Todos, no país, não aguentam mais ver o povo pagar com seu próprio sangue uma dívida de ódio que não pára de crescer.

 

Uma marcha à ré?

Primeiro, ele disse que a Colômbia já vivia uma situação de emergência. Vinda de uma alta autoridade americana, a frase poderia ser a senha para o envio dos "marines", em uma nova intervenção militar dos EUA. Mas, ao passar por Brasília na segunda-feira 23, o seu autor, o general Barry McCaffrey, czar da luta contra as drogas dos EUA, comportou-se como um bombeiro apagador de crises. "Não há nenhuma hipótese de os EUA enviarem tropas à Colômbia. Nem queremos que os países vizinhos o façam", garantiu.

"Os EUA queriam tirar proveito da crise colombiana para exercer uma influência maior na América Latina", disse o coronel Amerino Raposo, do Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos. "Eles querem favorecer a Alca, que é o que lhes interessa."

Com a intervenção americana aparentemente descartada, o Brasil se prepara para desempenhar o papel que sempre agrada à diplomacia brasileira, o de pacificador de crises. Depois do encontro com McCaffrey, o chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso, anunciou que o Brasil poderá ser o mediador das negociações entre o governo colombiano e a guerrilha, se assim for solicitado.

Eduardo Hollanda e Hélio Contreiras

 

Só faltava a crise

Não bastasse o conflito armado que assola a sociedade na Colômbia, o país também entrou em economia de guerra nos últimos meses. A recessão que tomou conta da América Latina neste ano não poupou um dos sistemas produtivos mais tradicionais da região. Apesar da guerra civil, as agências de risco internacionais classificam a economia colombiana como a segunda mais sólida da América Latina, perdendo apenas para o Chile. Acostumada a um crescimento médio de 3,6% nos últimos dez anos, a Colômbia deverá experimentar neste ano uma queda de 2% em seu Produto Interno Bruto (PIB). Curiosamente, o início da recessão coincide com os esforços do governo para dificultar a circulação dos narcodólares no país. As estimativas mais conservadoras indicam que o narcotráfico seja responsável por 2% de toda a produção nacional, o que corresponderia a aproximadamente US$ 2 bilhões. Identificar claramente a origem dos recursos investidos na construção civil, nos bancos e na agricultura, porém, é uma tarefa quase impossível. "Os narcodólares continuam circulando na economia colombiana, mas a maior parte está indo para o sistema financeiro dos EUA e da Europa", garante o economista Javier Fernández Riva, ex-vice-ministro da Fazenda. Para ele, porém, a recessão que tomou conta da economia na Colômbia deve ser explicada pelas altas taxas de juros impostas pelo Banco de la República, o banco central local.

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