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Sherlock Holmes Tira a Roupa

O fleumático detetive britânico criado por Conan Doyle volta às telas. Agora, ele encarna um típico herói de filmes de ação - atlético, inteligente e sedutor

Sherlock Holmes Tira a Roupa

Assista ao vídeo sobre o ator Robert Downey Jr, que protagoniza o filme "Sherlock Holmes"

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Assista ao trailer do filme

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BOM DE BRIGA
Sherlock Holmes, interpretado por Robert Downey Jr. (foto), na cena em que vence o adversário num ringue de boxe e prova que, além de notáveis habilidades mentais, tem bom preparo físico

Esqueça toda a sobriedade, discrição e reserva que imortalizaram o personagem Sherlock Holmes, famoso detetive criado pelo médico e escritor inglês Sir Arthur Conan Doyle no final do século XIX. O infalível e genial investigador, símbolo do humor refinado, da elegância austera e do raciocínio gelado da conservadora era vitoriana, despiu-se de seus impecáveis tweeds, e surge seminu, com barba por fazer, sexy e sentimental na super-produção de Hollywood “Sherlock Holmes”, que estreia nos EUA e na Europa no dia de Natal e chega aos cinemas brasileiros no dia 8 de janeiro. Nunca uma adaptação cinematográfica da obra de Doyle apresentou uma versão tão destoante do personagem original.Quem imaginaria nu o assexuado Holmes, com a genitália oculta por uma almofada e algemado a uma cama de hotel? Isso acontece no filme dirigido pelo cineasta inglês Guy Ritchie, o famoso ex-marido de Madonna e diretor de “Snatch – Porcos e Diamantes”, entre outras produções de orçamento pequeno ambientadas no underground londrino. Coube a Ritchie a difícil tarefa de equilibrar o apelo pela ação incessante dos blockbusters atuais com as sequências de diálogos espirituosos e insights investigativos tornados populares pelo detetive, adepto do raciocínio dedutivo, minucioso e preciso. Holmes é interpretado pelo ótimo Robert Downey Jr. (renascido depois de “Homem de Ferro”), que desempenhou com competência sua missão de modernizar o personagem – o seu Sherlock exibe habilidades físicas tão surpreendentes quanto a notória capacidade intelectual pela qual é famoso. Ele é arremessado após explosões, quase esmagado pelo cargueiro de um navio, salta no rio Tâmisa pela janela do Parlamento britânico e trava lutas de vida ou morte sobre pontes inacabadas. A ideia que deu origem ao “Sherlock Holmes” atual – com orçamento estimado em US$ 80 milhões e que já tem uma sequência engatilhada – partiu do produtor Lionel Wigram, também coautor do roteiro e principal responsável pela remodelação do investigador. “Há dez anos eu pensava na reinvenção de Holmes. Eu o imaginava boêmio, trajando-se como um poeta ou artista”, diz Wigram. As referências visuais para compor o personagem foram o figurino vitoriano que o guitarrista Brian Jones, do Rolling Stones, gostava de usar na década de 1960 e o rebuscamento de pinturas do artista francês Henri de Toulouse-Lautrec. O fiel parceiro Watson também em nada lembra a figura do senhor roliço e atrapalhado eternizado nas versões cinematográficas. Quem o encarna é o elegante e jovem ator Jude Law – mas a relação da dupla preserva uma sutil sugestão homoerótica que a obra também deixa transparecer.

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DUPLA EM AÇÃO
Holmes (Downey Jr.) e dr. Watson (Jude Law) nas caóticas ruas londrinas do século XIX

Passada em Londres, no ano de 1891, a história começa com Holmes e Watson desvendando o mistério sobre uma série de crimes e levando o responsável, um lorde inglês, à prisão. Mas o caso não estaria encerrado. Condenado à morte e sepultado, o criminoso desaparece do túmulo, para escândalo e pânico geral, e os investigadores colocam-se diante de um novo mistério que envolve rituais satânicos, experimentos científicos e um miraculoso plano de dominação do mundo promovido por uma organização secreta integrada por parlamentares britânicos. Como se vê, trata-se de um roteiro pensado para um blockbuster, já que os casos do detetive na literatura nunca
ganharam proporções planetárias – restringem- se à vizinhança, família ou subúrbio. A inclusão de seitas religiosas, secretas e aristocráticas remete, claro, às histórias de Dan Brown e parece outra tentativa de surfar na onda vigente, como observou uma crítica de cinema do jornal inglês “The Guardian”. Ela esculhambou o filme de Ritchie e quase mostrou-se pessoalmente ofendida com a suposta “americanização” do personagem detetive. Os que gostam das histórias originais do investigador, no entanto, vão encontrar detalhes familiares. Entre eles, a presença da jovem amante de Holmes, Irene Adler (personagem criada por Doyle), que é interpretada pela bela Rachel McAdams, e do lendário arqui-inimigo do detetive, professor Moriarty, na pele de um misterioso aristocrata que contrata os serviços de Irene. O Holmes do filme é um praticante de boxe, apreciador de artes marciais (ele admira a modalidade conhecida como baritsu) e violinista amador. E bem descontraído. É também obcecado por substâncias químicas e consome muitas delas, especialmente cocaína – mas não existe nenhuma cena com o personagem fazendo uso da droga, só uma rápida referência. Em outra passagem, Holmes aparece nitidamente alucinado num “experimento químico” e ouve de Watson: “Você percebeu que está consumindo medicamento para cirurgias oftalmológicas?” São piadas internas, sabendose que Robert Downey Jr. passou maus pedaços como dependente de drogas.

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Guy Ritchie dirige superprodução
Ex-marido da cantora Madonna, o cineasta britânico Guy Ritchie ganhou projeção no meio cinematográfico com filmes de baixo orçamento passados no caótico submundo londrino. Especializou-se em tramas policiais violentas, geralmente centradas no universo masculino, marcadas por um humor que é considerado incorreto e machista. Acabou virando cult e ganhou a simpatia de atores como Brad Pitt, que atuou em “Snatch – Porcos e Diamantes”. Nessa época, ele ganhou também o coração de Madonna. Com “Sherlock Holmes”, Ritchie se aventura pela primeira vez numa superprodução americana, com um orçamento mais de dez vezes superior ao que está acostumado a trabalhar. O seu filme anterior, “RocknRolla”, teve um custo estimado em US$ 5,7 milhões. O próprio Ritchie afirmou que a sua versão de Sherlock Holmes seria um pouco como levar James Bond numa viagem pelo tempo à Londres de 1891.

O Sherlock Holmes da literatura

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ASSEXUADO
Racional e avesso a sentimentalismos, o detetive raramente revela o que sente e é um solitário convicto.
ERUDITO
Praticante eventual de violino, gosta de exibir o seu vasto conhecimento em química, história e o domíno de idiomas.
ELEGANTE
O ator Basil Rathbone (na foto, com Nigel Bruce) foi o que melhor representou o rigor do detetive com o vestuário.
“ELEMENTAR”
A frase “Elementar, meu caro Watson”, que lhe foi atribuída, não existe em nenhuma obra do autor. Surgiu de uma adaptação teatral.
ADICTO
Era usuário de cocaína, à época ainda não proibida. Adotou a substância como antídoto para o tédio.