Cultura

A buena onda

Bienal do Rio apresenta novos autores latino-americanos para o público brasileiro

Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa vão bem, obrigado. Continuam vendendo milhares de cópias, até mesmo no Brasil, sempre um pouco desconectado do resto da América Latina por conta da barreira lingüística. Nomes como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar permanescem entre os grandes escritores da região. Mas a 13a Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, encerrada no domingo 23, reforçou a idéia de que a literatura latino-americana vai muito além desses autores e sofre constante renovação de talentos.

Do mesmo Peru de Vargas Llosa vem Daniel Alarcón, 30 anos. Ele foi apontado pela prestigiada revista Granta como um dos 20 escritores mais promissores dos EUA, onde foi criado e vive até hoje. Apesar de escrever em inglês, Alarcón pode ser considerado um escritor latino-americano, como se vê no seu primeiro romance, lançado na Bienal. Rádio cidade perdida passa- se num aglomerado urbano não-identificado assolado pela guerra civil. A violência e seus rastros na vida das pessoas estão na história de Norma, radialista que lê em seu programa o nome de pessoas desaparecidas durante o conflito, até que recebe uma lista de um garoto vindo do interior, com uma pista sobre seu marido também desaparecido.

Nascido em 1975, Santiago Roncagliolo é outro novo nome do mesmo país. Com o romance Abril vermelho, ele foi o mais jovem vencedor do Prêmio Alfaguara, em 2006. Também ele inclui a violência política que permeou a história recente do Peru em sua trama, sobre um promotor tímido e solitário que se envolve sem querer na caçada a um assassino na pequena cidade onde mora e cujas pistas levam ao grupo Sendero Luminoso.

A argentina Claudia Piñeiro, 47 anos, é outra que se inspira na realidade para criar. Ela vendeu mais de 150 mil cópias de As viúvas das quintas-feiras em seu país e levou o Prêmio Clarín de 2005. Foca em seu romance os ricos jamais atingidos pelas crises econômicas que freqüentemente agitam a região e desfaz a imagem superficial de vida perfeita num condomínio de luxo de Buenos Aires.

Depois de participar da Festa Literária de Paraty no ano passado, o exengenheiro mexicano David Toscana veio à Bienal para lançar O exército iluminado. Em sua prosa surge a questão da tensa fronteira entre o México e os EUA, porém de forma mais delirante, já que um grupo de crianças tenta recuperar o Texas, que faz parte do território americano desde o século XIX. Toscana não nega as influências de Miguel de Cervantes em sua obra. Cada um com suas características, esses autores conseguem ser universais mesmo escrevendo sobre assuntos locais.