Comportamento

Popó, um lutador

O pugilista baiano vence a falta de estrutura e empresários ambiciosos para se tornar campeão

Às três da tarde do sábado 7, o Brasil assistiu a um verdadeiro massacre. Na disputa pelo título mundial da Organização Mundial de Boxe (OMB), na categoria superpena, o desafiante Acelino Freitas, o Popó, quase matou o campeão russo Anatoly Alexandrov. Com uma sequência fulminante de cruzados e diretos, Popó apagou o campeão e conquistou seu 21º nocaute em 21 lutas – uma marca fenomenal. "Boxe é assim mesmo. Na hora comemorei, mas depois fui ver como ele estava. Podia ter acontecido comigo", lembrou. A humildade é um dos traços em comum entre o novo campeão e seu maior ídolo, o personagem Rocky Balboa, vivido nas telas pelo ator americano Sylvester Stallone. De origem muito pobre – antes de Popó nascer sua família foi despejada de onde morava e teve de viver nas ruas de Salvador por quase um ano –, Acelino Freitas é semi-analfabeto, tem 23 anos, três filhos e uma enorme vontade de vencer. "Ao contrário de outros esportes, no boxe não dá para perder. E o meu negócio é dar porrada", afirma, empolgado com a repercussão de sua vitória no Brasil.

O lutador, porém, está vencendo muito mais do que o campeão russo. Tenta deixar para trás o empresário Arthur Pelullo que, depois de Popó ter ganho a medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de Mar del Plata, em 1995, o contratou e o deixou dez meses na geladeira. No final de junho, o americano ainda reivindicava na Justiça americana seu poder sobre o lutador. A primeira decisão saiu em favor de Pelullo, mas Ruy Pontes, atual empresário do campeão, garante que o veredicto foi revisto. "Popó está livre para lutar", assegura. O contrato entre Popó e Pontes, porém, não é muito transparente. O empresário não divulga o salário do lutador nem o valor da bolsa da luta de sábado. "É uma questão de estratégia", se esquiva Pontes. Amigos próximos ao lutador, contudo, dizem que Popó recebeu cerca de US$ 20 mil para subir ao ringue – um valor considerado pequeno – e que seu salário é de pouco mais de R$ 1 mil por mês, 10 % do investimento mensal feito pela TAM, seu principal patrocinador.

Ainda fascinado pela repercussão da sua vitória – desfilou em carro aberto pelas ruas de Salvador na terça-feira 10 –, Popó está feliz. É o primeiro brasileiro a ganhar um título mundial de uma das quatro organizações que regem o boxe no mundo desde Miguel de Oliveira, que em 1975 ganhou o cinturão dos médios-ligeiros. Pode finalmente dar uma vida melhor a seus pais, sua irmã e seus cinco irmãos, quatro dos quais também são boxeadores. Ele comprou uma casa de três quartos para a família, deixando para trás o barraco de um dormitório, onde os garotos dormiam na sala e deu seu carro Uno ano 96 para o irmão Luis Cláudio. Ele também ganhou um carro zero-quilômetro dos seus empresários. Sua mãe, Zuleica Freitas, mal acredita no que aconteceu. "Eu não vi a luta, nunca vejo meus filhos lutarem porque tenho aflição. Mas parece que eu morri e estou em outro mundo", diz emocionada. Esse mundo está apenas começando. Num prazo de seis meses, Popó deve defender seu título pela primeira vez. Para pisar no ringue deve receber uma bolsa de cerca de US$ 100 mil. Ele quer lutar no Brasil, de preferência em Salvador. "Em homenagem aos 450 anos da cidade", diz o campeão.