Comportamento

O último brasileiro

A 50 metros do Uruguai, escultor enfrenta baixa temperatura, mas prefere viver "numa solidão povoada de imagens"

O quintal da casa onde vive o escultor Hamilton Coelho estende-se até as margens do arroio Chuí, riacho conhecido da comunidade científica por seus depósitos de fósseis pré-históricos. Mas não apenas as ossadas de tigres de dentes de sabre, mastodontes e preguiças gigantes fazem dali um lugar especial. Saindo pelo portão de madeira e caminhando menos de 100 passos para a esquerda, este gaúcho de 43 anos chega, a pé, a outro país. Há cinco anos vivendo no vilarejo de Barra do Chuí (RS), ponto mais meridional do território nacional, Hamilton é o último morador do Brasil. Depois dele, começa o Uruguai.

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Os fundos do terreno vão até o oceano Atlântico, mar aberto, com uma extensão de praia de nada menos que 214 quilômetros. Ao norte, espalha-se o pampa gaúcho, recortado pelas lagoas Mirim e Mangueira: um mundão de planícies alagadiças. Extremamente úmida e fria, a região atinge temperaturas de zero grau, ou menos, no inverno. Quando chegou ao local, numa quinta-feira de 1994, casualmente feriado de 7 de setembro, Hamilton lembra que o vento gélido zumbia nas orelhas. Ao se deparar com a casa abandonada, que servira de base para a Brigada Militar, resolveu ficar. Achou que o lugar era muito especial. Dali em diante, passou a ser o guardião da fronteira.

Mas o impulso maior que o levou a fixar nova residência foi o de permanecer mais próximo da matéria-prima das suas esculturas. Artista conhecido no Rio Grande do Sul por suas enormes instalações e peças com fragmentos de ossos de baleia, com os quais vem trabalhando há cerca de 15 anos, Hamilton agora não tem tantas dificuldades para encontrar pedaços de mandíbulas, crânio ou vértebras desses gigantescos mamíferos. Com um Toyota 1980, corroído pela maresia, ele percorre os 90 quilômetros até a praia do Albardão, pelo menos uma vez por semana. Nem sempre encontra seus tesouros. Muitas vezes encalha nas areias fofas da beira-mar. Quase já teve sua perua tragada pelas violentas marés sulinas. Mas os passeios são sempre fonte de diversão.

– Gosto de ir a São Paulo, de vez em quando, ver uma Bienal de Artes, assistir a um show ou a uma peça de teatro. Mas não moraria em São Paulo, Nova York ou Porto Alegre. Aqui tenho peixe à vontade, é só jogar a rede. Vivo nessa solidão povoada de imagens.

 

Antenado Barba cerrada, cabelos curtos e espetados, mãos grossas, calejadas, carregando uma enorme vértebra de baleia pela praia, Hamilton parece um personagem perdido no tempo. Mas, apesar de encravado no extremo sul do País, ele não tem nada de ermitão. Divide a casa com a namorada, Malena, que passa metade da semana em Santa Vitória do Palmar, com a filha de seis anos, e a outra metade na Barra do Chuí, onde desenvolve um projeto de educação ambiental com um grupo de 30 crianças nativas. Ao lado do fogão a lenha, possui telefone rural e uma tevê, quase nunca ligada. Quando está esculpindo, prefere ouvir em sua vitrola (É. Ele ainda tem vitrola.) LPs de Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, Laurie Anderson e Ravi Shankar.

Conhecido no vilarejo não apenas pela arte, mas também pela afeição aos animais, volta e meia recebe visitas especiais. No inverno passado, pescadores encontraram na praia seis pinguins banhados em óleo. Socorridos e alimentados pelo artista, que todo dia pescava pelo menos 500 gramas de peixe para cada um, os bichinhos não quiseram mais abandonar aquela boa vida. "Se tornaram animais de estimação. Onde eu ia eles corriam atrás. O problema é que não tinha mais tempo para trabalhar", diverte-se. Um mês depois, colocou-os dentro de um carro e os despachou para o Museu Oceanográfico do Rio Grande.

Mármore marítimo As esculturas com fragmentos de ossos de baleia têm franca sintonia com a obra de Frans Krajcberg, que trabalha com restos de queimadas em florestas, embora Hamilton nem sequer tivesse ouvido falar do artista polonês naturalizado brasileiro, quando começou a moldar seu "mármore marítimo". Essas "sucatas naturais", como prefere chamá-las, vieram ao encontro de seu espírito inquieto, sempre interessado na pesquisa de novos materiais. Nascido em Santa Vitória do Palmar, município ao qual pertence a Barra do Chuí, o escultor já fez de tudo um pouco na vida. Filho de imigrantes italianos, tradicionais artesãos, aprendeu a tocar bateria e violino, ainda na adolescência, e estudou Teoria Musical na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Depois graduou-se em Escultura e Gravura na Universidade Federal de Pelotas, mas jamais perdeu o gosto pela música.

Após idas e vindas, decidiu-se pela escultura e especializou-se na matéria-prima oferecida pela própria natureza: além dos fragmentos de ossos, usa restos de naufrágios. Boa parte da madeira utilizada no ateliê-residência que está construindo nos fundos de casa veio do casco do navio uruguaio Dona Yayá, que naufragou na costa gaúcha.

– Sou um reciclador de sucatas. Além disso, meu trabalho, como o de Krajcberg, tem um sentido de protesto ecológico.

Extremamente fria e inóspita durante o inverno, com um constante vento de gelar a alma, a região se transforma num frequentadíssimo balneário nas temporadas de verão. Centenas de milhares de uruguaios atravessam a ponte internacional para somarem-se aos brasileiros que vão se banhar nas águas do Atlântico. Chegam atraídos também pela beleza dos pampas e pela Estação Ecológica do Taim, que abriga um sem-número de aves, mamíferos e répteis, como o raro cisne-de-pescoço-preto, flamingos, gansos cor-de-rosa, carcarás, capivaras, tatupebas, jacarés e tartarugas. O movimento intenso, no entanto, se traduz em transtorno para o pacato Hamilton Coelho. Durante essas temporadas, a entrada e a saída de automóveis em território brasileiro provocam engarrafamentos quilométricos bem em frente ao seu portão. "Quando canso do Brasil, simplesmente mudo de país por algumas horas. Para mim, é fácil: basta atravessar a ponte sobre o arroio Chuí", brinca.

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