Brasil

Pouco cristalino

Urânio, superfaturamento, manipulação de invasões: tudo dificulta a reforma agrária

Quando Anderson Lopes, 14 anos, viu um caminhão de som do Movimento Brasileiro dos Sem-Terra (MBST) passar nas ruas de Rio Maria, município do sul do Pará onde morava, em janeiro deste ano, ficou eufórico. O alto-falante convidava a população a ocupar os 140 mil hectares da Fazenda Cristalino, em Santana do Araguaia, a 200 quilômetros dali. Anderson imaginou a possibilidade de ver o pai, Alonso Lopes, 37 anos, ganhar um pedaço de terra e deixar de depender dos empregos esporádicos nas colheitas alheias. O garoto sonhou com a vida nova e não foi por menos. Nicinho Alves, presidente do MBST, exibiu um projeto do assentamento que pretendia montar na Cristalino, área que o governo declarou disponível para fins de reforma agrária em outubro de 1998. Prometendo mundos e fundos, Alves convenceu 1,5 mil famílias da região a vender o pouco que tinham para tentar a sorte. E Anderson, que deixou a escola, hoje passa 15 horas diárias abrindo a mata sem saber se o pai vai poder plantar ali.

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"Uns 40 homens armados estavam na portaria da fazenda, mas entramos sem resistência. Não atiramos nem uma pedra", lembra Carlos Cabral, do Sindicato Rural de Rio Maria. As promessas de Alves e a facilidade para ocupar a área foram tantas que os roceiros desconfiaram do envolvimento entre os proprietários da fazenda, Eufrásio Luiz Pereira e José Marcos Monteiro, e o MBST, que a direção nacional do MST desconhece. O secretário de Agricultura de Santana, Dirceu Carlos da Silva, não descarta a hipótese. "É muito comum por aqui o fazendeiro colocar sem-terra na área para pressionar o Incra a pagar mais rápido." Hoje, abandonadas à própria sorte, as 800 famílias restantes esperam por cestas básicas que não chegam.

Se a ocupação foi acertada ou não, o fato é que os fazendeiros também não viram a cor do dinheiro da indenização prometida pelo Incra. O processo emperrou em Brasília no último mês de novembro, quando as Indústrias Nucleares Brasileiras (INB) solicitaram 4,475 mil hectares das terras para a exploração de urânio. A resolução do impasse está nas mãos da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), que ainda não se manifestou. Nem o Ministério da Reforma Agrária conta com a Cristalino para cumprir a meta de assentamentos deste ano. A questão envolve também R$ 40 milhões, valor da indenização estipulado pelo Incra. A quantia prova que pode ser uma maravilha negociar com o Incra. Pereira e Monteiro arremataram a fazenda num leilão por R$ 20 milhões em agosto de 1997 e não investiram nas terras. Um ano depois, estranhamente, o valor da Cristalino dobrou aos olhos do governo. "Não sei quem está ligado com quem, só sei que a única coisa que a gente tem aqui é fome", queixa-se Manoel Francisco de Lima, 55 anos, que deixou esposa e quatro filhos em Rio Maria para buscar a terra de Santana do Araguaia, que, por ironia, é conhecida como a "cidade da esperança".

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