Entrevista

CHRISTOPHER EDGINTON

”O acesso ao lazer é um direito social’

”O acesso ao lazer é um direito social’

Consultor da ONU diz que o descanso e o prazer são meios para medir a felicidade de uma pessoa e o grau de democracia de uma sociedade

JONAS FURTADO
Edição 02/05/2008 - nº 2009

Em uma sociedade tão competitiva e assolada pelo stress, o acesso a momentos de lazer tornou-se tão essencial e desejável para os indivíduos quanto serviços básicos, como o transporte e a educação. Esta é a opinião do americano Christopher Edginton, secretário-geral da World Leisure Organization, órgão não-governamental que presta consultoria à Organização das Nações Unidas (ONU) em questões relativas ao lazer e ao desenvolvimento pessoal e social. “Qual é o propósito da vida? Para mim é encontrar felicidade, satisfação e conseguir apreciá- la, torná-la relevante. Isso pode ser alcançado pelo trabalho, mas também pelo lazer”, diz Edginton, 62 anos, que também é diretor e professor da Escola de Saúde, Educação Física e Serviços de Lazer da Universidade de Iowa (EUA). Ele esteve no Brasil como o principal nome do seminário Lazer em Debate, promovido recentemente pelo Senac e a Universidade de São Paulo.

 

ROMEO GACAD/AFP

"Hong Kong é um grande exemplo de cidade que desenvolveu um sistema de lazer público e privado. Em todo bairro há várias opções”

ROMEO GACAD/AFP

“Por segurança, as conexões entre as pessoas são mantidas pelo computador, pelo iPod e pelo iPhone"

ISTOÉ – Qual é a melhor definição para lazer?
EDGINTON

Há três maneiras clássicas para defini-lo. A primeira é que ele representa o tempo livre, no qual não se tem que trabalhar para garantir a subsistência. A segunda é que ele é a série de atividades em que um indivíduo está envolvido. Futebol pode ser uma atividade de lazer para uma criança, mas é um trabalho para jogadores profissionais. Mais recentemente surgiu uma nova definição considerando- o como um estado da mente – isso significa que ele pode ocorrer a qualquer momento, em qualquer lugar. Mas arrumar uma definição unânime sobre esse tema é mais difícil do que grudar uma gelatina numa árvore. Nos meios acadêmicos, nunca conseguimos entrar em acordo sobre isso. O que, de certa forma, é bom, porque o lazer é definido culturalmente. Não é certo que um americano defina o que é lazer no Brasil, mesmo em um mundo tão globalizado.

ISTOÉ – Em que época o culto ao lazer tornou-se importante?
EDGINTON

A estratificação do trabalho, sua organização social, criou uma espécie de dinâmica do lazer. As pessoas nas sociedades agrícolas tinham muito mais tempo do que nós. O tempo deles era regulado pelas estações e havia mais feriados, especialmente religiosos. Com a industrialização, os indivíduos passaram a ficar acorrentados a um esquema, a uma agenda, a uma máquina. Foram criados, então, o conceito de tempo de trabalho e tempo livre. O uso errado desse segundo se tornou um problema nos negócios e aí o governo começou a intervir. Basicamente, pelo menos nos Estados Unidos, os trabalhadores começaram a ir para tavernas, bebiam à noite e não conseguiam se apresentar para o trabalho no dia seguinte. Algo tinha que ser feito para tirar as pessoas dos bares. O lazer foi introduzido como um instrumento de controle social – e assim é utilizado em algumas sociedades até hoje.

ISTOÉ – Qual a relação dele com a saúde?
EDGINTON

As pessoas cada vez mais vêem o lazer ligado à saúde e ao bemestar físico e mental. Nas grandes sociedades, um dos maiores desafios enfrentados é a epidemia de obesidade que está por vir. Muito disso pode ser creditado à falta de atividades físicas durante o período de lazer das pessoas, associada a um hábito alimentar pouco nutritivo. E isso se torna um problema ainda mais sério quando começa a elevar os custos com saúde e assistência médica. Em 2006, ouvi de membros do governo chinês que, nos próximos 50 anos, um quarto da economia na China será focada em lazer e produção cultural. Nos Estados Unidos, em uma década, os gastos com lazer, serviços e bens aumentaram 1,3%, chegando a 8,3% da economia em 2004. Imagino a quanto esse percentual chegará em 50 anos.

ISTOÉ – Pessoas que dedicam mais tempo ao lazer são mais saudáveis?
EDGINTON

Seu uso positivo contribui para uma boa saúde física e mental. Mas eu conheço muitas pessoas que vão ao bar para beber e isso talvez seja bom para a saúde mental delas, mas não para a física. O lazer é como a força em Guerra nas estrelas – pode ser usado para o bem e para o mal. Temos que ajudar a população a usar seu tempo de lazer em benefício próprio e da comunidade.

ISTOÉ – Qual a importância do acesso ao lazer na terceira idade?
EDGINTON

A aposentadoria de meu avô de 97 anos já dura mais do que todo o meu tempo de trabalho, 35 anos. Quando penso no quanto minha profissão é importante para mim, imagino, quando estiver aposentado, ter uma outra vida inteira equivalente em tempo. É nosso dever assegurar que os idosos tenham acesso a programas, facilidades e serviços e a oportunidades de conhecimento e aprendizado. Uma alternativa, também, é buscar nessa fase novos significados para o lazer. Como tornar-se voluntário, por exemplo. E se todas as pessoas da sociedade brasileira com mais de 60 anos decidissem dedicar três ou quatro anos de suas vidas para trabalhar com crianças, por exemplo? Isso teria um impacto imenso na educação da população. É impressionante o número de pessoas entre 75 anos e 85 anos que ganharam um Prêmio Nobel. Nessa idade, ainda há muito a oferecer aos outros.

ISTOÉ – Como fazer com que sociedades culturalmente voltadas para o trabalho dediquem mais tempo ao lazer?
EDGINTON

Qual é o objetivo de quem trabalha muito? Com certeza não é trabalhar sempre mais, mas alcançar, de alguma maneira, a prosperidade, seja ela financeira, intelectual ou espiritual. Trabalhamos muito para nos posicionarmos, para que nossos esforços sejam recompensados com lazer. Veja quanto o trabalho é importante em nossa vida. Se eu perguntar o que você é, você me dirá: jornalista. O lazer ganha importância quando as pessoas começam a se definir a partir dele, como “eu jogo golfe” ou “eu danço” – e isso acontece cada vez mais. Outra coisa muito importante é que construímos um sistema que gera bens e riquezas, não para todos, claro, mas que produz recompensas materiais. Isso não está mais satisfazendo as pessoas.

ISTOÉ – Por quê?
EDGINTON

As pessoas não colecionam coisas materiais, colecionam experiências. Pense na sua infância. Você se lembra das cinco bolas de futebol que teve ou daquele jogo em que marcou o gol da vitória? São essas lembranças que o acompanharão para sempre.

ISTOÉ – É importante criar momentos de lazer em tudo o que se faz durante o dia, mesmo no trabalho?
EDGINTON

Todos precisam de equilíbrio em suas vidas. É necessário um tempo para reflexão, para se comprometer com os outros, para ter a oportunidade de aprender novas habilidades. Há muitas razões pelas quais o lazer é essencial. Mas a principal delas é porque ele é o meio pelo qual as pessoas medem a satisfação em suas vidas. Ele cria espaço e tempo para você aprender uma nova habilidade, adquirir sabedoria, rever valores, refletir sobre o relacionamento com outras pessoas – enfim, possibilita a transformação pessoal. Vivemos num mundo que se modifica tão drasticamente que precisamos de tempo para podermos mudar – e, se lazer é liberdade, ele propicia isso.

ISTOÉ – Como garantir e providenciar o acesso às classes menos favorecidas?
EDGINTON

Não acho que a resposta passe apenas pela intervenção do poder do Estado. O que os governantes devem fazer é criar políticas que permitam às empresas reformar suas estruturas financeiras e administrativas de modo que possam apoiar comunidades carentes com pequenos investimentos. Os governantes também têm que intervir nos serviços necessários e garantir que eles estarão disponíveis, seja em espaços abertos, seja em parques ou centros esportivos. E as organizações não-governamentais precisam liderar a causa e trabalhar para providenciar serviços, torná-los acessíveis, para que todos possam satisfazer suas necessidades de lazer.

ISTOÉ – É uma tendência que o lazer fique cada vez mais caro nas grandes cidades?
EDGINTON

Há uma diferença nas experiências das pessoas que moram em centros urbanos e as que vivem em lugares mais próximos da natureza. As segundas pescam, bebem cerveja, conversam, o lazer é mais informal. Nas grandes cidades, ele é mais estruturado – em edifícios, espaços designados, como cinemas e museus – mesmo os parques são lugares formais. Custa mais caro construir estruturas para o lazer nas áreas urbanas do que numa área mais informal. Isso não significa que não temos oportunidades mais casuais nas metrópoles: se você considerar lazer um estado de espírito, 95% das nossas experiências ocorrem em ocasiões sociais breves – como, por exemplo, quando saímos para o corredor e conversamos rapidamente antes de voltar ao trabalho. Mas o fato é que grande parte do lazer nos centros urbanos é feita dentro das residências. As pessoas ficam em seus casulos, como borboletas, com toda a sua tecnologia, porque é seguro. Trancamse as portas e as conexões são mantidas através do computador, do iPod, do iPhone.

ISTOÉ – Modernidades tecnológicas servem para aproximar ou distanciar os indivíduos?
EDGINTON

Para ambos, na verdade. Nós conhecemos o lado da tecnologia avançada da sociedade, mas será que entendemos o lado do contato humano avançado? As pessoas acham que podem se relacionar através de um toque no computador, mas o que realmente acontece nessas experiências online? Elas são apenas fantasia. Quando conversamos cara a cara, temos que nos relacionar em todos os aspectos como seres humanos. É uma convivência muito diferente da que praticamos através de uma máquina. O contato humano é muito importante e os ambientes voltados para o lazer criam oportunidades para todos manterem contato real entre si e com o mundo. Se acreditamos em valores humanos e na sociedade, isso sempre será importante.

ISTOÉ – Que metrópole no mundo seria exemplo na oferta de opções à população?
EDGINTON

Hong Kong é um grande exemplo de sociedade urbana que desenvolveu um fantástico sistema de lazer público e privado. Todo bairro tem um centro que oferece uma vasta gama de opções, como prédios com atividades físicas em um andar, biblioteca em outro, aulas de reforço para crianças em dificuldade na escola e um mercado de produtos saudáveis no piso térreo. Comunidades evoluídas também prezam a preservação de seus espaços – não há grandes cidades sem grandes parques.

ISTOÉ – O lazer é um jeito de medir o grau de democracia de uma sociedade?
EDGINTON

Se o lazer é liberdade, e a liberdade é essencial para uma vida e um aprendizado democráticos, então a resposta é sim.

ISTOÉ – Há alguma parte do mundo em que as pessoas simplesmente não têm lazer?
EDGINTON

O conceito de lazer está presente em todas as culturas, mas a indústria do lazer está estabelecida apenas em países desenvolvidos. Essa é a diferença.

ISTOÉ – Pessoas ricas se divertem mais?
EDGINTON

Não há relação direta entre a quantidade de dinheiro que você ganha e sua satisfação com o lazer. Há muito trabalho científico sendo feito recentemente na área de psicologia sobre a alegria humana. A maioria das pessoas bem ajustadas, por exemplo, é de classe média. Há alguns sistemas sociais e econômicos que geram fartura e todos podem tirar proveito disso. Mas há outros sistemas, como o socialismo e o comunismo, que não parecem funcionar efetivamente para gerar o tipo de inovação e criatividade que você encontra em sociedades capitalistas. Claro que as sociedades capitalistas tem seus pontos fracos também. Mas acho que não precisamos satanizar as empresas, e sim colocálas para trabalhar a nosso favor. Devemos encontrar um jeito de nos beneficiar dessa capacidade de gerar enriquecimento, inovação e criatividade.

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