Brasil

A volta do inferno

Depois do auto-exílio em Miami, Collor faz 50 anos e se prepara para disputar as eleições de 2002

A república das gravatas Hermès, do relógio Breitling, do uísque 12 anos Logan e das abotoaduras de ouro é coisa superada na vida pós-impeachment de Fernando Collor de Mello. Pelo menos em festa pública. Já o charuto continua sendo uma espécie de senha para agradar e mostrar quem é próximo ou, no mínimo, se identifica com o chefe. Os legítimos Havana se fizeram presentes na comemoração dos 50 anos de Collor, que entrou pela madrugada da sexta-feira 13. O bufê Favo de Mel, em Maceió, reuniu cerca de 800 pessoas, 200 a mais do programado pelos organizadores da homenagem.

O amargo caviar do auto-exílio em Miami, especiaria servida à vontade durante a festa na noite chuvosa, mas muito quente, serviu não só para a reflexão dos erros cometidos. A celebração em torno de Collor marcou também a introdução de novos hábitos na vida social daquele que volta, ou melhor, já está em campanha aberta para voltar à Presidência da República, embora continue com seus direitos políticos suspensos até o ano 2000. Collor, pouco a pouco, vai substituindo o Logan pelo Johnie Walker red label. Saem as Hermès, entram as italianas e mais sóbrias Zuccas. O champanhe deixa de ser Cristal. Assume a vaga a Veuve Cliquot, que na festa só teve fôlego até pouco depois da meia-noite. A fartura ficou por conta do uísque e da vodca, servida em doses generosas pelos 30 garçons e 15 copeiras que atuaram freneticamente para não deixar faltar nada ao seleto público formado pela fina flor de empresários e políticos alagoanos. Collor bebericou toda a noite um novo tipo de hi-fi tropical, importado de Miami: vodca Absolut misturada a um concentrado de morangos.

Os salões foram abertos às 20h30. Quinze recepcionistas, munidas de walkie-talkies, recebiam os convidados que passavam por uma câmera da TV Gazeta para gravar uma mensagem e posar para fotos. O piloto Jorge Bandeira de Melo, que comandou o morcego negro de PC Farias, o ajudando a fugir do País depois do escândalo que derrubou a República das Alagoas, entrou na fila das mensagens acompanhado da namorada, Luciana Lopes. "Presidente, o sonho não acabou", registrou, olhando firme para a lente e parecendo não se incomodar com os jornalistas. Bandeira, hoje com 44 anos, não considera um pesadelo tudo que ele e o governo Collor passaram. Não se arrepende de nada do que fez e anuncia que está disposto a ser piloto de Collor novamente durante a campanha. "Todo sonho pode ter também um lado ruim. Esse pesadelo a que vocês se referem foi provocado."

 

Toalha molhada – Antigos colaboradores e amigos como Pedro Paulo Leoni Ramos, que comandou a arapongagem do ex-SNI, o ex-deputado Cleto Falcão, e Luiz Romero, irmão de PC e o único Faria presente à comemoração, evitaram a câmera e não gravaram a mensagem espontânea. O mesmo fez o usineiro Carlos Lyra, irmão de João e tio de Thereza Collor. Denilma Bulhões, num longo prateado, chegou à festa anunciando que não quer saber mais de ser candidata. A ex-primeira-dama do Estado, que entrou para o folclore político por bater no então marido Geraldo Bulhões com uma toalha molhada, reclamou dos altos preços das eleições em Alagoas e jurou que seu negócio agora é ser avó. Mas quando o assunto é Collor, Denilma não foge da raia: "Se for candidato, o que acho que vai ser, eu voto. Eu ajudo sim, entro na campanha."

De braços dados com a mulher, Rosane, o homenageado chegou às 22h45 a bordo de um terno italiano Armani. O casal foi recebido pelo coral da Embratel, o Embracanto, que entoava Amigos para sempre. Já próximo do coral, ouviu Canção da América, aquela do refrão "amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito". Rosane, num elegante longo cinza do estilista inglês de vanguarda Alexander MacQueen, chamava atenção pelo generoso decote às costas e pela pequena e excessivamente brilhante bolsa em formato de cachorro, da estilista Judith Leider, presente do maridão. Collor rodou as 90 mesas, todas decoradas nas cores azul e branco, as preferidas do aniversariante.

 

Pinto no lixo – Mas não foi só a solidariedade e o carinho dos amigos que Collor teve direito durante a festa. O carioca alagoano, nascido sob o signo de Leão, fez discurso, chorou, cantou com o rei do brega, Reginaldo Rossi, e pode voltar a cerrar punhos, a usar a expressão "minha gente" e a fazer o V da vitória. O tom de campanha eleitoral crescia hora a hora, embora ele próprio insistisse em ressaltar que se tratava de uma confraternização entre amigos, sem cunho político. Parodiando Jamelão durante a visita de Bill Clinton à Mangueira, Fernando Collor parecia pinto no lixo. Na hora de cantar o Parabéns pra você, o ex-presidente foi para perto do bolo, decorado com uma bola de futebol e uma raquete de tênis. Para não fazer feio, toma fôlego e num sopro só apaga as 50 velinhas sob aplausos dos presentes e uma rápida salva de fogos. Ao lado dos três filhos, Arnon Affonso, Joaquim Pedro e o que agora se chama Fernando James Braz Collor de Mello, reconhecido recentemente, viveu o momento de maior emoção. Assistiu a um vídeo, produzido pelos filhos, com depoimentos dos irmãos Ana Luiza, Leopoldo e Ledinha. Collor chorou junto com os filhos ao ver as imagens do pai e da mãe, Leda. As lágrimas vieram também ao ver cenas da campanha que o levou à Presidência. Imagens de Collor andando na selva de caminhão se alternavam às dos preparativos para pilotar um caça. Rosane, ao homenagear o marido, revela o apelido íntimo do casal (Quinho e Quinha) e diz que os anjos desceriam do céu para protegê-lo para todo o sempre. Sem medo de ser feliz, usa um sem-número de vezes as românticas expressões "meu amor querido", "meu amor" e "eu te amo". O presente da Quinha para o Quinho foi um relógio Jaeger-LeCoultre.

 

Presentes – Quando as imagens da campanha apareceram pela primeira vez, ao som de Amanhã, de Guilherme Arantes, com Collor em meio ao povo, os convivas aplaudiram e gritaram palavras de ordem. O arcebispo de Maceió, dom Edvaldo Amaral, também não se fez de rogado. Gravou seu depoimento pedindo a volta do ex-presidente à política, mais precisamente ao Planalto. As imagens, selecionadas por Joaquim Pedro, faziam um lançamento oficioso da campanha do pai. Quem esteve na festa também ganhou presentes: 600 camisas foram distribuídas com o nome Collor bordado no peito e medalhas douradas com a efígie delle.

É chegada a hora do discurso. "Minha gente de Alagoas, Rio, São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Sergipe, Bahia, Minas, Amazônia, Goiás, Brasília e Miami", inicia assim o rápido pronunciamento, interrompido por palmas e gritos. Começou argumentando que soube da festa por inconfidência de uma jornalista, falou de emoções para pôr fim entrar na política. "Quero dizer a todos que meu coração continua com a mesma sinceridade, determinação e guerra. Assim que forem retomados meus direitos políticos, muito terei a fazer pelo Brasil e por Alagoas. Meu coração não guarda mágoas ou ressentimentos. Continuo olhando para o futuro." Em seguida, disse que quem não sabe virar uma página de um livro não sabe ler o livro. "O livro a que me refiro é o que contará melhor a história para as novas gerações. Meu desejo é mostrar ao mundo que o Brasil tem solução."

 

Sem buchada – Nos elogios não esqueceu da mulher, Rosane. "Como se faz para chegar aos 50 anos com saúde, paz e felicidade? Basta ter uma grande mulher como a que eu tenho. Ter filhos como os que tenho." Collor encerrou sua fala convidando os presentes a saborear os quitutes do bufê. "O que vamos saborear não é uma buchada do Canapi", brincou. Depois de uma musse de gorgonzola com fundo de alcachofra, salmão ao molho de amêndoas, medalhão de filé mignon, tendo como sobremesa crepe de pêras, foi a vez de Collor cantar e dançar ao som de um dos seus ídolos, o pernambucano Reginaldo Rossi. Ao saber da presença do cantor, assumido collorido, que já participou de várias campanhas do ex-presidente, Collor passou a se comportar como tiete. Acompanhou a canção Garçom ("Aqui nesta mesa de bar…") e depois subiu ao palco para cantar Yesterday, dos Beatles, com o rei do brega. Foram mais de duas horas de show. Collor e a mulher foram os últimos a sair da festa. O dia já estava claro, eram 5h42, quando Collor antes de entrar no Chrysler placa MUP (Mais Uma (vez) Presidente) 2002 acenou para os fotógrafos com o V da vitória.

 

Com data marcada
Collor garante que será candidato em 2002 e fala em implosão social

 

ANA CARVALHO E RICARDO STUCKERT (FOTOS) – Maceió

O dia previsto por Nostradamus para o fim do mundo foi uma espécie de Genesis para o ex-presidente Fernando Collor de Mello. Na véspera de completar 50 anos, Collor recebeu ISTOÉ em sua sala no jornal Gazeta de Alagoas com ares de quem se libertou do inferno astral. Segurando entre os dedos da mão direita um charuto cubano Montecristo número 4, embora o preferido seja o Hoyo de Monterrey, ele chega sorridente e com uma tranquilidade que nada faz lembrar o homem que cerrava os punhos para pedir votos, atacar e se defender. Com os direitos políticos suspensos até o ano 2000, ele não desiste. Quer ser presidente outra vez. Diz que não sabe quando será. O certo é que em 2002 vai disputar as eleições. Se elas fossem hoje, tentaria uma vaga para o Senado por Alagoas. Mas como até lá muita água correrá por baixo da ponte chamada Brasil, é possível que Collor resolva submeter-se ao julgamento popular, como gosta dizer, sendo candidato à cadeira mais cobiçada do Palácio do Planalto.

Vestindo calça e camisa Ralph Lauren, ele se mostra menos radical. Esportes, só tênis e futebol com o filhos, nas quadras que possui em sua ampla e confortável casa em Maceió. Vez por outra, o mergulho também entra na lista, isso sem contar a malhação para manter o corpo em forma e alimentar a alma. Completar 50 anos para Collor representa uma conquista: "Chego aqui com uma disposição que não tinha aos 30 anos. Não vou pedir que esqueçam o que eu escrevi", diz, ironizando uma frase atribuída ao outro Fernando, que queria ter visto em seu Ministério.

Apesar de ironizar o seu explorado gosto por marcas famosas, faz piada sobre seus calçados, um belo coturno da griffe italiana Prada. "Ora vejam vocês até o Rick Martin (cantor pop latino) tem um." Em seguida, diz que nunca foi amante das gravatas Hermès – que chegaram a ser um dos ícones de seu governo – e justifica: "Os nós eram finos demais." Collor diz que está lendo em média três livros ao mesmo tempo. Encantou-se com Viva o povo brasileiro, de Darcy Ribeiro, O lado negro de Camelot, sobre a era Kennedy, e As barbas do imperador, sobre dom Pedro II. De volta à política, Collor, apesar de ter medido cada palavra, é taxativo: "FHC está enfraquecido e o País empurrado para a implosão social com a falta de investimentos e o aumento do desemprego." Exercendo o papel de conselheiro político em Alagoas, ele tem conversado com todos os partidos. O governador Ronaldo Lessa (PSB) é um dos que têm se servido dos conselhos do ex-presidente para reorganizar seu governo.

Apocalipse e eclipse à parte, para Collor, que se define como um homem de fé, a nova era é palco perfeito para que ele exercite seu lado fênix e renasça das cinzas. As urnas é que determinarão se o mundo de Collor tem ou não data para acabar.

ISTOÉ – O sr. chegou a dizer que o programa do governo FHC era cópia do seu. Ainda pensa assim?
Fernando Collor – O meu governo serviu de ruptura de um Brasil antigo para um Brasil que se dispunha ingressar na modernidade. Esse programa constitui-se na base sobre a qual qualquer outro programa poderia se assentar para ter chances de êxito. O governo FHC teve alguns ganhos, sobretudo no combate à inflação, mas cometeu um grande pecado que foi a perda da dimensão social do programa. A partir daí, levou o País ao recorde de desemprego, falências e concordatas. É um desassossego absoluto em todas as áreas.

ISTOÉ – O que o sr. acha da cruzada de combate à pobreza patrocinada pelo senador Antônio Carlos Magalhães?
Collor – Acho que o senador Antônio Carlos Magalhães agiu corretamente. Os que fazem oposição à sua proposta dizem que ele nunca se preocupou com isso. É uma completa sandice. A esquerda deveria estar exultante por ter ganho um aliado. Todos devemos apoiar. Mais do que a idéia, ele apresenta uma proposta e a põe em debate, saindo assim da discussão estéril de saber quem está aplicando melhor – Brasil ou Argentina – as regras monetaristas cruéis e frias estabelecidas pelo FMI.

ISTOÉ – Quem manda, FHC ou ACM?
Collor – Se existe essa dúvida é porque o presidente está enfraquecido. O presidente é quem manda. É ele quem tem a caneta e o Diário Oficial. Nomeia e desnomeia. Quando se discute abertamente quem está comandando o País, quem está mandando mais, se o presidente ou um senador, isso é um sinal claro e inequívoco da fragilidade do presidente.

ISTOÉ – Só é possível governar na base do toma-lá-dá-cá? O sr. também adotou o é dando que se recebe?
Collor – Eu tenho muito cuidado quando se fala em fisiologismo. A regra política é essa. Nós vivemos em uma democracia e isso significa que os Três Poderes funcionam e que o presidente, para viabilizar suas propostas, necessita do apoio do Congresso. Você pode ter o melhor projeto, mas se ele não passa não valeu de nada. Então, cabe ao presidente buscar no Congresso a sustentação que garantirá também a governabilidade. Isso é pejorativamente chamado de toma-lá-dá-cá. Temos de tomar cuidado. O excesso é que é deplorável, por exemplo, o excesso havido por ocasião da reeleição. Isto é um toma-lá-dá-cá.

ISTOÉO sr. é favorável à manutenção de Pedro Malan no Ministério?
Collor – O Malan é apenas um executor da política econômica do presidente. No momento em que o comandante está fragilizado, fragilizam-se os subcomandantes. Malan é um deles. Começam-se a ouvir discordâncias, inclusive vindas do ninho que o presidente repousa, dando aos demais aliados chances de críticas. Um ministro da Fazenda não pode ser alvo de fritura, é ruim para o País. Enquanto durar isso e não se resolver o Malan, ficaremos mais fragilizados e sujeitos a ataques especulativos e ações que perturbam a já perturbada ordem econômica brasileira.

ISTOÉ – O sr. concorda com o ex-ministro Mendonça de Barros, quando ele, que é dirigente do PSDB, diz que o real fracassou parcialmente e o presidente deveria assumir isso?
Collor – O ex-ministro Mendonça de Barros é muito generoso quando fala em fracasso parcial do plano. O Real não existe mais. O que se tem de fazer é relançar idéias e propostas, aproveitando algumas conquistas do Real, e dar a essas conquistas direção correta e consciência social para sair da estagnação.

ISTOÉ – O atraso na desvalorização da moeda faliu o Real?
Collor – O governo estava no processo pré-eleitoral, ancorado no Real. Sabiam que tinham de mexer, mas tinham medo de perder a eleição. O mesmo aconteceu em 1986 com o Cruzado. Seguraram por causa da reeleição e, quando quiseram fazer as correções, as fizeram de forma atabalhoada. Vamos de mal a pior, caminhando para uma encruzilhada. Temo que seja algo de grande perigo.

ISTOÉ – O sr. ainda pretende ser presidente do Brasil?
Collor – Claro que sim.

ISTOÉ – O sr. voltará à política se candidatando ao Senado por Alagoas?
Collor – Meu projeto inicial é me submeter a um julgamento popular. Se esse julgamento me conduzir à Presidência, ótimo. Quando isso se dará, não sei. Sei que em 2002 vou disputar as eleições.

ISTOÉ – Perder foi um aprendizado?
Collor – Faz parte do jogo. Aprendi a perder, mas não foi agora. Na véspera do impeachment fui tentado a seguir o exemplo do presidente Fujimori, do Peru, e fechar o Congresso. Recusei por acreditar na democracia. Vários políticos e alguns militares estavam preocupados com a anarquia que viam surgir no Congresso e até pregavam o seu fechamento.

ISTOÉ – Pessoas envolvidas direta e indiretamente com o sr. e o impeachment tiveram mortes trágicas. Fala-se até numa espécie de maldição.
Collor – Sou um homem de fé, creio em Deus. Se eu não tivesse fé, seguramente hoje não estaria aqui falando com você. O que aconteceu a essas pessoas a que você se refere acredito que tenham sido desígnios de Deus. Do mesmo jeito que Deus põe, ele dispõe.

ISTOÉ – Quem foi, de fato, PC Farias na sua vida?
Collor – Fica difícil falar dos que já foram. Ele foi, desde o início, uma pessoa muito colaboradora. Ele ajudou e muito. Depois, alguns fatos aconteceram e isso nos distanciou.

ISTOÉ – O quê? Os cheques e as contas fantasmas?
Collor – É, uma série de coisas que me surpreenderam. São fatos já muito debatidos, dos quais fui considerado inocente pelo STF, mas isso não vem ao caso. PC foi um companheiro de primeira hora, de muito valor.

ISTOÉ – É difícil para um político reconhecer um filho fora do casamento?
Collor Para mim não foi difícil. Quem entra em política é vítima de muitas coisas, entre elas, isso. No momento em que notei que esse fato era recorrente, determinei que fosse feito um exame de DNA e quando chegou o resultado do exame mandei chamar James Fernando. Foi um momento emocionante e hoje convivemos, nos falamos diariamente. Hoje mesmo joguei tênis com ele.

ISTOÉ – Usar a Lurian (filha de Lula fora do casamento) na campanha foi um erro?
Collor – Eu já disse que hoje não cometeria isso. Foi um erro, mas a gente tem de analisar que, embora não atenue, estávamos no auge da campanha. Vi a gravação, achei forte, mas autorizei a divulgação. Foi um erro, me penitencio, mas foi uma decisão tomada sob extrema pressão e extrema agressão por parte dos adversários.

ISTOÉ – Quem seria seu maior adversário, Lula ou Ciro Gomes?
Collor – Antiguidade é posto. Sem dúvida o Lula, de quem eu fui eleitor em 1998, é o candidato mais forte que vejo.

ISTOÉ – Por que a esquerda perde?
Collor – A esquerda quer ganhar sozinha. Eleição majoritária é uma eleição ganha em função das alianças. Nessas últimas eleições, a união da esquerda foi capenga. Uma candidatura importante como a de Ciro Gomes acabou se tornando alternativa ao nome do Lula.

ISTOÉ – Ciro Gomes se mostra irritado quando lhe atribuem características suas. Ele se parece com o sr.?
Collor – Não, acho que cada um tem o seu estilo.

ISTOÉ – O sr. está vivendo exclusivamente das empresas?
Collor – É, e já faz bom tempo.

ISTOÉ – De quanto é a sua retirada?
Collor – Isso de novo não. Esse é um assunto de ordem interna e que já deu muito problema.

 

O príncipe herdeiro

Arnon Affonso jura que política não é sua meta, embora em Maceió muita gente aposte que o primogênito de Fernando Collor deva disputar as eleições para a Prefeitura de Maceió já em 2000. "Sou bisneto, neto e filho de político, mas não estou pensando nisso agora." Arnon, 22 anos, está há três semanas morando com o pai em Alagoas. Voz de homem, jeito de menino, despacha numa ampla sala no jornal Gazeta de Alagoas. Com retratos do avô e do pai pendurados na parede e o livro Netanyahu – the road to power em cima da mesa, Arnon dá tratos aos negócios da família nas organizações que levam seu nome, como gosta de dizer, e incursiona no mundo dos cartolas do futebol. Depois de experimentar sua primeira eleição, vai assumir no lugar do primo Euclides Mello na presidência do CSA, time que, a exemplo do Fluminense do Rio, para quem ele torce, disputa a terceira divisão.

"Minhas prioridades são os negócios da família, a montagem do Instituto Arnon de Mello e o CSA", insiste, como se não soubesse da trajetória do pai, que também chegou em Alagoas para assumir os negócios, passou pela presidência do CSA para, então, entrar na política. Formado em Economia pela Universidade de Chicago, Arnonzinho ressalta que o pai não influenciou em nada sua decisão de optar por Maceió em vez do Rio de Janeiro, onde vive a mãe, Lilibeth Monteiro de Carvalho, para dar início a sua carreira. "Ele não me forçou a nada, sempre me deixou à vontade para decidir. Acho até que ele chegou a preferir que eu desenvolvesse meu lado profissional começando pelo Rio. Mas, como todos sabem, o interesse do meu pai está mais voltado para a política. Sou o filho mais velho e devo assumir os negócios."

Arnon nega que tenha se isolado na Europa para não participar dos problemas políticos vividos por seu pai. "Quando meu pai estava na Presidência, eu era uma espécie de príncipe. Eu decidi estudar na Europa. É claro que, com aquele processo todo, eu não passava as férias no Brasil. Era muito difícil ver as revistas ISTOÉ e Veja metendo o cacete no meu pai, devassando a vida de minha mãe, que não era mais casada com ele. Foram anos de muito sofrimento, meu tio dizendo aquilo tudo. Ninguém me devolverá as pessoas que perdi. Mas passou. Está superado."