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Legião estrangeira

Enfraquecida no Brasil, a ultraconservadora TFP é alvo de investigações do Parlamento francês

Já não se vêem mais nas ruas das capitais brasileiras aqueles rapazes com cabelos cortados à escovinha, ladeados por gigantescos estandartes vermelhos, megafones em punho, a berrar estridentemente contra o divórcio, a reforma agrária e a igreja progressista. Nascida no Brasil em 1960, a organização católica ultraconservadora Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (mais conhecida como TFP) é hoje uma pálida sombra de seu passado, mergulhada em profundas divisões internas desde a morte do líder Plínio Corrêa de Oliveira, em 1995. Mas, se no Brasil a TFP parece relegada à lata de lixo da História, na França a organização está sendo considerada uma seita perigosa, que trocou as passeatas anticomunistas por campanhas de "assédio postal" contra direitos de minorias. A acusação vem de um relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre seitas da Assembléia Nacional Francesa (Parlamento) que acaba de ser divulgado e de organizações de defesa dos direitos humanos. Também o primeiro-ministro socialista, Lionel Jospin, acusou a TFP, que existe na França oficialmente desde 1977, de estar por trás das principais cruzadas moralistas dos últimos anos. A organização também estaria construindo um verdadeiro império econômico através de meios escusos.

 

Contra os homossexuais Definindo a TFP como "uma seita brasileira", o premiê Jospin responsabilizou a entidade pela violenta campanha contra o Contrato de União Civil (CUC). É um projeto que reúne para fins legais duas pessoas independentemente do sexo, podendo ser até irmãos, mas que é apontado como a efetivação do "casamento homossexual". Promessa eleitoral dos socialistas, até agora o CUC não conseguiu ser aprovado, apesar de a esquerda ter maioria na Assembléia. A entidade Avenir de la Culture (Futuro da Cultura) – uma das fachadas da TFP – despejou mais de 100 mil cartas de protesto na mesa de Jospin. O manifesto contra o projeto também foi enviado a mais de um milhão de pessoas. Luc Berrou, presidente da Futuro da Cultura, explica a tática: "A experiência mostra que quando centenas de milhares de cartas são enviadas ao primeiro-ministro, o staff faz disparar todos os alarmes." Tempos atrás, outra cruzada, contra um programa de educação sexual na tevê, gerou uma avalanche de 600 mil cartas contra o governo. Para dar uma idéia do tom da campanha contra o CUC, basta citar trechos do Manifesto contra o infame e repugnante projeto de pseudo ‘casamento’ homossexual: "A sodomia é um vício abominável, contra a natureza, condenado pela Igreja Católica e pelas Sagradas Escrituras. O projeto CUC é uma aberração jurídica, um golpe mortal contra a sociedade e uma revolta aberta contra a ordem natural das coisas estabelecidas por Deus. Você quer que amanhã um casal de homossexuais fique olhando seu filho na saída da escola? Os sodomitas contam com a sua inércia!"

A TFP também estaria ameaçando um médico, o doutor Israel Nizand, autor de um relatório encomendado pelo Ministério da Saúde sobre a situação do aborto (legal na França). Atualmente sob proteção policial, Nizand recebeu mais de 300 cartas por dia, com ameaças e insultos anti-semitas, resultado da campanha organizada por "Direito de Nascer" – outra organização de fachada. Algumas o acusam de querer "abrir a porta aos muçulmanos, o esgoto da França". "Eu nunca tinha ouvido falar na TFP e que existe uma seita brasileira por trás ou não, para mim dá na mesma", afirmou Nizand a ISTOÉ, que está processando a Direito de Nascer. A ameaça foi considerada grave o bastante para que vários deputados se manifestassem oficialmente, interpelando o governo na Assembléia e exigindo providências.

 

Em busca de provas Como todas as seitas apontadas no relatório da CPI, a TFP é objeto da vigilância discreta da polícia e dos Renseigments Généraux, o serviço de contra-espionagem francês. Organizações de direitos humanos também estão se mobilizando. Uma ONG que está reunindo provas contra a TFP é a Réseau Voltaire, que defende a laicidade, os direitos humanos e as liberdades individuais. "Nosso objetivo é fornecer informações e análises que sirvam de base ao debate político", diz Thierry Meyssan, dirigente da Réseau. Durante meses, eles investigaram as atividades da TFP na França, encontraram membros e dirigentes da entidade. "Para nós, não interessa saber se a TFP é uma seita ou não. A própria palavra é pejorativa. ‘Seita’ são sempre os outros, os bandidos; e os mocinhos são as igrejas oficiais. Para nós, a TFP é um movimento de extrema direita, altamente perigoso, que defende interesses econômicos dos latifundiários, da aristocracia, a volta do sistema anterior à Revolução Francesa", acusa Meyssan.

 

Império econômico Segundo a Réseau Voltaire, a TFP está ativa hoje em 22 países. Ela estaria formando um verdadeiro império econômico na França, sendo proprietária, através da Futuro da Cultura, do Castelo de Jaglu, comprado em 1991 por 4,5 milhões de francos (quase US$ 1 milhão), de uma gráfica, L’Européene des Médias, que imprime os jornais de 15 TFPs, e de um centro de informática capaz de expedir 15 mil cartas por dia. Cerca de 250 mil pessoas recebem correspondência da organização. Cada carta vem com um pedido de "ajuda moral e financeira" que rende 20 milhões de francos/ano (cerca de US$ 4 milhões). Além disso, as listas de nomes seriam alugadas a empresas comerciais por 2,5 milhões de francos (US$ 500 mil) por ano.

Para a Associação de Defesa da Família e dos Indivíduos contra as Seitas (ADFI), a maior organização de luta contra as seitas da França, a Futuro da Cultura e a TFP utilizaram a luta contra o Contrato de União Civil para construir uma máquina de fazer dinheiro. "Para cada pessoa que assinava, eles pediam 200 francos e angariaram uma verdadeira fortuna", afirmou um funcionário da ADFI a ISTOÉ. Segundo a revista Bulle, publicada pela ADFI, a gráfica Européene des Médias edita tanto o jornal Flash, da Futuro da Cultura, quanto Le Nouvel Aperçu, da TFP, assim como os milhões de impressos enviados via mailing dessas "associações gêmeas", e funciona a todo vapor. Segundo cálculo da ADFI, para saber quanto rendeu a campanha contra o CUC, basta multiplicar 300 mil por 250 francos, a contribuição média.

"Na França, a TFP usa a Virgem de Fátima e a campanha contra o CUC para ganhar dinheiro. Pedem uma contribuição de pelo menos 250 francos para ajudar na campanha. O alvo da abordagem são os nostálgicos do passado, idosos, famílias tradicionalistas e pessoas místicas que se refugiam no culto da Virgem Maria. Eles organizam peregrinações, noites de oração, rosários, passeiam a estátua de Nossa Senhora para lá e para cá. Esse apelo ao culto da Virgem funciona muito bem junto a pessoas que estão sofrendo. O que é incrível é que eles chegam a organizar orações em paróquias, sem que o vigário seja informado, à margem da igreja oficial, porque eles têm péssimas relações com a Igreja. Eles são extremamente perigosos porque utilizam mensagens da Igreja Católica para outros fins, sem dizer quem eles são", diz a Bulle. Para o padre Jaques Trouslard, o maior especialista em seitas da França, "o perigo de toda seita é que ela faz seus adeptos perderem o espírito crítico e o livre arbítrio, através de técnicas de manipulação mental. A escravidão mental é pior que a morte."

 

"Seita são os socialistas"

Em entrevista exclusiva a ISTOÉ, o presidente da TFP francesa, Benoît Bemelmans, 37 anos, diz que governo socialista pratica uma política de perseguição religiosa.

ISTOÉ – Como vocês reagiram à catalogação da TFP como uma "seita perigosa" pelo Parlamento?
Benoît Bemelmans – Para nós existe algo de profundamente inquietante nessa política do governo francês. A perseguição religiosa vai recomeçar. Esse clima de intolerância atinge também outros movimentos católicos e parece anunciar a instauração de uma verdadeira ditadura anti-religiosa. Essa ofensiva quer acabar, definitivamente, com a influência dos católicos neste país. Na verdade, seita são os socialistas – hoje no poder na França – e seus aliados de esquerda. Todos os papas, nos últimos 150 anos, catalogaram o socialismo, o comunismo e a franco-maçonaria como seitas perigosas.

ISTOÉ – Qual a relação entre a TFP brasileira e a francesa?
Bemelmans – A TFP brasileira não é uma sede, mas a primeira de todas. No plano jurídico e financeiro não há relação entre as TFPs. Elas são autônomas. As pessoas dizem que nós passamos dinheiro de um país para o outro, conforme a necessidade, que nós o recebemos ou enviamos ao Brasil. Tudo isso é mentira.

ISTOÉ – Por que a TFP é mais ativa na França que no Brasil?
Bemelmans – Não sei do Brasil. Na França nós fazemos oposição cerrada ao governo socialista porque acreditamos que ele está destruindo o que resta da civilização cristã. No ano passado Lionel Jospin, falando sobre o CUC, disse que "por trás da oposição ao projeto está uma seita brasileira". Pela maneira como ele disse isso, Jospin pode ser acusado de xenofobia e racismo. Eu tenho orgulho de estar ligado ao Brasil.

ISTOÉ – Qual a origem dos fundos da TFP?
Bemelmans – Cerca de 90% vêm dos doadores, em geral pequenas doações. Chegaram a dizer que certos donativos atingem um milhão de francos. Bem que eu gostaria, mas é longe de ser o caso! A média de donativos da TFP é cerca de 200 francos. Para uma associação ativa, da qual todo mundo fala, que faz o premiê ter crises na televisão, nós fazemos milagres com pouco dinheiro.

ISTOÉ – Qual o orçamento anual da TFP?
Bemelmans – Em geral, por volta de seis milhões de francos.

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