Brasil

Doce da Amazônia

Coca-Cola usa açúcar da floresta e dá novo sabor à vida de 22 mil pessoas

A Coca-Cola que dois milhões de pessoas vão beber durante as Olimpíadas, no outro lado do mundo, tem o gostinho da Amazônia. Uma usina encravada na floresta, numa paisagem rodeada de igarapés, produz o açúcar que adoça o refrigerante mais vendido em todo o País e que sai daqui para a Austrália. No caminho do território da onça-pintada à terra dos cangurus, o produto da Usina Jayoro ajuda a dar um sabor diferente à vida dos moradores da pequena Presidente Figueiredo, a 107 quilômetros de Manaus. No município, de 22 mil habitantes, dos quais apenas sete mil vivem na área urbana, a produção de 16 mil toneladas de açúcar por um ano, num canavial de 590 quilômetros quadrados, é sinônimo de mais de dois mil empregos diretos e indiretos.

Em consequência, o distrito-sede tem todas as ruas asfaltadas e sobram vagas nas escolas. “A usina funciona como um programa social para o município. Os empregos gerados por ela ajudaram até a diminuir os índices de alcoolismo e de divórcios entre a população”, afirma o prefeito de Presidente Figueiredo, Fernando Vieira. “Além disso, o empreendimento abre portas para que outras agroindústrias se instalem por aqui.”

A Jayoro nasceu em 1984, no rastro de financiamentos e incentivos fiscais do Pró-Álcool. Levou quatro anos para começar a produzir. A primeira colheita resultou em menos de 500 toneladas de açúcar. Com a ajuda oficial minguando, fustigada pelo clima implacável da região e cortada por uma estrada de terra – frequentemente interditada por causa das chuvas –, a usina entrou em processo de decadência. Em 1994, as máquinas pararam e restou apenas um pequeno engenho, suficiente para dar conta da produção de 100 toneladas por ano.

Uma doce coincidência tirou a Jayoro da lista interminável de projetos agroindustriais fracassados na Amazônia. A Coca-Cola precisava de açúcar para abastecer sua única fábrica de concentrado, instalada na Zona Franca de Manaus. Ela é uma das cinco maiores do mundo e abastece a 49 fábricas no Brasil. Além da Austrália, exporta o concentrado para o Paraguai, Colômbia e Venezuela. Levar o açúcar do Sul ou do Centro-Oeste do País encareceria demais os custos. O jeito era produzi-lo na região. A usina, embora funcionando em condições precárias, tinha espaço para ampliar a plantação e maquinário. O casamento aconteceu em 1995. De lá para cá, a Coca-Cola já investiu R$ 48 milhões na Jayoro. A área plantada passou de 400 para 2.618 hectares – a meta é chegar a quatro mil hectares em 2003. “A tecnologia da Jayoro nada fica a dever à das maiores usinas do Sul do País”, diz o diretor de relações governamentais da Coca-Cola, Jack Corrêa. “É a única empresa de açúcar da Coca-Cola no mundo”, acrescenta ele.

Energia – Para justificar o título, a Jayoro é um show de tecnologia em plena selva. A usina produz toda a energia que consome a partir do bagaço da cana. O bagaço do bagaço vira adubo. Em viveiros, agrônomos testam as espécies mais adaptáveis ao clima da região. Em 1984, eram quatro. Hoje, são 26. A tarefa mais complicada é treinar mão-de-obra, já que Presidente Figueiredo não tem tradição agrícola. Para resolver o problema, há dois anos, um grupo de lavradores do norte de Minas Gerais foi convocado para ensinar os trabalhadores da usina a colher cana. Quem aprendeu a tarefa desfruta agora de uma série de benefícios. “Aqui não tem bóia-fria. Levamos as refeições em quentinhas para o pessoal que está na lavoura”, diz o diretor-presidente da Jayoro, Francisco Magid. “Também temos um compromisso de não permitir a presença de crianças no campo”, conta o empresário.

Com o treinamento, a produtividade dos cortadores de cana passou de 800 quilos/dia para cinco toneladas/dia. Mesmo assim, a empresa vai investir na mecanização da lavoura. Em três anos, 65% do trabalho será feito por máquinas. Dessa maneira, será possível diminuir as queimadas no canavial, uma prática nociva ao meio ambiente. Para facilitar o trabalho dos lavradores – e evitar a presença de cobras e outros animais –, a área de colheita manual é queimada antes de o processo começar. “A substituição de homens por máquinas vai ser gradativa, porque não podemos acabar com postos de trabalho de uma hora para outra”, diz o prefeito de Presidente Figueiredo. “De qualquer modo, também precisamos preservar a natureza, porque ela é outra fonte de renda importante para a cidade”, acrescenta Fernando Vieira, de olho nos turistas atraídos pelo paraíso ecológico de 38 cachoeiras e inúmeras corredeiras catalogadas no município.

Na trilha – O número de turistas e ecoaventureiros deverá amentar com o asfaltamento da BR-174, que corta Presidente Figueiredo. E o açúcar levará menos de duas horas para chegar da usina à fábrica do xarope, em Manaus.“Perdi a conta das vezes em que briguei com gente que não acreditava que a terra daqui era boa para plantar cana. O problema era a falta de condições. Quase não havia mão-de-obra e a estrada era precária. Às vezes, os caminhões ficavam atolados três dias na estrada”, lembra o supervisor agrícola da usina, Fabiano Romero, responsável pelo plantio das primeiras mudas, em 1984. “Quando começaram a ocupar o Centro-Oeste do Brasil diziam que a terra não prestava. Hoje, a região é um celeiro. Aqui vai ser a mesma coisa. É muito gratificante ver o açúcar saindo das bicas, saber que dezenas de famílias sobrevivem da usina. Só tenho motivos para me orgulhar”, afirma Romero, desde 1974 trabalhando na Amazônia em projetos agroindustriais.