Cultura

Façanhas literárias

Em Inventário das sombras, José Castello revela o indiscreto charme dos escritores e suas manias

Ao traçar os perfis de 15 escritores em Inventário das sombras (Record, 302 págs., R$ 28), José Castello faz o jornalismo visitar a literatura, de tal maneira que ao fim dos encontros o leitor não apenas conhece melhor os escritores visitados, como enxerga sob novas luzes a criação literária. Do conjunto das visitas, nasce um desenho nítido das limitações do jornalismo diante do ilimitado da arte e a percepção de que nós, leitores, não somos apenas alguém que escutou a conversa atrás da cortina. É na cabeça do leitor, e só lá, nos lembra Castello, que um livro deixa de ser um monte de folhas para se concluir como experiência literária.

O repórter nesse Inventário é um ser que hesita com o dedo na campainha, mas se obriga a enfrentar seus monstros sagrados. É alguém que se acanha ante a recusa ríspida de homens e mulheres cansados de ser amolados por jornalistas inoportunos, mas conta até três e telefona de novo. É alguém que vive em táxis, estações ferroviárias, poltronas apertadas de avião, correndo contra o tempo. É alguém que vive assombrado pelo medo de fracassar e olha com admiração e gula as façanhas de seus entrevistados. O escritor, como atestam esses perfis, é um ser imprevisível, motivado por uma variedade infinita de circunstâncias. Clarice Lispector escrevia à procura do desconhecido. Para Adolfo Bioy Casares, escrever era inventar tramas. A José Saramago pouco importa a trama: "O livro deve expor o homem." Caio Fernando Abreu, que cultivou a melancolia, celebrou a vida ao saber que era soropositivo. Ao curar-se de um derrame que destruiu sua noção de eu, o português José Cardoso Pires concluiu que a invenção torna-se modesta, quando a realidade é muito devastadora. Optou pela descrição para contar o que viveu. E o poeta Manoel de Barros afirma: "Quem descreve não é dono do assunto. Quem inventa é."

Neste olimpo literário, os maiores gênios também podem ser acometidos de fragilidades desconcertantes. Depois de receber Castello em 1980 para uma série de entrevistas, Nelson Rodrigues passa a lhe telefonar a toda hora. Quer saber inutilidades como o cardápio de seu almoço ou o ponto de cozimento das batatas. Castello atribui o cerco à carência incurável de Nelson. Os autores deixam à mostra todo tipo de sentimento quando falam de si. O francês Allain Robe-Grillet, um dos fundadores do nouveau roman, parece vaidoso ruminando mágoas em um castelo gélido na Normandia. Num sítio varrido de sol, em Campinas, Hilda Hilst exibe sarcasmo para responder à imagem de autora maldita. Enquanto Ana Cristina Cesar deixa ver a dolorosa incapacidade de unir a artista à mulher bonita, como se a poeta fosse condenada a ser só espírito e a mulher, só corpo.

Frequentemente o escritor não deixa o jornalista ver nele o que deseja. Com inesperada desenvoltura, Manoel de Barros despedaça a figura do homem simples que seus poemas sugeriam. E em situações assim, Castello aceita trocar a segurança de seu projeto pela aflição do desconhecido. Vinte anos de experiência, em publicações como os jornais Opinião, Jornal do Brasil, O Estado de S.Paulo, e nas revistas Veja e ISTOÉ – da qual é hoje colaborador –, ensinaram-lhe que é desses momentos que surgem as melhores revelações. Acumuladas ao longo dos anos, suas descobertas e conclusões constituem sua formação, um repertório fascinante que José Castello tem a generosidade de compartilhar.

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