Cultura

Acervo de mentira

Polícia carioca apreende cerca de 400 telas falsas de grandes pintores

Uma prosaica casa de vila no bairro carioca de Copacabana guarda um acervo de cerca de 400 quadros com assinaturas de Salvador Dalí, Fernando Botero, Emiliano Di Cavalcanti, Cândido Portinari, José Pancetti e outros nomes milionários de fazer inveja a muitos museus internacionais. Seria uma verdadeira mina de ouro, não fosse por um detalhe: segundo a polícia do Rio de Janeiro, as pinturas são falsas. As telas pertencem ao pintor Benjamin Silva e os agentes da Delegacia de Defraudações – que invadiram a residência do artista na segunda-feira 19 – investigam a possibilidade de Silva ser o autor das falsificações. O caso repetiria na vida real a cara-de-pau do personagem Eliseu Vieira da novela global das oito Suave veneno, que sem a menor cerimônia estreou na carreira de falsário copiando um quadro de Caravaggio. Silva – um pintor cearense, 72 anos, que adotou os óculos escuros por conta de um descolamento de retina que cegou seu olho direito – diz que não pintou as obras e as comprou ao longo dos anos. "Se são falsas, a vítima sou eu, que paguei por elas." Esta seria a maior apreensão de quadros frios no mercado brasileiro de arte.

Ao contrário do Eliseu de Rodrigo Santoro – jovem artista desconhecido, em início de carreira –, Benjamin Silva tem prestígio no meio das artes plásticas como atesta Jones Bergamin, diretor da Bolsa de Artes do Rio de Janeiro. "Ele é bastante conhecido, pode viver tranquilamente do seu trabalho." Outro que o conhece bem é o colecionador Gilberto Chateaubriand, que tem em seu acervo obras pintadas por Silva. "Estou estarrecido. É um artista reconhecido por marchands brasileiros e americanos", comenta. Sua qualidade de pintor é comprovada por nomes como Walmir Ayala, Quirino Campofiorito, Roberto Pontual e outros experts. Este renome torna ainda mais incompreensíveis os motivos que o levaram a amontoar em seu ateliê o descomunal acervo de obras falsas ou de autenticidade duvidosa. "O objetivo de todo comprador de arte é aproveitar a oportunidade de adquirir bons quadros pelos preços mais baixos – se possível, de graça", explica Silva.

É esta linha de raciocínio que ele usa para tentar justificar a origem das telas. Diz que foram compradas de colecionadores em final de vida, parentes de pintores que passavam por dificuldades financeiras e até de recolhedores de entulho. O quadro de um excelente pintor americano de origem holandesa desconhecido do grande público, Willem De Kooning, Silva afirma ter adquirido de um homem que carregava uma carroça com várias bugigangas. "Paguei R$ 150 e pode valer milhões", explica. Também foi por um preço irrisório que ele teria comprado dois Botero, embora Silva afirme ter desconfiado de que não eram legítimos. "Queria apenas aproveitar as telas, que eram de linho de boa qualidade e de um bom chassi. Uma delas já comecei a cobrir com uma pintura minha." As 19 telas assinadas por Pancetti, que foram apreendidas pela Delegacia de Defraudações, Silva garante que lhe foram vendidas por uma antiga amante do pintor chamada Alzira Krauer, que residiria na cidade de Barra de São João, no interior do Rio do Janeiro. "Os recibos estão em poder da polícia", diz ele.

Pinturas grosseiras – A explicação de Silva não convence muita gente, principalmente marchands como Jean Bogichi. "Nem que Jesus Cristo desça à Terra alguém vai me fazer acreditar que aquelas pinturas grosseiras são legítimas." Enquanto os peritos não dão a palavra final, resta ao mercado de arte avaliar as consequências. Recentemente, o galerista José Maria Carneiro, dono da Pinacoteka, no município fluminense de Teresópolis, foi acusado de vender quadros falsos de pintores como Cícero Dias e Milton Dacosta. "Casos assim não abalam o mercado. Quem compra as verdadeiras obras de arte não cai nessas armadilhas, sabe reconhecer a qualidade da pintura", acredita Bogichi. Gilberto Chateaubriand não concorda. Acha que o mercado sente sim as consequências. "É claro que há um abalo. Há 20 anos houve um derrame de obras falsas de Djanira no mercado e só agora os quadros dela estão voltando a ser comprados normalmente."

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