Economia & Negócios

Na cola da AmBev

A união de Antarctica e Brahma é atacada pela Kaiser, mas o que está em jogo é a briga com a Coca-Cola

Fala advogado, fala executivo e, na AmBev, todo mundo faz questão de passar um só recado: a grande oportunidade no negócio é o setor de bebidas não alcoólicas. A fusão da Brahma e da Antarctica nasceu com 71,7% das vendas de cerveja no Brasil, sem margem para crescer muito, mas tem apenas 19,9% dos refrigerantes, diante do poderio dos quase 50% da Coca-Cola. Cutucaram a gigante. Na AmBev, um dos próximos passos será mudar a fórmula do guaraná Brahma, aproveitando a tecnologia da Antarctica. Com Pepsi e guaranás fortes, ficará mais fácil brigar com a multinacional americana. Em um relatório do banco Bear Stearns, de 1998, lê-se que "Pepsi, Brahma, Antarctica e os pequenos independentes não ofereceram um portfólio completo de bebidas aos consumidores entre 1993 e 1997, e certamente pagaram esse preço à Kaiser e à Coca". A gigante americana tem a marca mais lembrada no mundo, mas atravessa alguns problemas no País. Está tentando enxugar seu quadro de engarrafadores e vinha perdendo mercado para os refrigerantes de segunda linha, as tubaínas, que já abocanharam 30% das vendas. Um distribuidor concorrente diz que a Coca baixou tanto o preço que os refrigerantes de dois litros chegaram a custar R$ 0,84 em São Paulo, tornando a competição nesse tipo de embalagem inviável. Ficou, na AmBev, a certeza de que a Coca se sentiu ameaçada e que está por trás das ações da concorrente contra a fusão. O presidente da Kaiser, Humberto Pandolpho, não quis falar sobre o assunto.

As empresas estão lavando roupa suja em público. A Kaiser publicou um anúncio mostrando retalhos de rótulos das marcas da AmBev, sob o título "Com fusão". Sugere que quem domina o mercado domina o preço. Na tevê, a cervejaria ressuscitou o "Baixinho" para dizer a um consumidor que escolhe a cerveja apenas pelos rótulos que só a Kaiser não mudou. A reação da AmBev foi rápida e forte. Em anúncios igualmente ostensivos, respondeu que a Coca não gosta da AmBev porque táticas predatórias não vão funcionar contra uma multinacional verde-amarela e porque as vendas casadas serão menos eficazes (técnicas, diga-se de passagem, já utilizadas por Brahma e Antarctica no passado). Disse também, com todas as letras, que a Kaiser pertence ao Sistema Coca-Cola. A subsidiária brasileira tem 11% da cervejaria, a holandesa Heineken, 14% e os engarrafadores Coca-Cola, 75%. Mas a Coca ainda é acionista das engarrafadoras, o que indiretamente aumenta sua fatia na Kaiser. "A Kaiser é uma empresa deficitária, não investiria tanto em marketing contra a AmBev", ataca uma fonte da AmBev. Segundo uma análise recente do banco ING Barings, a Kaiser teve prejuízo de US$ 22,6 milhões em 1998, e de US$ 26,4 nos cinco primeiros meses deste ano. A AmBev não descarta ainda um anúncio em jornais estrangeiros explicitando o poder da Coca sobre a Kaiser. O momento é propício: a Coca anunciou queda nos lucros depois do escândalo do produto contaminado na Europa.

O vaivém de farpas chegou ao governo. A Secretaria de Direito Econômico (SDE) afirma que, se as acusações tiverem fundamento, irá investigá-las. "Pelo menos agora os planos da Kaiser apareceram. Agora a briga é mais honesta", afirma um dos advogados da AmBev, Carlos Francisco de Magalhães. Por enquanto, há a decisão do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o órgão incumbido de dar a palavra final sobre a fusão, de interromper qualquer medida prática: Brahma e Antarctica não podem demitir nem fechar fábricas até sair a decisão, que promete ser acelerada pela autarquia. Na semana passada, antes do aviso do Cade, 20 a 30 executivos da Brahma plantaram-se na sede da Antarctica, no bairro da Mooca, em São Paulo, para conversar com seus pares. E o diretor-geral da Antarctica, Victório De Marchi, até despachou na Brahma. Esta semana, menos gente participou do intercâmbio e o anúncio da nova diretoria da empresa não foi feito. Mas os estudos não pararam

 

Faz ou desfaz O primeiro indício do sinal verde do Planalto veio do próprio presidente Fernando Henrique, que já admitiu aos diretores da AmBev sua simpatia pela fusão. Mas o presidente do Cade, Gesner Oliveira, e os advogados da empresa têm tido algumas divergências. Oliveira acha que tudo pode ser desfeito, enquanto Magalhães considera alguns procedimentos irreversíveis, já que as cervejarias viram os números uma da outra. Na ponta, os revendedores acatam a fusão e não acreditam em cartel de preços. "Sempre vimos que Brahma e Skol competiam duro nas vendas, apesar de estarem sob o mesmo guarda-chuva", afirma o presidente da associação de revendedores Antarctica, Cheda Saad Júnior. "Brahma e Skol estão na frente em termos de distribuição. A AmBev deve transferir know-how para a Antarctica", diz o presidente da federação dos revendedores Brahma, Carlos Alberto da Fonseca. A batalha continua.

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