Brasil

A terra escrita

Antologia literária retrata 500 anos de conflitos e exclusão na sangrenta relação agrária no País

A luta do homem por terra, trabalho e pão se perde no tempo. Há séculos se procura uma solução, mas a concentração de terra só tem aumentado e o conflito anuncia que vai vingar e entrar firme no século XXI. Os últimos dados da Comissão Pastoral da Terra mostram que mais de 500 mil pessoas estiveram envolvidas em confrontos no campo em 1997. Trinta pessoas foram assassinadas. Para mostrar os quase 500 anos da luta sangrenta travada pela ocupação e exploração do solo tupiniquim, o professor da USP Flávio Aguiar lança um novo olhar sobre esse drama. No livro Com palmos medida, que estará nas livrarias em agosto, ele reúne textos de várias cores e autores que abordam o tema desde a chegada dos portugueses à ilha de Vera Cruz até o embrião do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) no fim da década de 70.

A antologia, prefaciada pelo crítico literário Antônio Cândido, é iniciada com trechos da carta do escrivão da frota do navegador Pedro Álvares Cabral, Pero Vaz de Caminha, que revela a cobiça do descobridor pelo novo território em seus escritos ao rei de Portugal. O eixo da coletânea é terra, trabalho e conflito na literatura brasileira. Os textos estão organizados em ordem cronológica e é estabelecido um paralelo entre épocas e escolas da literatura, numa cuidadosa escolha cuja pesquisa levou três anos. Revelador, o passeio pela literatura com os olhos voltados para a terra é feito através das obras de alguns dos mais importantes pensadores da vida brasileira.

O período colonial abrange textos de catequese e de literatura de viagem. Os sermões do padre Vieira feitos para os escravos são peças exemplares dessa linha. Mostram que, embora o religioso aceite a escravidão, denuncia os maus-tratos. "Estes corpos não nascem e morrem, como os nossos? Não respiram o mesmo ar? Não os cobre o mesmo céu? Não os aguenta o mesmo sol? Que estrela é logo aquela que os domina, tão triste, tão inimiga, tão cruel?", questiona o religioso.

Em seguida, a antologia passeia pelo século XVIII, período iluminista, que considera a escravidão desagradável, mas a trata como um fato inexorável da vida. É justamente nesse tempo que, além da descrição do trabalho da terra, aparece pela primeira vez o índio para reivindicar o seu quinhão.

"Que estas terras que pisas, o Céu livres
Deu aos nossos avós; nós também livres
As recebemos dos antepassados
Livres as hão de herdar os nossos filhos
Desconhecemos, detestamos jugo,
Que não seja o do Céu, por mão dos padres

As frechas partirão nossas contendas", relata o poema épico do mineiro Basílio da Gama, publicado em 1769, obra que descreve a ocupação do território dos Sete Povos das Missões, hoje parte do Rio Grande do Sul.

No Império, a escravidão vai se tornando uma questão literária central até chegar aos últimos românticos, como Castro Alves. Os versos do poeta baiano, como os de Tragédia no lar, eram à época declamados nos salões da colônia. Não raro, protagonizavam encontros furtivos realizados por ardorosos abolicionistas.

"Vinde ver como rasgam-se as entranhas
De uma raça de novos Prometeus,
Ai! Vamos ver guilhotinadas almas
Da senzala nos vivos mausoléus"

E é finalmente na consolidação do Império que surge a tese de que não se resolve o problema da Nação sem encerrar de vez a barbárie da escravidão. Esse, inclusive, é o lema do pronunciamento de José Bonifácio na Constituinte de 1823. "A escravidão passa a ser vista como falha no caráter nacional. Isso deixou marcas na nossa cultura e comportamento das quais não conseguimos nos livrar", considera Flávio. A exploração de temas sociais se aprofunda no período do modernismo e na década de 30, retratada por autores como o integralista Plínio Salgado.

A literatura capta a complexidade dos problemas do campo. A decadência da cultura cafeeira é retratada com grande sensibilidade por um conto de Monteiro Lobato, Café! Café!, publicado em 1919 no livro Cidades mortas, que fala sobre um fazendeiro que perde tudo numa geada e enlouquece.

"O major enlouquecia. Estava à míngua de recursos, endividado, a fazenda penhorada, os camaradas desandando, os credores batendo à porta. Já ia para três anos que o produto das safras não bastava para cobrir o custeio. Três déficits sucessivos devoraram-lhe as economias e estancaram as fontes."

 

A produção literária acompanha também os momentos de tensão social. Com o fim do Estado Novo e da Segunda Guerra Mundial, o País é tomado por reivindicações. A questão do campo torna-se aguda. Surgem as ligas camponesas, as propostas de reforma agrária e a literatura passa a flertar com o combate social. Em João Boa Morte, cabra marcado para morrer, do maranhense Ferreira Gullar, o personagem principal é o líder das Ligas Camponesas do Nordeste morto a mando de latifundiários, é um exemplo.

A seleção chega à ditadura e sua derrocada. Nos dois momentos há preocupação com esse legado. "A literatura revê momentos históricos. Há uma tomada de consciência da questão do campo e da herança do mundo rural na cultura contemporânea brasileira."

Para o professor, o País perdeu o bonde da reforma agrária pela primeira vez tão logo declarada a Independência, o que pode ser constatado no pronunciamento de José Bonifácio. Sem usar o termo, ele elabora o primeiro programa de reforma agrária que integraria escravos e índios através da educação. Defendia o patriarca que não bastava soltar o escravo. Era necessário dar a enxada, o terço e a Bíblia. "E a nossa elite optou por manter a escravidão e a monarquia." Segundo o raciocínio de Flávio, a escravidão contribuiu para uma política externa ambígua. Defensiva por causa da escravidão e ao mesmo tempo submissa à Inglaterra, que dominava o Atlântico. "Era como se arrastássemos um baú que ninguém queria olhar. Mas a literatura olha."

A segunda oportunidade passou na Proclamação da República. Em vez de se sanear o País e as instituições, o preconceito foi reforçado. Instalou-se o sentimento generalizado de que o País e seu povo seriam inviáveis devido à mestiçagem. Negros e índios eram considerados inferiores pelas elites. O povo brasileiro era tachado de preguiçoso. Na primeira República, o processo de ocupação por imigrantes europeus e orientais provoca ondas de exclusão que resultam em exércitos de migrantes e na marginalidade no campo.

À época, a política do governo favoreceu a imigração européia e oriental, deixando em segundo plano o caboclo e os descendentes de escravos, engrossando os cortiços nas cidades. A literatura entra em cena, mais uma vez, mostrando o abandono. Caboclos e negros sentem saudades da escravidão. Reclama-se que as relações eram então mais personalizadas e as responsabilidades mais claras. A mensagem era: o senhor podia ser ruim, mas se preocupava com seus escravos.

O última oportunidade foi perdida no governo Jango. Com a brutalidade da repressão na ditadura militar, a reforma agrária volta a ser tabu. "Perdemos a oportunidade de transformar o País, o que se reflete na literatura de revisão histórica. Surge um ângulo mais simpático à literatura camponesa." O último texto selecionado é a reportagem Moradores do corredor, de Murilo Carvalho. É um testemunho do surgimento de um movimento que mais tarde viria a ser o MST. Esse momento serve de ponto final para a obra de Flávio, traduzida por Antônio Candido, como um retrato do Brasil traçado por duas visões: a do oprimido e a do opressor. "O resultado é um mundo além do nosso mundo, que no entanto nos faz compreendê-lo melhor."

 

Com o dedo na ferida

Avesso às entrevistas, o mais importante crítico literário do País, Antônio Cândido de Mello e Souza, abre uma exceção e aceita receber ISTOÉ em seu apartamento em São Paulo para conversar sobre o livro de Flávio Aguiar. Falante, chama a atenção para a questão da terra e para a força do MST, segundo ele, único instrumento capaz de mudar a política agrária do Brasil.

ISTOÉ – Qual a importância do livro de Flávio Aguiar e onde a obra se encaixa na questão agrária atual?
Antônio Cândido – Estamos vivendo no Brasil um momento cruciante na questão da terra, da qual estão pendentes os mais graves problemas para o País, nunca resolvidos satisfatoriamente em termos modernos. O livro põe o dedo no problema crucial de nosso tempo: o problema da terra, o direito do homem sobre a terra, a maneira pela qual o homem tem ou não acesso a ela. O ponto de vista de Flávio é muito interessante porque faz isso através da literatura. Não é um livro de sociologia ou de economia. São textos literários. Isso é importante porque as críticas literárias do nosso tempo chamam a atenção sobretudo para o texto enquanto texto. O livro lembra que a literatura comunica alguma coisa. É a presença da realidade através da palavra. Flávio lembra que a literatura tem um compromisso com a realidade.

ISTOÉ – E sob o ponto de vista político?
Antônio Cândido – É uma antologia de textos literários com significado político relevante, mas não é sectário. Ele apresenta a visão da terra tanto do lado do oprimido como do lado do opressor, além de oferecer uma perspectiva histórica. Apresenta as diferentes modalidades de descrever a relação do homem com a terra desde o descobrimento. Portanto, é mostrada a mentalidade do séculos XVI, XVII, do tempo da escravidão, do tempo do trabalho livre e assim por diante. Não há ponto de vista preferencial, o que lhe dá amplitude política. Foram usados textos de autores de formação ideológica diversa. Inclusive, há um do líder fascista brasileiro, Plínio Salgado. É o que se chama de tour d’horizon, quer dizer, algo que é visto de vários ângulos.

ISTOÉ – O que está faltando para que se mude o cenário agrário, no momento que temos um político que se diz social-democrata na Presidência da República?
Antônio Cândido – Faltava o que está acontecendo agora. Não podemos esperar das classes dominantes que elas resolvam os problemas sociais, porque estão visceralmente empenhadas em que a situação permaneça de acordo com os seus interesses. No momento, estamos vendo um movimento – que Celso Furtado considera fundamental para o nosso século no Brasil – que é o MST. Pela primeira vez a sociedade brasileira está sendo obrigada a enfrentar o problema dos que têm direito à terra e não o vêem respeitado. E as transformações só ocorrem quando os interessados reivindicam. Por isso, devemos ter esperanças. Não porque as classes dominantes sejam clarividentes, mas porque as classes dominadas estão se levantando.

ISTOÉ – O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra está sendo bombardeado de todos os lados…
Antônio Cândido – Mas é claro. O movimento contraria frontalmente a nossa tradição de origem oligárquica. Em todos os países do mundo, a terra é o último setor a ser atingido pela transformação porque é o que há de mais conservador. A terra não tem tempo. Como dizia o grande historiador Fernand Braudel, o tempo histórico em função da terra se confunde com o tempo geográfico porque o ritmo das estações é sempre o mesmo: primavera, verão, outono, inverno…

Quem vem da terra é sempre conservador e quem possui a terra é mais conservador ainda. O que estamos vendo é a abertura dos oprimidos, o que dá esperança para que a sociedade tome consciência da gravidade do problema agrário no País e se liberalize.

ISTOÉ – Por que levou tanto tempo para que surgisse um movimento como o MST?
Antônio Cândido – Porque o Brasil é um país de estrutura oligárquica muito arraigada.

ISTOÉ – O sr. continua socialista?
Antônio Cândido – Mas claro.

ISTOÉ – O socialismo não acabou?
Antônio Cândido – Não. Que é isso!

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