Brasil

Na boa vida

Políticos e empresários envolvidos em grandes escândalos não foram julgados e continuam esbanjando

Na véspera do feriado baiano de 2 de Julho, enquanto nove em cada dez políticos se preparavam para a festança em torno do senador e quase-orixá Antônio Carlos Magalhães no Pelourinho, um ex-mandachuva do Congresso Nacional encerrava o expediente de uma decadente confecção de roupas. Em vez de eleitores, Genebaldo Corrêa, ex-líder do PMDB na Câmara, visitaria os bois de sua fazenda de 500 hectares onde se distrai desde que caiu em desgraça política, renunciando para escapar da cassação pela CPI do Orçamento. Na manhã seguinte, outro ex-poderoso na terra de ACM seguia para Itabuna, a quatro horas do Pelourinho, para cuidar de gado e cacau. Era o ex-banqueiro Ângelo Calmon de Sá deixando sua mansão no condomínio Bosque das Mangabeiras a bordo de uma Quantum azul-turquesa. Calmon de Sá está no banco dos réus por acusações de fraude no Banco Econômico e espera o BC decidir se leiloará seu vasto patrimônio para cobrir o rombo no cofre da União. O que têm em comum Calmon de Sá e Genebaldo, além de serem rejeitados nos palanques? Ambos integram um time seleto de bem-nascidos que o senso comum classifica – justamente ou não – de inimputáveis, ou seja, jamais correm o risco de ver o sol nascer quadrado. A galeria engrossa a cada dia com um Cacciola aqui, um Nicolau ali. O tempo passa, a memória nacional esmaece e, com raríssimas exceções, o destino é sempre o mesmo: seguem adiante, quase anônimos, com suas contas bancárias invejáveis.

Quem sabe onde está o gaúcho Ronald Levinsohn, dono da Caderneta de Poupança Delfin e de um dos mais rumorosos escândalos financeiros do regime militar? Por onde anda Cláudio Vieira, que montou para Fernando Collor a farsa da Operação Uruguai? Como vivem os Magalhães Pinto, que mergulharam seu nome aristocrático no lamaçal de fraudes que liquidou o Nacional? ISTOÉ saiu em campo para localizar esses personagens, que dariam tudo para ser esquecidos.

Enquanto os baianos lotavam o Pelourinho na manhã de 2 de Julho, outro figurão que encheu páginas de jornais com peripécias de sua instituição descia de seu Mercedes em frente ao prédio do grupo Delfin, que balançou o sistema financeiro de habitação no início dos anos 80. Quem passasse pelo local, no Humaitá, zona sul do Rio, dificilmente reconheceria Ronald Levinsohn, dono do complexo UniverCidade e de milhares de imóveis no Brasil e nos Estados Unidos. O antigo prédio da Delfin, avaliado em uns US$ 30 milhões, abriga a mantenedora das escolas e o cérebro das imobiliárias do grupo.

requentadores de endereços hollywoodianos do society carioca atestam: não há casa como a de Levinsohn na cidade. Cercada pela mata atlântica na Gávea, a mansão de 1.500 metros quadrados, ao estilo da caixa-forte do Tio Patinhas, tem vidros canelados suspensos por gigantescas colunas de concreto. Tem piscina, uma quadra de squash refrigerada, uma vasta biblioteca, um cineminha com 55 poltronas, fornos de lenha para pizza e uma adega de dar água na boca. Seu complexo educacional tem 12 mil alunos que pagam, em média, R$ 500 por mês. Mas a atividade central é a imobiliária. "A faculdade é um hobby que me diverte muito", observa Levinsohn. Os processos criminais contra ele foram arquivados, segundo o advogado Bruzzi Castello. Os réus agora são a União e os liquidantes porque o empresário quer se ressarcir de prejuízos que teria sofrido com maus administradores. Levinsohn é um homem livre e vive entre o Rio e Nova York, onde é vizinho do bilionário Edmond Safra, na Park Avenue. O empresário contratou um advogado milionário para defendê-lo nos principais processos: ele próprio. Aficionado por leitura, em especial livros de Direito, ele acorda às 4h para ler. Para desespero dos dirigentes de suas empresas, às vezes convoca para as 7h reuniões em sua casa, de onde pouco sai. Como um eremita dos tempos modernos, evita viajar em companhias aéreas nacionais para não encontrar brasileiros.

O anonimato dos Levinsohn deve povoar os sonhos de uma família tradicional que há quatro anos caiu na boca do povo – e da polícia: os Magalhães Pinto. Pesam sobre os ombros do ex-presidente do Nacional, Marcos Catão de Magalhães Pinto, acusações de gestão temerária e fraudulenta e de sonegação de informações ao BC. "Acredito que ele seja condenado, estou convencido das culpas. Preso, não sei", diz o procurador Rogério Nascimento.

"Se interessar ao público dessa reportagem sensacionalista saber do sofrimento alheio, digo que perderam um banco, crédito, esperança de solução imediata dos problemas, mas não a confiança de explicar o malogro do Nacional, que atuava num mercado anômalo", ataca, para defender seus clientes, o caro advogado Sérgio Bermudes. Os Magalhães Pinto – Marcos, Fernando, Eduardo e Ana Lúcia – não perderam nenhuma das mansões registradas no catálogo Sociedade brasileira, de Helena Gondim, a bíblia na qual os socialites do Rio disputam um verbete a tapa. Ana Lúcia conseguiu recentemente uma liminar retirando-a da condição de ré nos processos criminais, onde continuam os irmãos. Beirando os 65 anos, Marcos não lembra em nada os gângsteres dos filmes. Baixinho, se parece com o pai, o lendário político e banqueiro Magalhães Pinto, de quem herdou o inconfundível jeito mineiro. Católico praticante e discreto, é casado há 35 anos com Maria José, tem seis filhos e dois netos. Aos domingos, a missa na igreja Santa Mônica ou na capela da PUC, na Gávea, é obrigatória. O programa predileto sempre foi contratar um pianista para tocar modinhas para os amigos – de preferência ao sabor de arroz, feijão e carne moída – na sala de 400 metros quadrados da mansão no Alto da Gávea. A comida simples destoa da casa, cinematográfica, de 12 suítes. A entrada tem colunas gregas em mármore italiano. Com o escândalo, as serestas foram suspensas. Ele vive dos salários das empresas da família. "Não podem vender nada, mas só o usufruto do patrimônio dá para sustentar algumas gerações", observa o procurador.

Seria exagero dizer que nada de ruim ocorreu com os atores de tantos escândalos. Calmon de Sá perdeu, segundo o advogado Nelson Felmanas, 90% de seu patrimônio. Mesmo assim, é muito rico. Não pode vender nada, mas recebe rendas das fazendas, aluguéis de imóveis e ainda R$ 25 mil do fundo de pensão do Econômico. Conta com a valorização de ações em empresas no promissor setor da petroquímica. Dá e sobra para manter as despesas da mansão avaliada em R$ 1,7 milhão e da casa de veraneio na Ilha de Itaparica (R$ 350 mil). Na relação de bens encaminhada pelo ex-banqueiro ao BC, consta um apartamento em Nova York de US$ 560 mil, além de outros imóveis em Salvador. Uma primeira vitória seu advogado já garantiu, ao arquivar três processos em que o Ministério Público pedia o leilão dos ativos de três empresas suas. "Dizer que perdi tudo é força de expressão, mas eu tinha cinco mil funcionários fora do banco. Hoje, são mil. Vivo na ginástica porque o preço do cacau está baixo. Perdi também a franquia da Coca-Cola."

Morosidade Sócio de quatro clubes em Salvador, o ex-banqueiro reduziu ao mínimo as badalações com a mulher, a ex-miss Bahia Anna Maria. Aos 62 anos, ele é réu em seis ações criminais na Justiça Federal da Bahia, quatro de denúncias deste ano. O procurador Antonio José Carneiro de Oliveira está convencido de que Calmon de Sá praticou crimes, principalmente gestão fraudulenta (penas de três a 12 anos). "Ele deve ser condenado, mas para a prisão acho que não vai", diz, num raciocínio de difícil compreensão para o homem do povo. É claro que cair na gana do governo não basta para condenar alguém. Mas a boa vida dos acusados e a demora dos julgamentos põem pulgas atrás da orelha do contribuinte. A morosidade é tanta que às vezes leva à loucura até os réus. No desespero da alma penada que não entra nem sai do inferno, Genebaldo escreveu em janeiro ao procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, implorando pela aceleração de seu inquérito. Com os bens indisponíveis, ele quase teve o apartamento de quatro suítes em Salvador leiloado. "Quero ser julgado. Sou inocente, mas o povo se considera credor de uma punição." O credor tem seus motivos. Dos 18 deputados do escândalo do Orçamento, nenhum passou um dia atrás das grades. Dois foram denunciados: João de Deus (corrupção) e Ibsen Pinheiro (sonegação). Em 1997, a Polícia Federal pediu ao STF mais prazo para concluir o inquérito, de 1994, em que investiga Genebaldo. O tribunal consultou a Procuradoria e até hoje não teve resposta. Um procurador disse a ISTOÉ que Brindeiro decidiu arquivar tudo.

Aos 58 anos, cinco filhos e dois netos, Genebaldo mora com a mulher e uma filha de 12 anos num apartamento de 360 metros quadrados, metade do patrimônio de R$ 600 mil declarado à CPI. Ele caiu na lista de cassações por movimentar, sem explicação, R$ 1,3 milhão em suas contas. Refeito da depressão, foi trabalhar na confecção Aviva Têxtil, da mulher, Marta, num bairro popular de Salvador. A empresa, que chegou a fabricar 20 mil peças, está falindo. Não significa que o ex-deputado esteja na rua da miséria. Ele é do diretório regional do PMDB e visita cada vez mais, num Tempra 96, a fazenda em Araçá.

 

Dia trágico O peso mais pesado da turminha do Orçamento foi outro baiano, João Alves de Almeida, que renunciou, acusado de manusear US$ 51 milhões e distribuir propinas. Vive entre um luxuoso apartamento de 345 metros na cobiçada SQS 111, em Brasília, e outro, de 250 metros, em Salvador, com vista para a praia de Ondina. Só recentemente a PF descobriu o "laranja" que lavava os milhões desviados. Casmurro como sempre, em Brasília ele só é visto pelos vizinhos ao entrar e sair de seu Verona branco. Em Salvador, outro motorista o conduz num Taurus grafite. Raramente caminha pela praia ou cumprimenta os vizinhos. Seus bens também estão bloqueados.

ISTOÉ localizou João Alves em Salvador num dia trágico, 28 de junho, momentos após a morte do filho mais velho, Roosevelt, 53 anos, vítima de úlcera. A pedido da família, o ex-deputado não foi fotografado no funeral. "Não tenho nada, sou um pobre aposentado", disse ele, por telefone. Além de aluguéis, vive da aposentadoria de deputado, uns R$ 6 mil líquidos. Após três casamentos, chegará solteiro aos 80 anos, em setembro. A primeira mulher, Clélia Albuquerque, 70 anos, foi rainha do rádio na Bahia em 1958. Ela dá uma explicação que pode ser fantasiosa para o silêncio do ex-marido: "Se ele falar, é um homem morto. Ele não tem dinheiro nos paraísos fiscais, como muita gente bem maior."

 

Dívidas O esforço para manter o elevado padrão que tinha na era Collor levou outro figurão dos escândalos nacionais à bancarrota. O advogado alagoano Cláudio Vieira, chefe de Gabinete do ex-presidente, caiu, quem diria, nas garras de agiotas em Maceió. Perdeu muito, mas mantém o apartamento de quatro quartos na praia de Pajuçara. Com poucos clientes, atua numa sala emprestada. Na Federação de Vela e Motor, onde guardava seu veleiro, as informações são de que se desfez do barco para pagar dívidas. "Sou um homem comum, que trabalha para sobreviver sem luxo. Me deixem em paz. Da imprensa, quero distância." Foram estas as frases arrancadas de Vieira por ISTOÉ.

 

Tudo igual no Orçamento

Um soco no estômago. Foi a sensação de quem acompanhou a CPI do Orçamento ao descobrir, este ano, que uma entidade do presidente atual da Comissão de Orçamento, deputado Lael Varella (PFL-MG), abocanhou todos os recursos para a construção de hospitais em Minas. São R$ 9,5 milhões para a Unidade 2 do Instituto de Saúde Maria da Glória Ferreira Varella, o Hospital do Câncer, na pequena cidade de Muriaé. A segunda das cinco parcelas de R$ 1,9 milhão saiu em 13 de julho. O dinheiro é público, mas não precisa de licitações para ser gasto porque é manuseado pela Fundação Cristiano Varella (nome de um filho que o deputado perdeu em 1994). A prestação de contas da primeira parcela só será feita para permitir a liberação da terceira.

Quem passa pelo quilômetro 707 da BR-116 se impressiona com a obra, de 17 mil metros quadrados numa área de 80 mil, com um lago artificial. Fica em frente a uma fazenda do deputado. Uma placa gigante anuncia gastos públicos de R$ 9,5 milhões, num total de R$ 25 milhões. Os equipamentos foram comprados com R$ 3,8 milhões doados no ano passado pelo então falido governo Eduardo Azeredo, antes mesmo de o hospital começar a ser construído. Outros R$ 11 milhões, o deputado garante, serão da fundação.

Por muito menos dinheiro, dezenas de deputados da máfia do Orçamento perderam o mandato, por renúncia ou cassação. De lá para cá, várias práticas de transferência de recursos foram legalizadas. "Se aquelas coisas ocorressem hoje, ninguém seria cassado", afirma Sérgio Miranda (PCdoB-MG), que integra a comissão atual e foi um dos mais atuantes investigadores da CPI. "Foi tudo certinho, bonitinho, não tem nada errado", defende-se Lael Varella.

Indiferente às denúncias de que o hospital nem sequer está em funcionamento, condição para receber auxílio federal, o Ministério da Saúde libera as verbas, limitando-se ao argumento de que agiu a pedido de 49 dos 56 parlamentares mineiros que assinaram o ofício solicitando a destinação dos R$ 9,5 milhões. O ofício gerou mais denúncias porque alguns deputados negaram tê-lo assinado. "Assinamos a emenda para tramitar na comissão, onde foi derrotada. Lael juntou as assinaturas a outro ofício e enviou para o ministro", afirma João Fassarela (PT). Lael, inocentado pela Mesa Diretora da Câmara, nega. Alheio à polêmica, o governo espera a primeira prestação de contas para liberar a terceira parcela de R$ 1,9 milhão.

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