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Além dos portões

Duas décadas depois, os filhos da Revolução Islâmica vão às ruas contra o regime dos aiatolás

A parte mais difícil da viagem é ultrapassar os portões", escreveu o grande homem das letras do Império Romano Marcus Terentius Varro (116 a.C.-27 a.C.). Nos últimos dias, os estudantes da Universidade de Teerã ultrapassaram os portões do campus colocando em xeque a estrutura política da teocracia islâmica do Irã. Tudo começou na madrugada de quinta-feira 8, quando os estudantes responderam aos violentos ataques da milícia ultra-ortodoxa Ansar Hizbollah (Seguidores do Partido de Deus), que agiam em conjunto com as forças de segurança iranianas. Os policiais e milicianos tinham entrado nos dormitórios da universidade, onde mataram um estudante e feriram outros 20, numa tentativa de reprimir as manifestações contra o fechamento do jornal Salam. O diário, que apoiava o presidente moderado Mohammad Khatami, publicara um memorando oficial do governo denunciando as diretrizes de repressão à liberdade de expressão. O que parecia ser mais um capítulo no embate entre os pragmáticos que apóiam Khatami e o clero ortodoxo capitaneado pelo aiatolá Seyed Ali Khamenei, líder religioso e poder de facto no Irã, se revelou um movimento com voz própria. Começava naquela noite o maior protesto contra o regime iraniano desde as gigantescas manifestações contra a ditadura do xá Reza Pahlevi, que abriram caminho para a Revolução Islâmica de janeiro de 1979.

Na segunda-feira 12, os estudantes tomaram as ruas de Teerã enfrentando policiais com slogans como "nós não queremos um governo que impõe a força!", "não queremos uma polícia mercenária!" As imagens de repressão de 20 anos atrás reapareceram como num flash-back: bombas de gás lacrimogêneo, cassetetes espancando os manifestantes e prisões aleatórias. A onda de inconformismo contaminou o país e em seis dias atingiu 18 cidades tomadas por universitários irados. Segundo o Conselho Nacional de Resistência pelo menos 30 pessoas teriam morrido nos confrontos. No caldeirão das manifestações destacaram-se centenas de mulheres que, pela primeira vez, desafiaram o tacão medieval que o regime islâmico lhes impõe. Algumas foram presas por gritarem frases contra as tradicionais vestimentas muçulmanas.

"Quando eu vejo as imagens das manifestações de agora, fico arrepiado: é exatamente a mesma coragem e determinação de 20 anos atrás. Na época, eu participei de todas as manifestações, vi muita gente morrer. O Ocidente aprendeu a identificar o Irã com ditadura, mas se esquece que esse também é o povo que mais lutou contra a tirania", disse a ISTOÉ o advogado Hamid Reza Eshaghi, 45 anos, membro do Conselho Nacional de Resistência Iraniana, exilado em Paris. "Os estudantes que saem nas ruas agora fazem parte de uma longa tradição de luta e coragem. Eles querem democracia e vão conseguir derrubar o regime", prevê Eshaghi. Hoje, metade da população do Irã tem menos de 25 anos, ou seja, não nascera ou era criança na época da Revolução Islâmica.

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Temendo uma reação de seus adversários conservadores do clero xiita, Khatami foi à televisão pedir o fim dos protestos. Na quarta-feira 14, os ortodoxos orquestraram uma manifestação em favor do regime e contra os estudantes que levou milhares de pessoas às ruas de Teerã carregando retratos do aiatolá Khamenei. Depois de uma semana de protestos, os duros aparentemente tinham conseguido retomar o controle da situação. Mais de dez mil pessoas teriam sido detidas, segundo a Organização dos Mujahedins (combatentes). Na operação de desmonte, valia tudo, até a delação. Um telefone foi colocado à disposição da população para denunciar o rastro dos manifestantes. O governo também ameaçou com pena de morte os responsáveis pelas rebeliões. "Estão aprisionando estudantes, matando, tirando seus direitos. Temos uma lista de pessoas que já desapareceram sob o regime. São as velhas gangues atuando", afirmou a ISTOÉ Bahram Barhamiam da Alliance for Defense of Human Rights in Iran, sediada em Virgínia (EUA). Barhamiam é ex-ministro do governo de Shapur Baktiar, o último premiê do xá, que ficou apenas sete meses no poder na derradeira tentativa de impedir a virada islâmica. Barhamiam conta que à distância, os dissidentes organizam-se. "Não estamos quietos, temos relações com organizações de direitos humanos até no Irã", afirma

Depois da tempestade, a grande incógnita é o futuro do presidente Khatami, eleito há dois anos e que, como um Gorbatchóv de turbante, está comprimido entre a ala reformista e a elite ortodoxa, que planeja a sua queda. "O presidente não quer massacrar o povo, mas também não controla o país. Não tem o poder absoluto de Khamenei", disse a ISTOÉ de Washington o analista político Waren Nelson, especializado em Irã. Segundo ele, o ideal para as mudanças democráticas de Khatami seria um cenário tranquilo, em que as reformas fossem injetadas em doses homeopáticas. Na agenda reformista, o líder supremo teria uma representação semelhante à da rainha Elizabeth II, com o poder real nas mãos do presidente e dos majlis (parlamentares). Outra demanda é o fim do poder de veto de candidatos eleitorais pelo Conselho de Guardiães.

Mas há cenários bem mais tumultuados. "O Irã é agora um trem descarrilhado e pode colidir a qualquer momento. Não há como saber o que acontecerá com este trem", diz o analista Nelson. Se houver colisão, ela poderá atingir em cheio Khatami que até a semana passada era o herói dos estudantes. Mohammad Mohadessine, do Conselho Nacional da Resistência Iraniana, acredita que esse é o começo do fim do regime dos aiatolás. "Khatami não chegará ao fim de seu mandato. Ele não pode nem quer fazer reformas. O que os estudantes querem não são transformações dentro do regime islâmico, mas o fim da ditadura dos religiosos em nome de Deus".

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Colaborou Rosely Forganes, de Paris

 

"O movimento vai continuar"

Abolhassan Bani-Sadr, o primeiro presidente do Irã depois da Revolução Islâmica de 1979, foi também o primeiro de seus filhos a ser devorado. Há 18 anos, ele vive exilado numa espécie de bunker, perto do castelo de Versalhes (nos arredores de Paris), protegido 24 horas por dia por soldados de elite. Eleito presidente em 1980 com 75% dos votos, caiu por obra e graça do mesmo Khomeini que ajudara a colocá-lo no poder. Em entrevista exclusiva a ISTOÉ, Bani-Sadr diz que o atual movimento estudantil é democrático e está muito além da luta entre pragmáticos e ortodoxos.

ISTOÉ O que significam essas manifestações nas ruas do Irã?
Bani-Sadr – O Irã é o primeiro país muçulmano onde a juventude se manifesta nas ruas pela democracia. As forças de repressão promoveram quebra-quebras e colocaram a culpa nos estudantes. O presidente Khatami acabou sendo obrigado a apoiar Ali Khamenei em sua decisão de reprimir os estudantes. Mas o movimento pela democracia vai continuar.

ISTOÉ Os estudantes questionam a ordem islâmica?
Bani-Sadr Não é a ordem islâmica que governa o Irã. O regime iraniano é contrário ao Islã. E essa onda de intolerância começou justamente com a repressão aos religiosos de Quom, o principal centro religioso do país.

ISTOÉ – Quais as semelhanças entre este movimento com o que derrubou o xá Reza Pahlevi 20 anos atrás?
Bani-Sadr As palavras de ordem são as mesmas. Os estudantes dizem: "Nós queremos os mesmos princípios que os nossos pais." Eles fizeram a revolução para ter a liberdade, a independência, o progresso e um Islã compatível com esses valores.

ISTOÉ – O sr. acredita que os jovens que votaram em massa no presidente Khatami foram traídos?
Bani-Sadr Não, porque eles não votaram em Khatami, mas contra o regime. Havia dois candidatos, um que era claramente o representante do sistema e Khatami, que se apresentava como independente. Creio que o povo sabia que ele não podia fazer grande coisa no quadro desse regime.

ISTOÉ Para o sr. essa revolta dos estudantes não é o último episódio da disputa entre pragmáticos e duros do regime?
Bani-Sadr De jeito nenhum, a juventude está agindo fora do alcance e do controle do regime, de maneira totalmente independente. Eles recusam a ditadura. Não se trata de um braço-de-ferro entre Khatami e Khamenei. Aliás, os dois agora estão juntos, se apoiando.

ISTOÉ A ofensiva dos duros começou com o assassinato de intelectuais no ano passado, depois a prisão do ex-prefeito de Teerã e, mais recentemente, a prisão de 13 judeus acusados de espionagem. Qual o objetivo dessa manobra?
Bani-Sadr Além dos radicais de Khamenei e dos moderados de Khatami, existe uma terceira força, exterior ao regime, que quer a democracia. Com essas operações, os duros desejam derrubar as pontes entre essa terceira corrente e os liberais de Khatami, para isolá-lo completamente. O objetivo é forçá-lo a se submeter aos radicais ou se demitir. Aparentemente, Khatami se submeteu.

Rosely Forganes, de Paris

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