Brasil

Campus de guerra

A violência cresce na Universidade de São Paulo, mas a comunidade resiste à entrada da polícia

A professora do Departamento de Letras da USP S.M.A. há dez anos mantém uma rotina. Ela mora perto da faculdade e vai a pé para o trabalho. No dia 19 de junho, às 11 da manhã, S.M.A foi estuprada num bosque perto do Instituto de Ciências Biológicas. É o auge da violência registrada dentro do campus da universidade mais importante do País. "Pensei que ia morrer. Depois que pegou meu dinheiro, me arrastou para o mato e aí começaram os abusos." A tortura durou 20 minutos. Abalada, a professora deu queixa na delegacia. Apesar da experiência traumática, S. continua contra a entrada da polícia na USP. "Dizer que a polícia vai resolver alguma coisa é falácia. É preciso um plano de segurança bem definido."

Maria Lucia Siberis, 57 anos, não tem curso superior, mas é pós-graduada em assalto. Sua lanchonete, dentro da Escola de Comunicações e Arte, na USP, já foi assaltada 20 vezes – sete delas só em 1998. "É sempre depois do almoço. Alguns são profissionais, que entram encapuzados, botam os funcionários no banheiro e levam alguém como refém. Outros a gente percebe que não têm prática. Ficam nervosos, atiram para o alto e gritam sem parar."

A Cidade Universitária, um terreno de 4,5 milhões de metros quadrados – três vezes maior que o Parque do Ibirapuera (SP) –, é cercada por um gigantesco muro com quatro saídas para carros e dez para pedestres. Todas são vigiadas dia e noite. Mas este esquema não consegue evitar o aumento da violência que tem assustado 60 mil estudantes, professores e funcionários. Um levantamento estatístico concluído pela Prefeitura da Cidade Universitária, em maio, aponta para um aumento das ocorrências, entre elas furtos, estupros e homicídios dentro do campus. Em 1998 os números superaram em 47% os de 1990. As ocorrências cresceram de 811 em 1990 para 1192 em 1998. As estimativas para 1999 são de que estes números sejam superados em 25%.

A discussão de como diminuir esses índices está estimulando um debate filosófico na universidade. Em qualquer outro lugar da cidade, a comunidade chamaria a polícia para combater a violência. Mas na USP a questão é política. Embora a restrição não esteja explícita no estatuto, desde o golpe de 1964 a entrada de policiais na universidade não é bem-vinda. O prefeito do campus, Gil da Costa Marques, é favorável à intervenção policial. "Quando a segurança interna não pode solucionar a questão, a gente chama a polícia. O ideal seria ter policiais atuando constantemente aqui", diz o prefeito. O reitor, Jacques Marcovitch, diz que a presença da polícia no campus só se faz necessária nos casos em que "a segurança interna não for capaz de resolver", mas não disse quais casos seriam estes. Costa Marques adianta já estar dialogando com a Secretaria de Segurança para negociar a entrada da PM na universidade.

A festa dos calouros dos cursos de História e Geografia deste ano foi uma outra amostra do nível de insegurança. Três homens armados assaltaram os veteranos que cuidavam do caixa da festa. "Discamos para o 190 porque a guarda não podia fazer nada. Os policiais chegaram uma hora depois e trocaram tiros com os bandidos, mas ninguém foi preso", lembra Rodrigo Savazoni, membro do Centro Acadêmico de História, que é contra a entrada da PM na USP. Os argumentos para a resistência à presença da PM não são muitos, mas envolvem pontos importantes como a autonomia universitária. Laura de Mello e Souza, chefe do departamento de História, é a favor do debate, mas não admite ferir a soberania.

Do outro lado, estão as vítimas dos assaltantes, que, sem pestanejar, receberiam a PM de braços abertos. "Se a polícia estivesse aqui, eu não ia viver com medo", diz Esmeraldo Brandão, 47 anos, funcionário do posto da UNE que foi assaltado no último dia 5 de maio. "Dois sujeitos puseram a arma na minha cabeça. Como é que vou trabalhar desse jeito?" Para o pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, Luiz Antônio de Souza, nem Esmeraldo nem qualquer outro estarão protegidos pela polícia. Segundo Souza, a questão é bem mais ampla. Desde que a universidade proibiu a entrada de visitantes nos fins de semana, impedindo que as comunidades vizinhas desfrutassem das áreas de lazer, criou-se um clima de animosidade. "Eles sentem raiva por não fazer parte desta realidade." Embora esteja ao lado da USP, a única ligação dos moradores da favela São Remo com os estudantes e professores é um portão. Acusados de serem responsáveis por parte das ocorrências, eles são proibidos de entrar no campus nos fins de semana. "É triste não poder levar as crianças para passear lá dentro", queixa-se Andréa de Souza, 28 anos, mãe de Michele, 11. "Vendi a bicicleta dela porque no morro é ruim de andar e ali dentro é proibido."