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As lições de Rapa Nui

A história do colapso ambiental da Ilha de Páscoa e o consequente declínio da sua civilização mostram como podemos ser nossos maiores inimigos

As lições de Rapa Nui

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TESTEMUNHAS SILENCIOSAS O culto aos moais fez com que os nativos destruíssem a floresta que cobria a ilha

O único voo regular até a Ilha de Páscoa costuma chegar ao aeroporto da pequena vila de Hanga Roa à noite. Debaixo de um céu absurdamente estrelado, gente dos quatro cantos do mundo não esconde a ansiedade. Ainda é preciso esperar algumas horas para ficar frente ao maior tesouro do território habitado mais isolado da Terra, os majestosos moais. As 887 estátuas de pedra vulcânica, esculpidas durante séculos pelo povo rapa nui, espalham-se pela ilha e transformam-na em um museu a céu aberto. Infelizmente, elas também são o símbolo maior de uma história trágica de desrespeito ao meio ambiente e exploração desenfreada de recursos naturais. Na verdade, seria mais apropriado chamar o território de 163 quilômetros quadrados de cemitério a céu aberto.

O processo de formação, apogeu e declínio da civilização rapa nui é o mais pungente exemplo de colapso ambiental já documentado. A história começa por volta do ano 400, quando polinésios muito provavelmente saídos das Ilhas Marquesas aportaram na praia de Anakena, a única do território. Ao longo de centenas de anos, eles se multiplicaram e desenvolveram uma sociedade complexa. Segundo as pesquisas do etnógrafo e aventureiro norueguês Thor Heyerdahl (1914-2002), um dos maiores estudiosos da Ilha de Páscoa, um dos traços mais marcantes do povo rapa nui era sua intensa espiritualidade. Instalados em um verdadeiro paraíso, os clãs ali estabelecidos passaram a cultuar seus ancestrais, representados na forma dos moais.

Até a última árvore As estátuas eram esculpidas aos pés do vulcão Rano Raraku – um dos três da ilha – e depois transportadas a altares cerimoniais localizados à beira-mar, a dezenas de quilômetros de distância. Para tanto, uma técnica especial foi desenvolvida. Deitados, com as costas para baixo, os moais eram rolados sobre troncos de uma palmeira endêmica da ilha em um processo que poderia levar vários dias e consumir centenas de árvores. Graças ao furor religioso e à competição entre clãs, mais de mil estátuas foram esculpidas, o que levou à extinção da planta. Esse único fato provocou uma reação em cadeia: sem as árvores, as aves migratórias que faziam parte da dieta dos ilhéus simplesmente sumiram. Pior: com o fim do suprimento de matéria-prima para a construção de canoas, a pesca em águas infestadas por tubarões também foi interrompida.

DELÍRIO RELIGIOSO
Os ilhéus derrubaram todas as árvores do território
para transportar os moais

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Não por acaso, o geógrafo americano Jared Diamond dedica boa parte do ótimo livro “Colapso – Como as Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso” (Editora Record) ao caso. “O quadro geral da Ilha de Páscoa é um dos exemplos mais extremos de destruição de florestas do mundo: todas as espécies de árvores foram extintas”, diz o autor.

O explorador holandês Jacob Roggeveen foi o primeiro europeu a chegar à ilha, no domingo de Páscoa de 1722. Segundo seus relatos, cerca de 2.500 nativos receberam sua tripulação com alegria e tranquilidade. Ao longo de uma semana, Roggeveen participou de rituais e mergulhou em uma cultura sofisticada, capaz até mesmo de criar uma rudimentar forma de escrita. Segundo as estimativas de Diamond, o holandês testemunhou o auge da civilização Rapa Nui.

DECLÍNIO ACELERADO
Em 150 anos, a população da Ilha de Páscoa
foi reduzida de 2.500 para 111 indivíduos

Guerra e canibalismo A partir daí, vários europeus passaram pela ilha e documentaram sua espiral rumo ao caos. Antes gentis anfitriões, seus habitantes passaram a hostilizar os visitantes. Famintos e impossibilitados de continuar com o culto aos moais, os clãs dividiram-se e passaram a disputar cada recurso natural disponível em guerras sangrentas. Casos de canibalismo começaram a ocorrer. Em 1862, traficantes de escravos peruanos capturaram boa parte da população, reduzindo-a à metade. Como se não bastasse, doenças introduzidas pelos europeus completaram a receita do desastre. De acordo com registros de missionários religiosos, apenas 111 nativos habitavam a Ilha de Páscoa em 1877.

Será que seguiremos o exemplo de Rapa Nui nas próximas décadas? De certa forma, o desenvolvimento de nossa sociedade replica o formato de exploração de recursos naturais aplicado na construção dos moais. Se os ilhéus destruíram seu ecossistema em nome da fé, fazemos o mesmo em favor do progresso. O que muda, no fundo, é apenas a escala de grandeza. Só nos resta tomar atitudes concretas para a preservação de nosso planeta e torcer para que as futuras gerações não conheçam o gosto amargo do fracasso.

Ilha de Páscoa
                                                                                        

 

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