Brasil

O passado condenou

Diretor da PF durou só três dias no cargo, mas fez bons estragos

O governo Fernando Henrique cumpre o doloroso dever de informar a seus aliados, civis e militares que o diretor-geral da Polícia Federal, João Batista Campelo, já era. O presidente promete anunciar nesta segunda-feira 21 o nome do novo diretor da PF. Empossado na terça-feira 15 numa cerimônia relâmpago, o delegado Campelo vai entrar para a história como o mais breve diretor da Polícia Federal. Já ferido de morte pela acusação do ex-padre José Antônio Magalhães Monteiro, que disse ter sido torturado por ele em 1970 numa subdelegacia da PF em São Luís, no Maranhão, o novo ex-diretor-geral da PF resistiu no cargo por apenas três dias. Entregou sua carta ao chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso, um dos avalistas de sua nomeação. Em nota à imprensa, Campelo se colocou no papel de injustiçado. "Como o apóstolo João Batista, minha cabeça foi pedida na bandeja. Só que desconheço a Salomé desses dias." Bíblico ou não, Campelo só serviu para desgastar ainda mais a imagem de FHC.

Depois de empurrar com a barriga por mais de três meses a substituição do xerife Vicente Chelotti, Fernando Henrique atropelou o ministro da Justiça, Renan Calheiros, e nomeou Campelo. Em vez de resolver o problema, causou uma confusão ainda maior. Sob um bombardeio de denúncias contra Campelo, o Planalto tentou manter a pose e segurá-lo. Acabou criando uma armadilha para si próprio ao condicionar a demissão a uma comprovação de que o delegado participou de sessões de tortura. Para sair dessa sinuca de bico, FHC orientou a cúpula tucana a apresentar um novo pretexto. "Direitos humanos são uma cláusula pétrea para o PSDB. Com prova ou sem prova, Campelo perdeu as condições políticas para ficar no cargo", sentenciou na quinta-feira 17 o presidente do partido, senador Teotônio Vilela (AL). Na verdade, Campelo não perdeu "as condições políticas", simplesmente nunca as teve. Um dia antes de cair, Campelo havia sido abandonado pelo governo quando foi depor na Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Nenhum líder da base governista deu o ar da graça. A única estrela foi o deputado Jair Bolsonaro (PPB-RJ), defensor do regime militar, da prática de tortura e até de ações armadas contra o sistema democrático.