Brasil

Afilhado na mira

Indicado por Temer é acusado de desvio nas Docas de São Paulo

O presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, sabia muito bem do que estava falando quando tornou públicas supostas irregularidades na Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), que administra o porto de Santos. ACM queria atingir o deputado Michel Temer (PMDB-SP), presidente da Câmara, que indicou dois dos últimos presidentes da empresa de economia mista. Aliado de Temer, o economista Marcelo Azeredo vem sendo apontado por sindicalistas como um dos responsáveis por desmandos à frente da Codesp. Na quarta-feira 16, o sindicalista Cláudio Moreira Taboada – que trabalha na área de elaboração de projetos da Codesp e é vice-presidente do Sindicato dos Desenhistas do Estado de São Paulo – enviou um fax a ACM alertando-o sobre as irregularidades que teriam sido praticadas na empresa durante a gestão de Azeredo, entre junho de 1995 e maio de 1998. Na sexta-feira 18, Taboada exibiu documentos para comprovar suas denúncias. Ele mostrou cópias de despachos autorizando a contratação dos serviços, sem licitação, de uma entidade chamada Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia (FTDE), que ofereceria cursos na área de recursos humanos. O contrato, no valor de R$ 3,1 milhões, foi firmado em fevereiro de 1998 e teria a duração de 12 meses. O problema é que esses cursos nunca existiram, garante Taboada. "Eu gostaria de ver a empresa mostrar a relação dos trabalhadores que participaram desse curso. Nunca ouvimos falar nesse programa."

Na carta a ACM, o sindicalista reclamou dos contratos firmados nas duas gestões de políticos ligados a Temer, que comprovam "gastos desnecessários para a União e favorecimentos a empresas que nem sequer vieram a participar de licitações". Ele citou um contrato no valor de R$ 1,4 milhão, aprovado em 1997, que beneficiou uma entidade chamada Fundação Institucional de Pesquisas Contábeis, Atuárias e Financeiras (Fipecafi). O objetivo seria fornecer "assessoria contábil" durante oito meses. "É um valor absurdo porque é um trabalho burocrático, sem a aplicação de quaisquer verbas ou aquisição de materiais", afirma Taboada. Azeredo foi candidato a deputado estadual pelo PMDB em 1994 e, no governo Fleury, exerceu o cargo de coordenador de Administração na Secretaria de Saúde. Nesse período, o Tribunal de Contas da União (TCU) considerou ilegais contratos feitos para a compra de kits para testes de exames de Aids e medicamentos. Ao deixar a Codesp, Azeredo indicou Paulo Fernandes do Carmo. Desde abril, a empresa é presidida pelo ex-deputado Wagner Rossi, que, apesar de peemedebista, não é ligado a Temer. Rossi informou que a empresa FTDE será chamada para provar se realmente prestou serviços à Codesp e que criará uma comissão para analisar os contratos questionados.