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Entrevista

Guilherme Fontes

Foi um estupro

Foi um estupro

Acusado de captar recursos em excesso para o polêmico Chatô, o rei do Brasil, Guilherme Fontes reclama das críticas impiedosas

Aziz Filho
Edição 02/02/2000 - nº 1583

Guilherme Fontes não parece saudoso dos tempos de galã da Rede Globo. Aos 33 anos, com uns bons quilinhos a mais e fios de cabelo a menos, agora ele está preocupado é com a finalização, como produtor e diretor, do longa-metragem Chatô, o rei do Brasil, o filme mais caro do cinema nacional, com a probabilidade de os gastos totais alcançarem a casa dos R$ 12 milhões. É façanha considerável para um estreante num país em que cinema ainda não é indústria. Fontes continua às voltas com problemas na Secretaria do Audiovisual, da qual espera a aprovação da prestação de contas – o secretário José Álvaro Moisés disse que até o momento não foram encontradas irregularidades – e o sinal verde para captar cerca de R$ 2 milhões para os últimos 15 minutos da fita.

As filmagens foram interrompidas em maio de 1999 por falta de recursos. Quase 100 pessoas tiveram de ser dispensadas e Guilherme Fontes virou alvo número 1 de grandes produtores, entre eles Luiz Carlos Barreto que o acusou de arrecadar muito e produzir nada. O “novato que entrou na terra dos reis para dividir um pouco o pão”, como Fontes se define, ainda teve suas atividades bisbilhotadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). “Foi um estupro”, declara. Diante do resultado da investigação inocentando-o, os acontecimentos começaram a mudar de rumo. Com dinheiro novo de uma empresa de cartões de crédito, a Credicard, as filmagens foram retomadas e agora o entra-e-sai na ZB Facilities (Zoetrope Brazil) – finalizadora que ele montou com a tecnologia de Francis Ford Coppola no Rio de Janeiro – em nada lembra a agonia do ano passado. Como se chegasse ao fim do inferno astral, Guilherme Fontes rompeu um silêncio de quase um ano para falar a ISTOÉ:

ISTOÉ – Quando é que, finalmente, você vai concluir Chatô, o rei do Brasil?
Fontes

Nos primeiros dias de maio quero fazer a pré-estréia em dez capitais. Vou semear o gostinho de um filme maravilhoso. Outra coisa é estar em circuito comercial, ter contrato com distribuidores. Esse filme precisa de um marketing violento, direcionado, objetivo, ligado ao produto, não um mar-keting especulativo.

ISTOÉ – Você não gastou demais?
Fontes

Isso é folclore. Gastei rigorosamente o previsto em 1996, quando o projeto foi aprovado. Podem todos ficar felizes, satisfeitos. Cumpri meu orçamento com muito sofrimento, como alguém que, financeiramente, começou do nada e que, do zero, realizou uma das mais importantes histórias brasileiras, a de Assis Chateaubriand.

ISTOÉ – Será a maior produção do cinema brasileiro?
Fontes

O importante é saber se é bom. Ninguém sai de um filme falando que custou um ou dez milhões, sai falando “oba” ou “hum, que merda”.

ISTOÉ – Quando terminar, qual será o gasto total de Chatô?
Fontes

 É muito difícil separar os custos dos vários produtos do nosso projeto. Na fase de pesquisa, foram entregues os documentários. Em seguida, distribuídas 40 mil fitas de 45 minutos. Em fase de filmagem temos o seriado O caudilho e o jagunço, o longa e o making of. Ainda vou entregar um especial de trilha sonora e de finalização, mostrando a engenharia de produção.

ISTOÉ – O público não tem o direito de saber quanto o filme custou?
Fontes

Eu ainda não acabei, mas sigo o mesmo plano de dezembro de 1996, que foi de R$ 12 milhões para todos os produtos. Aliás, como o orçamento de um filme é pensado em dólar, o preço final acaba sendo bem menor do que o previsto. Captamos R$ 8,5 milhões. Outros R$ 2,4 milhões são do meu bolso, que busquei com parcerias. A Globosat foi brilhante no processo. Estão faltando uns R$ 2 milhões. O próprio filme deve montar a credibilidade para atrair mais recursos. Quem tem de acabar de montar a credibilidade fiscal e contábil é o Ministério. Os órgãos competentes estão absolutamente sob controle. Os investidores não têm razão para temer. Cria-mos um dos grandes fatos de marketing do cinema nacional.

ISTOÉ – Para a sociedade, compensa aplicar tantos milhões em um filme?
Fontes

A sociedade não pode viver sem cultura. Se a produção cultural não existir, não existirá a sociedade. O que salva o mundo globalizado são as culturas próprias, as diversas formas de arte. As indicações para o Oscar com Central do Brasil, O quatrilho, O que é isso, companheiro? deram muita visibilidade, geraram notícias boas do Brasil. Nunca o cinema gerou tanto espaço na mídia. Nossas participações no cenário do cinema mundial foram magistrais, avançamos, arrasamos. A Embratur deveria ficar feliz da vida com o cinema nacional porque vendeu muito bem o País lá fora.

ISTOÉ – Qual sua opinião sobre a indicação de Orfeu para eventualmente representar o Brasil no Oscar?
Fontes

Gostei muito. Cacá Diegues é o Di Cavalcanti do cinema brasileiro.

ISTOÉ – Mas a projeção do cinema brasileiro não é pífia para o tamanho da nossa economia?
Fontes

Poderia ser muito maior, mas hoje há um festival de cinema em cada Estado. É sinal de que existe muita produção independente, graças à Lei do Audiovisual.

ISTOÉ – Você foi muito criticado, especialmente pelo cineasta Luiz Carlos Barreto, por captar muito e produzir pouco. Que balanço faz dessas críticas?
Fontes

Houve muitos excessos. Tenho 33 anos, estou contando a história de um dos brasileiros mais importantes, o cara que trouxe a comunicação. No mundo da comunicação, é óbvio que vai gerar polêmica. Quanto às críticas mais contundentes, digamos que eu seja aquele novato que entrou na terra dos reis para dividir um pouco o pão. Se este pão não viesse para o novato, estaria só com os sete reis. É natural que eles se incomodem. Quanto à imprensa, a imprensa é assim mesmo. Está tudo certo. O importante é que se fale do filme.

ISTOÉ – Por que misturou realidade com ficção em Chatô?
Fontes

Quero que minha empresa tenha uma identidade muito própria nas histórias que inventar e produzir. Assim como em Chatô, nossos projetos galgam alguns degraus. Os documentários contam uma história real. Se essas histórias realmente forem boas, podem virar longas de ficção para o cinema. Com isso, exercito minha narrativa e meus roteiristas, que são muitos.

ISTOÉ – Não teme deturpar a história?
Fontes

Pelo contrário. Vou aguçar a curiosidade. Não há mentira ou deturpação. Uso a história para que a gente tenha mais curiosidade. Quem vê o filme fica com vontade de ler o livro.

ISTOÉ – Por que no filme os nomes de personagens reais são fictícios?
Fontes

Foi uma opção clara de proteção. As pessoas estão aí, vivas, tenho de respeitá-las. Estou em um momento em que não me interessa a nomenclatura, mas o caráter brasileiro. Todos os personagens são frutos da minha cabeça. Quem viveu viu. Quem não viveu vai imaginar.

ISTOÉ – Qual foi a participação de Francis Ford Coppola no seu filme?
Fontes

Foi de 100%. Ele atuou na roteirização, nos meus conceitos de produção. Criamos uma empresa de finalização, a ZB Facilities, financiamos um dos maiores filmes brasileiros. A finalização de filmes nacionais tem sido feita só no Exterior, o que significa que 15% a 20% dos gastos com um filme acabam nos Estados Unidos.

ISTOÉ – O que falta para Chatô ficar pronto?
Fontes

Falta captar um resíduo. O Ministério está fazendo contas, redimensionando. Acho que, no máximo em uma semana, vamos definir métodos e caminhos para que todo mundo fique seguro, tranquilo, feliz.

ISTOÉ – O governo pode interferir no seu filme?
Fontes

Se eu fosse eles, não faria isso. Ao concluir um filme de uma hora e meia, vi que tenho um trabalho muito mais genial do que poderia imaginar. Descobri que dá para finalizar com menos recursos do que previa em maio de 1999. Eu pensava que iria precisar de seis semanas e meia de filmagens. Em agosto, filmei mais três e meia, inclusive na França. Imagino que as três restantes possam ser reduzidas para duas. Uma eu vou fazer agora, graças a recursos recentes do Credicard. É o encontro de Getúlio Vargas com Chatô no Sul, o momento aventura do filme. Acho que posso fazer no Rio as cenas da Paraíba. E faltam os efeitos especiais com cenas de Copacabana, mostrando o Rio da época.

ISTOÉ – As investigações da Comissão de Valores Imobiliários e do Ministério da Cultura não podem prejudicar sua imagem e sua carreira?
Fontes

Claro que não, pois não há nada de errado. Já foram encerrados os processos administrativos, concluí-dos os da CVM, as verificações do Ministério, as auditorias possíveis e imagináveis. Já me sacudiram de tudo quanto é lado e não acharam absolutamente nada. Não há o que me impeça de ir para a frente.

ISTOÉ – Como você enfrentou esse período de investigações?
Fontes

Foram os piores momentos da minha vida. Eu estava criando uma obra dificílima, com responsabilidade e lisura totais, quando a CVM começou a ligar para todo mundo para saber se eu tinha pago ou não. Foi um estupro. Sempre soube que fariam auditorias, mas os excessos estão no sangue brasileiro. Todos os órgãos têm autoridade para investigar o que quiserem. Estranho é virem só em cima de mim. Foi muito tempo de prejuízo. Já imaginou um filme desses, um boeing desses, totalmente parado? De maio até hoje, tive muito prejuízo em função do que foi publicado, da suspeita de eu ter feito alguma coisa errada, desses pequenos e macabros ataques. Além disso, o dólar dobrou e, no novo governo, mudou a maioria dos diretores de empresas que me patrocinavam. Mas hoje estou rindo, me divertindo porque a obra está linda.

ISTOÉ – O que aconteceu de novo para você estar tão confiante?
Fontes

Fizeram todas as investigações e nada encontraram. Portanto, nada mais errado do que me manter parado. Minha empresa é uma fonte geradora de empregos e tecnologia. O próximo passo do filme é o Ministério me aprovar no projeto Mais Cinema, de complementação. Eu me candidatei no ano passado, mas em função do que aconteceu o Ministério não foi tão veloz quanto poderia ter sido. Independentemente disso, meus patrocinadores podem ficar tranquilos porque temos um grande filme na mão. Temos uma hora e 35 minutos prontos. As metas foram cumpridas em 90% e faltam só 15 minutos.

ISTOÉ – Por que demorou tanto o processo de filmagem?
Fontes

Porque há uma dificuldade muito grande de se captar recursos para fechar orçamentos. No momento em que os filmes começarem a ser feitos com recursos totais, a margem de erro vai cair muito. Depois de quatro anos e tantas dificuldades, é triste, mas é normal uma margem de erro. A captação começou há três anos, em dezembro de 1996. Não é muito tempo para um épico como Chatô. Foi pouco tempo. A aflição é porque todo mundo está muito a fim de ver o filme. Eu também.

ISTOÉ – Você ficou ou vai ficar rico com esta fita?
Fontes

De forma alguma. Eu reinvisto tudo. O que eu ganhei até hoje na vida, como ator, produtor ou diretor, investi tudo nos negócios.

ISTOÉ – Em algum momento se arrependeu de ter deixado a carreira de galã?
Fontes

Estou exercitando, atuando, dirigindo minha história, fabricando meus sonhos, mitos e ideais. Procuro soluções para o cinema brasileiro. Produzimos mais horas de filmes e documentá-rios do que muito peixe graúdo. Quanto mais produzir, melhor. A Lei do Audiovisual é muito interessante, democrática, porque permite à pessoa crescer, permite ao jovem artista criar um projeto audiovisual. Um garoto de 18 anos que tiver uma idéia pode seguir em frente. Tem de haver uma indústria de cinema no Brasil. Hoje está dando sopa. É possível, para muitas pessoas, investir. Há muito espaço para isso.

ISTOÉ – O que é melhor, atuar em novelas ou produzir filmes?
Fontes

Olho meus amigos na tevê e fico com saudades, querendo fazer coisas. Mas estou apaixonado por produzir filmes.





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