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Entrevista

Antoninho Marmo Trevisan

Números radicais

Números radicais

Acostumado a mergulhar nos problemas das empresas, Antoninho Marmo Trevisan até prevê um 2000 melhor, mas diz que dona Ruth supera FHC e que o novo presidente deve atacar a crise social

ANDREA ASSEF
Edição 12/01/2000 - nº 1580

Aos 50 anos de idade, Antoninho Marmo Trevis1an é o comandante da Trevisan, a única empresa brasileira a compor o ranking das maiores empresas de auditoria e consultoria do País. Com o seu exército de 500 funcionários, ele luta bravamente ao lado de gigantes multinacionais como Price Waterhouse e KPMG. Esse especialista na arte de esmiuçar os números das companhias, quem diria, repetiu em Matemática no primeiro colegial. "Ser um bom contador é muito mais do que saber fazer contas", diz ele. "Através da contabilidade é possível interpretar os fatos econômicos, políticos e sociais." E é isso o que ele faz a seguir. Bem-humorado e animado com o ano que começa, Trevisan aposta na volta do crescimento e, de quebra, anuncia o seu apoio a Lula para a Presidência. "É preciso radicalizar para tirar o Brasil da miséria em que se encontra", diz. Nascido em Ribeirão Bonito, Trevisan veio aos dez anos estudar em São Paulo. Aos 13, foi trabalhar como office-boy numa imobiliária no centro da cidade. Foi ali que decidiu fazer contabilidade ao perceber que o seu Celso, o contador da empresa, era a pessoa que mais sabia o que acontecia dentro da imobiliária. Casado há 25 anos com Helena, uma psicóloga, e pai de três filhos, Trevisan jura que não faz auditoria nas contas da casa. Só não resiste às contas dos restaurantes. "Eu sempre confiro e geralmente na metade dos casos há erros", garante. Nesta entrevista, o consultor critica a privatização descontrolada e defende com veemência a escolha da educação como prioridade nacional. Não por acaso, ele próprio criou no ano passado a Faculdade Trevisan para formar administradores e contadores mais qualificados para enfrentar o mercado de trabalho.

ISTOÉ – O que vem pela frente na economia brasileira?
Trevisan

Acho que a pior parte já foi concluída. Neste quinto ano de estabilização da moeda está claro que houve um aprendizado na formação de preços. Finalmente as empresas foram aprendendo que preço não é a soma de custo mais lucro. Portanto, hoje você tem uma nova cultura empresarial.

ISTOÉ – O que mudou exatamente nas empresas?
Trevisan

Elas se tornaram mais competitivas interna e externamente. Isso possibilitou que dessem passos maiores, principalmente no Exterior, o que permitiu uma melhora substancial na balança comercial. Nós já estamos praticando superávit.

ISTOÉ – Então, as perspectivas para este ano são muito melhores do que as de 1999?
Trevisan

Sim. No ano passado, as pesquisas mostravam que poucas empresas iriam investir ou contratar, o que de fato aconteceu. A nossa última pesquisa, feita em novembro passado com 25 líderes empresariais, mostrou que 74% dos entrevistados pretendem fazer contratações e 77% vão fazer novos investimentos já previstos em seus orçamentos para 2000. Isso significa que finalmente vamos ultrapassar a barreira dos 4% de crescimento ao ano.

ISTOÉ – A pesquisa revela alguma nova tendência entre o empresariado?
Trevisan

 Aí temos uma boa surpresa. Os empresários brasileiros acordaram para o problema social. Hoje a questão de como apoiar e desenvolver a atividade junto ao terceiro setor passa a ser objeto de encontro dentro das empresas, com direito até a previsão no orçamento. A pesquisa mostra que 95% dos empresários ouvidos pretendem expandir suas atividades junto ao terceiro setor.

ISTOÉ – O sr. acompanha essa movimentação no Brasil?
Trevisan

Participo de 10 ONGs. Sou diretor da Fundação Abrinq, sou diretor da AACD, sou membro do Programa Alfabetização Solidária, do Instituto Ethos. Nesses lugares eu encontro banqueiros, industriais, comerciantes, líderes empresariais sentados em volta de uma mesa discutindo propostas alternativas.

ISTOÉ – Como deve ficar a imagem do Brasil no Exterior?
Trevisan

Houve uma tomada de posição lá fora. Percebemos que as negociações no ambiente externo carecem de um profissionalismo muito grande. A própria atuação da Organização Mundial do Comércio (OMC) mostrou que a globalização enfatizou uma distância entre os mais ricos e os mais pobres. Mostrou que não basta você deixar o equilíbrio das coisas por conta do mercado. É preciso haver uma ação institucional que estabeleça limites. Juntou-se neoliberalismo com globalização e isso resultou numa maior concentração de renda e exclusão dos países mais pobres. É como uma corrida em que alguém já saiu na frente.

ISTOÉ – Durante os últimos tempos, quem pensou assim foi enquadrado como esquerda antiga.
Trevisan

É verdade. Todo mundo se deslumbrou. É natural, pois nós vivemos durante quatro décadas num regime de reserva que tinha de mendigar para comprar um carro. Isso gerou uma certa dose de impaciência com esse regime de proteção. Aí nós fomos para o outro lado e enquanto isso o resto do mundo se organizou em blocos e se tornou defensor dos seus espaços. O Brasil já tinha consolidado a sua abertura e não negociou posições dentro da OMC. E a gente viu barreiras sendo levantadas nos Estados Unidos para a nossa laranja, que ainda usa mão-de- obra infantil nas colheitas, o que faz com que essas crianças percam a impressão digital. Hoje isso está praticamente erradicado. Foi um trabalho muito grande da Fundação Abrinq, mas você ainda encontra crianças trabalhando, por exemplo, nas carvoarias.

ISTOÉ – Como as crianças perdem a impressão digital durante a colheita?
Trevisan

Ao manipular a laranja, a mão sensível da criança entra em contato com uma espécie de película formada pelos agrotóxicos. Isso desgasta a mão e apaga a impressão digital da criança que se transforma num cidadão sem identidade porque isso é irreversível. Se não houver uma radicalização política, nunca vamos combater esses absurdos causados pela miséria.

ISTOÉ – Só um governo de esquerda pode fazer isso?
Trevisan

Você já respondeu. Aí é que está o x da questão. A gente conviveu com governos cujos compromissos não permitiram que tivessem o vigor necessário, a vontade política para fazer isso. Só mesmo um governo que radicalize com relação à miséria na sua plataforma eleitoral, seja prefeito, governador ou presidente, vai obter resultados efetivos nesse sentido. Se ficar na periferia dizendo que vai globalizar, que vai estimular as empresas, não resolve. Numa primeira fase vai ter de ensinar a pescar e dar o peixe.

ISTOÉ – Qual é o seu candidato à Presidência?
Trevisan

Votaria no Lula, com certeza, como fiz nas últimas três eleições.

ISTOÉ – Ele ainda tem fôlego político para mais uma eleição?
Trevisan

Acho que sim. Toda vez que um representante da elite chega ao poder não soluciona a questão social. A impressão é que a saída passa mesmo por eleger pessoas que tenham um forte embasamento na causa social, como o Lula. Além disso, quem conversa com o Lula percebe o quanto ele está aberto a ouvir e até a mudar de posição desde que seja convencido.

ISTOÉ – O sr. poderia dar um exemplo?
Trevisan

Certa vez conversamos sobre privatização e a questão tributária. O Lula defendia que tinha de cobrar cada vez mais impostos, como o sobre patrimônio. Eu mostrei a ele que isso, somado à defesa absoluta da manutenção das estatais, levaria a um processo de fuga de capitais. Ele passou a admitir que, em certos casos, não fazia sentido o Brasil manter empresas estatais. Por outro lado, ele foi muito mais competente do que eu, pois viu que num processo de internacionalização das economias o País iria precisar muito de suas estatais. E estava certo. Faltou ao Brasil desenvolver uma modelagem de privatização que preservasse, em alguns casos, até mesmo o controle do Estado sobre a empresa. Lula também acertou ao dizer que o desenvolvimento econômico não iria permitir uma redistribuição da renda. Por isso, tenho razões para apoiá-lo.

ISTOÉ – Quais foram os principais erros do governo na privatização?
Trevisan

Os países soberanos são aqueles que têm empresas transnacionais. No caso do Brasil, cometemos um grande erro, que espero que o governo possa contornar: o de não valorizar as marcas brasileiras. Quando uma empresa vai para outro país, ela leva a cultura, os valores e passa a ser uma espécie de embaixada. Quando eu trago capitais externos, perpetuo uma demanda por remessa de lucros e dividendos, o que contradiz a máxima de que capital não tem pátria. A pátria do capital é onde vive o seu acionista. É para lá que retorna o capital na forma de dividendos. No caso do Brasil, não houve uma preocupação em se definir uma estratégia para fortalecer as empresas nativas. Foi um erro dramático provocado por um modismo. O mundo privatizava e ai de quem não o fizesse. Hoje temos de conviver com os distúrbios gerados. Isso acabou nos enfraquecendo, por exemplo, perante a Organização Mun-dial do Comércio (OMC), pois perdemos a nossa força econômica.

ISTOÉ – Como fica o trabalho daqui para a frente?
Trevisan

O conhecimento passou a ser um fator determinante da liderança dos países. Os EUA, por exemplo, já definiram que a educação é um assunto de segurança nacional porque ninguém domina outro país através de guerras, e sim com conhecimento. Por isso, a primeira questão no Brasil deve ser a educação.

ISTOÉ – Nesses anos de governo FHC houve algum avanço efetivo nesse sentido?
Trevisan

 Se teve alguma coisa importante que o governo FHC fez foi na área de educação. No Programa Alfabetização Solidária já foram alfabetizados cerca de 800 mil brasileiros em idade adulta. A idéia foi da dona Ruth Cardoso, que, aliás, se daria muito bem como presidente da República e não como mulher do presidente. Eu sou muito mais ela do que ele.

ISTOÉ – Diria que no campo da educação o governo cumpre o seu papel?
Trevisan

Não, isso é apenas o começo. Enquanto o presidente não focar a educação como prioridade nacional, inclusive do ponto de vista orçamentário, vai levar muito mais tempo para o Brasil se integrar nesse mundo novo. Um estudo do professor Reinaldo Gonçalves da UFRJ diz que, para cada ano passado na escola, há a possibilidade de aumentar a renda de um indivíduo em 16%. E para quem fica 12 anos numa escola de boa qualidade a chance de ser pobre se reduz a 2%.

ISTOÉ – As fusões vão continuar?
Trevisan

O processo é interminável. Quando eu fundei a Trevisan, há 16 anos, dizia que havia deixado a Price porque só uma empresa pequena podia atender bem aos seus clientes. Hoje nós temos 500 pessoas e digo o contrário, que só uma empresa grande consegue atender bem aos seus clientes. Mas é isso mesmo. Houve uma revolução tecnológica. Antes era quase impossível você gerir uma empresa imensa, pois havia perdas no processo difíceis de serem gerenciadas. A informática permitiu a comunicação em tempo real e você passou a gerir a empresa por indicadores. Com isso, você estabelece metas. As fusões ocorrem pela necessidade de ter uma vantagem competitiva perante os concorrentes.

ISTOÉ – As fusões não podem “matar” a indústria nacional?
Trevisan

O Brasil viveu um período de economia inflacionária, onde as pessoas gastavam energia para controlar o seu negócio sem saber onde estavam pisando. Some-se a isso um longo período de regime fechado. Quando houve a abertura da economia, o mundo já tinha uma outra cara e aí nós estávamos defasados tecnologicamente. Por isso as fusões são necessárias. Nós precisamos fazer parcerias estratégicas para nos integrar e, dessa maneira, preservar as empresas nativas.

ISTOÉ – Nesse cenário, vai haver espaço para as empresas menores?
Trevisan

Sempre. Os nichos de mercado vão sempre existir. As empresas continuarão florescendo e nisso o Brasil é de longe o melhor exemplo. O brasileiro pela sua própria miscigenação produz o seguinte fenômeno: o que nos ajuda, nos atrapalha. Nos atrapalha o fato de sermos exageradamente criativos e, por causa disso, é difícil fazer com que todos sigam o combinado. Por isso somos tão arredios a ler manuais. O que nos arruína, nos traz também uma enorme vantagem. É por isso que temos ini-ciativas empresariais e culturais que nascem todo o tempo.

ISTOÉ – O brasileiro, então, é um empreendedor por natureza?
Trevisan

Exatamente. Não se tem notícia de países que tenham tantas empresas abertas. O Brasil tem quatro milhões de micro e pequenas empresas, o que mostra que a potencialidade desse ambiente é enorme. O brasileiro tem a capacidade de operar por ouvido como numa escola de samba: um bando de gente chega naquela noite, sendo que a maioria nunca se viu, e, de repente, todo mundo dança na mesma cadência, no mesmo ritmo.

ISTOÉ – O que é preciso fazer para melhorar a imagem da empresa brasileira lá fora?
Trevisan

Uma política de governo voltada para estimular e apoiar esse tipo de empresa no Exterior. Não adianta você largar uma companhia brasileira e dizer deixa que ela vai brigar sozinha. Se você não estabelecer uma ação onde o Itamaraty esteja envolvido nesse processo, as empresas brasileiras não vão avançar.

ISTOÉ – Então é preciso um certo protecionismo?
Trevisan

Não. Mas é preciso haver uma integração das políticas públicas com objetivo de apoiar as empresas brasileiras. O presidente precisa se conscientizar de que o papel dele no Exterior é vender a empresa brasileira. Ele ainda não se deu conta disso. FHC não precisa ter vergonha do empresário brasileiro. Ao contrário, eu posso garantir que ele vai estar cercado de gente muito boa.



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